terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Cuidar dos vivos, Maylis de Kerangel (Teodolito)


  Este livro foi-me emprestado por um amigo, que o recomendou vivamente, e a leitura, desde que comecei a lê-lo, foi quase obsessiva. Qualquer minuto que dispunha, pegava nele para voltar a embrenhar-me na história. A última página sempre marcada. Um livro que nos abala e faz sofrer enormemente e por isso surpreende como não conseguimos parar de o ler. Abandonar a leitura. Interromper quando custa tanto ler:
 (...) bruscamente vê passando diante de si, o pai e a mãe, os pais do paciente do quarto sete, esse jovem ao qual colocou uma sonda esta tarde, aquele que está morto e que terá os órgãos retirados esta noite, são eles; segue com o olhar a sua marcha lenta até às altas portas de vidro, encosta-se a um pilar para os ver melhor: a esta hora as vidraças transformaram-se em espelho, eles refletem-se nelas como os fantasmas se refletem na superfície dos lagos nas noites de Inverno; são a sombra de si mesmos, dir-se-ia para os descrever, revelando a banalidade da expressão menos a desagregação interior desse casal do que sublinhando o que eram ainda esta manhã, um homem e uma mulher de pé diante do mundo, e, ao vê-los caminhar no soalho lacado de uma luz fria, qualquer um poderia entender que doravante aqueles dois prosseguiam a trajetória iniciada algumas horas antes, já não viviam exatamente no mundo de Cordélia e dos outros habitantes da Terra, antes se afastavam efetivamente dele, ausentavam-se, e deslocavam-se para um outro domínio, que era talvez aquele onde sobreviviam durante algum tempo, juntos e inconsoláveis, aqueles que tinham perdido um filho. (...)
    O livro é de um sofrimento atroz, sem atenuantes, na primeira parte. A notícia da morte do filho, a incompreensão da morte quando o coração ainda bate e o peito  se eleva com o ar que nele penetra. A autorização do transplante do coração, dos pulmões, do fígado e dos rins, e a recusa do transplante dos olhos. O pedido para sussurrar-lhe ao ouvido, antes de desligarem as máquinas, os seus nomes, bem como o da irmã e da namorada. O sofrimento que é também partilhado pelos médicos e enfermeiros. E por quem o lê e se imagina a passar por aquilo. O que faria, o que diria.
    Retirados os órgãos, fugiam para outros corpos. Acompanhamos o coração. E a segunda parte, que se lê muito bem, não tem a densidade da primeira, talvez porque esperássemos uma qualquer justificação para aquela morte inicial, para o sofrimento causado. Ou até um sinal que algo permanecia para além daquele emaranhado de veias, artérias e sangue. E parece pouco, que soubéssemos apenas do coração e já não dos restantes órgãos. E não soubéssemos sequer como irá acordar  Claire, a recetora do coração. O livro acaba cedo de mais, pareceu-me.
    Do princípio ao fim, o livro está muito bem escrito, parece que as frases se encadeiam e articulam de forma a dar-nos as personagens, os seus sentimentos, os lugares por onde passam, do que se lembram, o que foram e o que são.

    Após a leitura, descobri que foi adaptado ao cinema, com o mesmo título em português, Cuidar dos vivos. Realizado Katell Quillévéré, foi exibido em festivais e recebeu vários prémios (César Awards, France 2017 – Nomeação Best Adapted Screenplay, Toronto International Film Festival 2016 – Nomeação Platform Prize, Valladolid International Film Festival 2016 – Nomeação Golden Spike, Best FilmVenice Film Festival 2016 – Nomeação Venice Horizons Award Best Film).

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