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Manifesto pela Leitura, Irene Vallejo (Bertrand Editora)

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     Duas razões me levaram a comprar este livro e a iniciar logo a sua leitura: a capa, maravilhosa, de Ana Monteiro, e a Autora, Irene Vallejo. Dela li O Infinito num junco , um livro extraordinário, fascinante. Uma ode à leitura e aos livros. E se o Infinito num Junco incidia sobretudo sobre a invenção do livro, pensei que este, muito mais modesto em termos de dimensão, fosse um libelo a favor do livro físico. A defesa da leitura em papel em detrimento do écran. Mas só aborda esta questão de passagem:     "Um livro respeita a nossa atenção, mantém-nos desligados das urgências, das notificações e da publicidade. Não tem baterias para carregar, é resistente e pode ser muito belo. Não sofre a obsolescência programada, pois a sua vida útil abrange muitos séculos. Soa, cheira, podemos acariciá-lo. O papel convive harmoniosa e pacificamente com os seus irmãos de luz, os écrans, mas possui uma aura que nós, apaixonados pela literatura, amamos e reconhecemos."  ...

Uma abóbora gila e Os Quatro Ventos, Kristin Hannah (Bertrand Editora)

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      Faz agora um ano mudámo-nos temporariamente para a casa onde um amigo vive, porque a nossa casa estava em obras. A casa, onde ficámos  durante um mês e meio, ocupa o rés do chão direito de uma moradia inserida num grande jardim, em Paço de Arcos. No andar de cima moravam os proprietários, o casal, no lado direito e, do outro lado, uma das filhas.  Ao lado da casa, uma moradia de dois andares, há uma pequena casa onde então residia um nonagenário, e que era simultaneamente arrecadação de ferro velho que ele transportava diariamente numa carrinha branca, velha e barulhenta. Ele não ouvia o barulho da carrinha, como também não me ouvia quando o cumprimentava ou quando me oferecia para fechar o portão.  No jardim, nas traseiras da casa, há uma outra casa que serve de arrecadação.     Durante anos passei pelo portão daquela casa sem perceber o espaço que lá havia e sem conhecer as pessoas que ali moravam.  Gatos circulam livre e desdenhosame...

O Infinito num Junco, Irene Vallejo (Bertrand Editora)

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     Não me lembraria de comprar este livro se não me tivesse sido recomendado pela Livraria do Viajante. Como levo muito a sério as recomendações que lá me fazem, vim com o livro debaixo do braço, apesar de ostentar uma cinta que, entre elogios de Mario Vargas Llosa, Juan José Millás e Alberto Manguel, dizia que o livro tinha sido um fenómeno de vendas em Espanha e o livro mais lido do confinamento. Aprendi a desconfiar destes encómios e a preferir livros que já ganharam algum pó nas estantes. Mas neste caso não me arrependi.      A priori parece-me extraordinariamente arrojado escrever sobre a invenção do livro na antiguidade, mas  é fascinante ver como a autora consegue fazê-lo como se nos contasse uma história que vai interrompendo e misturando com histórias pessoais e excertos de livros de autores atuais. O Infinito num junco começa, no prólogo, com grupos de homens a cavalo a percorrer os caminhos da Grécia, o que causa desconfiança e ...

Mensagem de uma Mãe Chinesa Desconhecida, Xinran (Bertrand Editora)

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    Foi na Feira do Livro de Lisboa do ano passado que comprei este livro, e tem estado na minha estante desde então. Não é o primeiro livro que leio de Xinran - apesar de, pelos vistos, essa leitura ter sido anterior ao início deste blogue. A demora, neste caso, deveu-se ao facto de saber de antemão que seria um livro que, embora quisesse ler, me ia ser difícil fazê-lo.     E foi.    Como a própria autora explica, « Neste livro irá conhecer histórias dramáticas que narram o que tradicionalmente acontecia às bebés abandonadas e aquilo que continua a acontecer. [...T]omei a decisão de que, por muito que me custasse, iria escrever as histórias que tinha guardado durante tanto tempo. [...] Todos os nomes de pessoas e lugares foram alterados neste livro, de modo a salvaguardar a privacidade das mães biológicas. Contudo, as histórias são todas verdadeiras. »       Xinran partilha com os seus leitores dez histórias de mães que tiveram, de...

