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O Diabo foi meu Padeiro, Mário Lúcio Sousa (D. Quixote)

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     Uma amiga emprestou-me este livro, que lhe foi oferecido com uma bonita dedicatória do Autor, que acaba com a frase «com o afeto dos mundos que somos.» Poucos dias depois, na Feira do Livro, encontrei o Mário Lúcio Sousa, sentado entre outros escritores, de língua portuguesa, ao dispor de quem lhes quisesse pedir um autógrafo ou uma dedicatória. Apesar de ter sentido que era absurdo sujeitá-los a esta situação, expectantes de leitores que por ali passassem e os reconhecessem, não resisti a comprar o último livro dele, Afrocalipse, e pedir que o dedicasse à minha amiga. Não me recordo do que escreveu, mas sei que foi algo igualmente bonito. Será que escreve o mesmo em todos os livros ou que guarda um conjunto de frases poéticas para as distribuir pelos livros que lhe pedem para assinar ou será que estas lhe surgem à medida que escreve dedicatórias?     Li O Diabo foi meu Padeiro enquanto decorrem escavações arqueológicas para localizar a Frigideira, a cela d...

Notas sobre o luto, Chimamanda Ngozi Adichie (D. Quixote)

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    Quando comecei a escrever este blogue, mal acabava de ler um livro sentava-me a escrever sobre ele. Achava fundamental transmitir as sensações e impressões que tinham resultado da leitura, o que só poderia fazer se as escrevesse imediatamente. Agora espero sempre alguns dias antes de me sentar a escrever, como se tivesse necessidade de digerir o que li. Nalguns casos releio partes do livro como se precisasse de amadurecer ideias.      Há alguns dias que acabei de ler este livro. E já reli partes.     Gosto muito dos livros da Chimamanda (dispenso os apelidos por sentir que a conheço muito bem). Dela li A Cor do Hibisco , Todos devemos ser feministas , A coisa à volta do teu pescoço e Americanah . Recordo-me que foi a minha mãe quem primeiro me falou dela e me emprestou este último livro que foi o primeiro que li.     Não resisti por isso a comprar este Notas sobre o luto, sabendo de antemão que o luto de que falava era o do pai, que morr...

Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva (D. Quixote)

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    É pouco comum ver um filme e de seguida ler o livro que lhe deu origem. Sinto que o filme esgota o livro e por isso não sinto vontade de o ler.   Já o contrário não é verdade. Com frequência vejo filmes já tendo lido os livros nos quais se basearam. Sinto curiosidade sobre a forma como as palavras escritas passam para o écran, em especial os pensamentos, os sonhos ou os desejos das personagens.     Mas nalguns casos o filme abre as portas ao livro. Aconteceu-me com A zona de interesse . Depois de ter visto o filme, fiquei com curiosidade de ler o livro, da autoria de Martin Amis, e o mesmo sucedeu com o filme Ainda estou aqui . Nestes dois casos, depois de ler os livros em que se basearam os filmes, sinto que são histórias quase distintas ou como se o filme nos contasse apenas um episódio de uma história bastante mais complexa e longa.      O filme Ainda estou aqui inquietou-me, impressionou-me, arrepiou-me. Conheço mal a história brasileira...

O desejo de Kianda, Pepetela (D. Quixote)

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      A meio do livro Noites de Peste, de Orhan Pamuk, que ia lendo com uma folha ao lado onde anotava os nomes dos paxás, sultões e governadores que se sucedem vertiginosamente na ficcional ilha de Mingheria - que no príncípio do livro acreditei existir – abri O desejo de Kianda e só parei quando acabei de o ler.     O início do livro consta da contracapa e convida logo à leitura:     «João Evangelista casou no dia em que caiu o primeiro prédio. No largo do Kinaxixi. Mais tarde procuraram encontrar uma relação de causa e efeito entre os dois notáveis acontecimento. Mas só muito mais tarde, quando a síndrome de Luanda se tornou notícia de primeira página do New York Times e do Frankfurter Allgemeine. Aliás, João Evangelista casou às cinco da tarde, na Conservatória do Kinaxixi, e o prédio caiu às seis. A existir relação, parece claro ser o casamento a causa e nunca o suicídio do prédio. O problema é que as coisas nunca são tão límpidas...

A Família Netanyahu, Joshua Cohen (D. Quixote)

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    O meu irmão, que habitualmente acerta nos livros que escolhe para me oferecer, deu-me A Família Netanyahu no Natal. Na altura a situação que se vivia em Gaza já era absolutamente chocante, mas ainda estava distante do horror dos números atuais. Hoje ficou-se a saber que nos quatro primeiros meses do conflito em Gaza foram mortas 12 300 crianças, mais do que as crianças mortas em todas as guerras combinadas de 2019 a 2022. E hoje também vimos na televisão o primeiro-ministro Benjamim Natanyahu recusar todos os apelos da comunidade internacional reafirmando que não parará.     Hesitei antes de começar a ler o livro e depois de o ler demorei vários dias antes de me decidir a sentar e a escrever sobre ele. O facto de ter ganhado o Prémio Nacional do Livro Judaico, para além do Prémio Pulitzer, ainda aumentou a minha hesitação. Porque razão o Prémio Nacional do Livro Judaico seria atribuído a um livro que não fizesse os leitores simpatizar com esta famíli...

Misericórdia, Lídia Jorge (D. Quixote)

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   Ao contrário do que é habitual, não escrevi sobre este romance quando acabei de o ler. Não o fiz por ter, entretanto, ido de férias ou começado a ler outros livros, mas porque precisava de o digerir.     Misericórdia, para além da qualidade da escrita, confronta-nos com as nossas opções, a nossa realidade, os nossos medos. Ao lê-lo lembrei-me das mãos da minha avó, agarradas às minhas, enquanto me pedia que não permitisse que um dia a pusessem num lar. Morreu em casa, e gosto de pensar que todos os dias a sentavam no sofá, na sala, junto à janela, a apanhar um pouco de sol e a ver quem passava na rua. Um direito que devia assistir a todos, mas que a poucos é permitido.     Depois de ter lido Misericórdia, ouvi a Autora, Lídia Jorge, explicar o sucesso do livro pelo tema tratado, que definiu como os «marginais da idade que não têm lugar no mundo (…) e que são vítimas do nosso sistema neoliberal económico (…) não encontrámos uma forma mais h...

Um detalhe menor, Adania Shibli (D. Quixote)

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      Um blogue sobre livros não é o espaço certo para debater política e falar sobre guerras, mas quando os efeitos chegam aos livros e aos autores, a situação é distinta. Não conhecia esta Autora, Adania Shibli. Ouvi falar dela pela primeira vez quando li a notícia que a Feira do Livro de Frankfurt tinha decidido cancelar e adiar indefinidamente a entrega do prémio LiBeraturpreis, prémio destinado a homenagear escritoras do Sul Global por uma obra recém-publicada em alemão.     Na sequência deste adiamento/cancelamento, mais de 350 autores, incluindo alguns que muito aprecio e respeito, subscreveram uma carta na qual lamentam o sucedido considerando que a Feira do Livro de Frankfurt tem «responsabilidade de criar espaços para escritores palestinos compartilharem seus pensamentos, sentimentos e reflexões sobre literatura nestes tempos terríveis e cruéis, e não de silenciá-los». Eu diria que esse é o papel da literatura: compartilhar pensamentos, se...

Narciso e Goldmund, Herman Hesse (D. Quixote)

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   Em vários momentos de Narciso e Goldmund, lembrei-me de Siddartha. Narciso e Goldmund foi publicado em 1930, 8 anos depois de Siddartha. Em ambos os romances, estão presentes a procura, o misticismo e a fé, mas sempre num registo dual, marcado logo pelas distintas opções de ficar e de partir. Ao contrário de Siddartha, em Narciso e Goldmund esta dualidade é assumida por cada um deles. O primeiro escolhe viver no mosteiro, uma vida mística dedicada ao espírito, enquanto Goldmund escolhe a errância, os caminhos sem destino, a procura do prazer.      «No fundo, toda a existência parecia basear-se na dicotomia, na oposição dos contrários: ou se era homem ou mulher, vagabundo ou pequeno-burguês, guiado pelo intelecto ou pelos sentidos - nunca e em lado algum o inspirar e o expirar, a masculinidade e a feminilidade, a liberdade e a ordem, o instinto e o espírito podiam ser experimentados em simultâneo; sempre se pagava um com a perda do outro e sempre o aspeto q...

Silverview, John le Carré (D. Quixote)

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     Silverview foi, simultaneamente, o primeiro livro de espionagem e de John le Carré que li. Neste blogue há algumas recensões de livros deste Autor, destacando-se a relativa a O Fiel J ardineiro , mas nunca tive curiosidade de ler as obras de John le Carré, mesmo esta que deu origem a um filme de que gostei muito.    Não tenho por isso referências a autores ou a outros livros deste género que me permitam fazer comparações, mas a minha surpresa foi o ter constatado que Silverview é, na sua essência, uma história de amor. Um amor interrompido, impossibilitado por convenções sociais e que só é retomado muitos anos depois. Com exceção de um antigo corretor da City, que abandona tudo para abrir uma livraria, as outras personagens são quase todas agentes de espionagem ou familiares de agentes, habituados por isso às exigências e aparentes excentricidades da carreira.       É curioso saber que é uma obra póstuma e que foi a única que...

O Colégio, Cristina Almeida Serôdio (D. Quixote)

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    Comecei por oferecer este livro, O Colégio , antes de o ler, e sobre ele ouvi as mais diferentes opiniões. Não sobre a escrita, mas sobre o que conta: a vida no colégio interno, no qual a Autora, Cristina Almeida Serôdio, entrou alguns anos antes do 25 de abril e onde permaneceu durante sete anos. Entre as antigas alunas com quem falei, há quem não se reconheça nas histórias que conta e no ambiente que descreve, e há quem, pelo contrário, se identifique plenamente.     Entrei no colégio alguns anos depois da Cristina, na véspera do 25 de abril, mas consegui rever-me em quase tudo o que conta. Como se o livro tivesse acordado memórias que pensava não existirem, incluindo espaços e cheiros, desde o refeitório, às aulas, aos livros lidos clandestinamente, até à comida. À imensa amizade que se constrói naquela permanência contrariada durante sete anos. Amizade feita de laços tão fortes como os que se tecem entre irmãos, afinal vivemos muitos dias e noites j...

Os Memoráveis, Lídia Jorge (D. Quixote)

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    Os Memoráveis traz na primeira página um poema de Alexandre O'Neill e depois uma citação extraordinária saída dos Murais de Lisboa: « Desculpem não nos encontrarmos nestas ruas. Só nasceremos amanhã. »      E não poderia ser mais adequada à narrativa, porque, para além da protagonista, Ana Maria Machado, ter nascido depois do 25 de abril, penso que Lídia Jorge escreveu Os Memoráveis a pensar nas gerações mais jovens que também não o viveram. Quando o livro se inicia, em novembro de 2003, Ana Maria está numa receção em Maryland, em casa do antigo embaixador em Portugal (Frank Carlucci?) quando é desafiada a preparar uma reportagem sobre o 25 de abril, para um programa chamado A História em Vigília ou A História Acordada (« Ela deveria ir lá, quanto antes, recolher o resto da metralha de flores que ainda existe entalada entre as pedras da calçada de Lisboa », pg. 14). Esse programa incluiria reportagens noutras capitais, como Budapeste, Praga, Berlim e Bucar...

A Casa Eterna, Hélia Correia (Publicações Dom Quixote)

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    É muito difícil escrever sobre um livro que se leu lentamente para apreciar cada frase, cada parágrafo. Um livro que me causou uma inveja tremenda. Gostaria tanto de ter sido eu a escrevê-lo. Ou pelo menos algumas partes:     " (...) Esta casa que eu tanto imaginara, querendo ver levantados os cheiros, as paredes, circula no entanto como um redemoinho de pós e de bolores em torno das chinelas de Perpétua. O que quer que existiu aqui já está desfeito. Não houve tempo para que a podridão tratasse dos lugares a seu modo, um por um, conforme os usos, conforme as horas que lhes foram dedicadas. É um corredor velho e sem memória. Está reduzido à sua própria sombra."       Se dividir o livro, as suas 242 páginas, pelos dias que levei a lê-lo, terei menos de dez páginas por dia. E apesar da lentidão com que o li, quando cheguei ao fim, pensei que não sabia exatamente a história que me era contada. Porque n'A Casa Eterna o mais importante...

Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio (Publicações Dom Quixote)

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    Uma amiga emprestou-me este livro que eu queria ler há algum tempo, dizendo-me que era um livro extraordinário. Não foi a única a dizer-mo. Mau Tempo no Canal integra a lista dos 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos , selecionados por um júri convidado pela Estante . Um clássico, portanto, como refere Italo Calvino deveria dizer que estava a relê-lo e não a lê-lo. Mas, na realidade, só agora o li. E mais, confesso que não foi um livro fácil de ler.     À superfície é um livro sobre os Açores ou mais precisamente sobre as designadas ilhas do triângulo, Faial, Pico e São Jorge e sobre a vida dos seus habitantes no pós I Guerra Mundial. Uma sociedade profundamente estratificada e fechada, isolada do mundo e distante não só do continente como das outras ilhas, mesmo as mais próximas. A existência de doentes com peste sem qualquer auxílio médico é quase inimaginável. Contudo, a questão da situação da mulher parece-me ser o ponto central d...

O domador de leões, Camilla Lackberg (D. Quixote)

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    Continuo a surpreender-me com a explosão dos livros policiais de autores nórdicos que, tenho a sensação, substituíram as escritoras britânicas, já com alguma idade e cabelos brancos que, entre chávenas de chá, imaginavam crimes e criminosos hediondos. Parece-me, porém, que nenhum crime nem criminoso inventado por elas chegava aos pés destes. Mas não é a maldade ou o horror do crime que faz um bom livro policial nem sequer o seu desfecho ou o suspense que o antecede. Para mim, que não tento sequer adivinhar o autor do crime, um bom livro policial é aquele em que vamos descobrindo lentamente as pistas que vão sendo plantadas parcimoniosamente, conduzindo-nos, como se estivéssemos na cabeça de quem investiga o crime, à descoberta do criminoso. Mas em que o mais importante é o motivo, a causa do crime.    Desta autora, é o terceiro livro que leio, depois d' A Ilha dos Espírito s e A Sombra da Sereia , e neles encontro a ideia do mal gratuito, sem razão ...

A Cozinha Açafrão, Yasmin Crowther (Dom Quixote)

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    Existe sempre um certo receio em começar um novo livro: vamos gostar?; vai prender-nos?; vamos passear com ele indefinidamente, inventando sempre uma nova desculpa para não lhe pegarmos? E se este novo livro vem na sequência de um outro que não nos despertou interesse, o receio é ainda maior. Afinal, com tanta coisa para ler, o que menos nos apetece é perder tempo com livros que não nos tocam.     Por esse motivo, quando peguei em A Cozinha Açafrão , depois de ter desistido da leitura de Era Tudo tão Bom , queria mesmo que fosse um livro que me envolvesse. Apesar de tudo, já estava na minha estante há algum tempo, porque foi uma compra impulsiva à conta da promoção em que se encontrava; ainda assim, uma amiga muito querida já me tinha dito que tinha gostado, descrevendo-o como «muito forte». E é. Subscrevo a opinião.     Gosto de livros sobre outras culturas; é a minha forma de viajar e conhecer o mundo sem ter de sair de casa nem pagar uma fort...

O segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell (D. Quixote)

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    A primeira referência que vi a este livro, O segredo de Joe Gould, foi ao prefácio de António Lobo Antunes. Foi por aí que comecei a lê-lo. É um prefácio entusiástico que começa da seguinte forma:    Este é, sem dúvida, um dos melhores livros que li nos últimos anos ....Depois de o ler compreendi o entusiasmo, que me parece resultar mais da personagem tratada que do autor.     Por partes: este livro é, como explica o autor, constituído por dois retratos da mesma pessoa, Joe Gould, escritos para um rubrica de perfis do The New Yorker, o primeiro em 1942 e o segundo, 22 anos depois, em 1964, já depois da morte dele.     Joe Gould nasceu numa família abastada de Massachusetts e estudou em Harvard onde se licenciou em 1916.  Alguns anos mais tarde, foi viver para Nova Iorque onde termina por deixar o trabalho que tinha para se dedicar a escrever a História Oral do Nosso Tempo. Apresenta e fala do seu projeto a várias pessoas ...

A vegetariana, Han Kang (D. Quixote)

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      A vegetariana é um livro absolutamente inquietante e arrebatador. Ao longo da sua leitura tive impressões distintas, inicialmente pensei que esta história não poderia decorrer ou ter como cenário outro país ou outra cultura, mas noutras partes pareceu-me universal nos problemas que aborda e na forma como o faz.    O livro tem três partes, a primeira dá o nome ao livro, A vegetariana , e é narrada na primeira pessoa pelo marido de Yeong-hye, a segunda parte tem o título Mancha mongólica e é contada pelo cunhado e a terceira parte, Árvores flamejantes , é narrada pela irmã. Todas as partes acabam de forma inquietante, como uma espécie de clímax da parte respetiva.          A protagonista, Yeong-hye, é a mulher, a cunhada, a filha, a irmã, mas nunca tem voz ativa, a não ser em pequenos diálogos, quando responde ao que lhe é perguntado. O marido descreve-a como uma pessoa banal (.... sempre pensei nela como alguém que não ...

O vendedor de passados, José Eduardo Agualusa (Edições D. Quixote)

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    É tão bom apaixonarmo-nos por um livro. A este livro cheguei através do filme. Vi primeiro a adaptação ao cinema de Lula Buarque de Hollanda e fiquei fascinada pela história. No final verifiquei que se tratava de uma adaptação de um romance, com o mesmo nome, de José Eduardo Agualusa. Não me recordo detalhadamente do filme, que já vi há algum tempo, mas embora a ação decorresse no Brasil e não em Angola  e os passados e personagens fossem distintos, a história é similar: o passado comprado (criado) transforma a pessoa e torna-se mais real que o passado vivido. Em ambos,  o vendedor de passados é surpreendido pela transformação que se gera no seu cliente,  que incarna a personagem que resultou daquele passado e vai reforçando e consolidando desta forma a sua história.      O que é afinal um vendedor de passados?     (...) vende-lhes um  passado novo em folha. Traça-lhes a árvore genealógica. Dá-lhes as fotografias dos avô...

Caçadores de cabeças, Jo Nesbo (publicações D. Quixote)

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     A Maria João emprestou-me este livro e mal consegui largá-lo até à última página. Não é um policial clássico. Estamos do lado dos maus, mas aparentemente são-o todos ou quase todos, o que leva a reviravoltas absolutamente surpreendentes até ao final do livro, o epílogo.     Não se trata de crimes passionais ou perpetrados por pessoas desequilibradas. E se o móbil é o dinheiro ou a posição social, também surpreende que os criminosos sejam pessoas bem integradas socialmente e com excelentes níveis de vida. Igualmente surpreendente é a descrição do relacionamento de Roger Brown, o protagonista, e Diana, a sua mulher, que diz a dado momento: "O equilíbrio é crucial. Isso aplica-se a todas as relações boas, harmoniosas. Equilíbrio na culpa, equilíbrio na vergonha e na consciência pesada."     A ação decorre vertiginosamente e o leitor pensa que acompanhou tudo mas percebe no final que foi ludibriado. A conversa final dos dois - R...