A Princesinha, Frances Hodgson Burnett (Bertrand Editora)

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    Uma das minhas mais queridas recordações de infância é das noites passadas em casa dos meus avós, deitada na cama, com a minha avó a ler-me, por bocadinhos, a história d' A Princesinha , de Frances Hodgson Burnett, e do meu avô a abrir devagarinho a porta, para nos assustar, dizendo que o lobo mau ia devorar a Princesinha.      Sempre me foi uma história querida, porque é uma história mágica, uma história de esperança, e porque eram os meus momentos de princesa dos meus avós.     O ano passado, na Feira do Livro, decidi comprá-lo, para poder ter um volume desta obra querida na minha estante e, quem sabe, vir a lê-la aos meus filhos, como a minha avó me lia a mim.     Depois da crueza de Misery , precisava de ler alguma coisa bonita e simples.    A leitura foi muito rápida. O livro lê-se extremamente bem  e devo salientar que a tradução e a revisão são irrepreensíveis! Ainda assim, fiquei um pouco indignada com algum...

Enamoramento e Amor, Francesco Alberoni (Bertrand Editora)

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    Há muitos anos, já, a minha mãe estendeu-me este livro, dizendo que era "um daqueles livros que toda a gente lia na [sua] adolescência". Folheei-o uma ou duas vezes, mas nunca cheguei a decidir-me lê-lo de uma ponta à outra - até agora.     O texto é muito bonito; está escrito com uma prosa quase poética e tem passagens absolutamente apaixonantes, que não resisti a "roubar", como:     Eu sou por isso o abslutamente único e ele o absolutamente único, não fungível com nenhum outro nem com coisa alguma. Cada pormenor, todos os pormenores da sua voz, do seu corpo, do seu gesto, se tornam os significantes desta unicidade. Aquele pormenor, aqueles pormenores, existem nela, somente nela, em nenhuma outra pessoa do mundo; ela é extraordinariamente única e extraordinariamente diferente e o assombro do amor é encontrar resposta deste ser tão único e tão ele próprio como nenhum outro.     O autor explora a temática do enamoramento, procurando ...

Cartas de Amor de Grandes Homens, Ursula Doyle (Bertrand Editora)

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     Tenho de confessar que este livro foi uma deceção. Mas o defeito foi meu: ao ler “Cartas de Amor de Grandes Homens”, assumi que estava a ler “ Grandes Cartas de Amor de Grandes Homens”. A maioria das cartas não eram sequer, em meu entender, cartas de amor propriamente ditas – muitas delas eram só mesmo cartas entre apaixonados, e não particularmente boas, em meu entender.     A breve introdução dos vários autores também é muito fraca, dando poucas informações sobe o autor e a ou as contempladas (ou contemplados, em alguns casos) com as cartas – sim, porque, por vezes, o amor era tanto que as cartas que são transcritas foram cartas enviadas para mais do que uma pessoa.    Uma boa surpresa foi a quantidade de cartas de autores portugueses, quando as cartas foram reunidas por Ursula Doyle, inglesa.     Ainda assim, e porque o geral foi uma desilusão, gostei muito das cartas de Diderot, de Schiller, de Pessoa, de António Nobre, de Al...

O Gatilho, Tim Butcher (Bertrand Editora)

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        O livro O Gatilho tem o subtítulo No rasto do assassino que levou o mundo para a guerra . Em junho deste ano passaram exatamente 100 anos sobre o assassínio do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do império austro-húngaro, que, como é sabido, conduziu à primeira guerra mundial. Tive curiosidade em ler quer porque conheço muito pouco da primeira grande guerra, quer por saber que muitas das guerras posteriores no espaço europeu resultaram desta primeira guerra mundial e, consequentemente, do acontecimento que lhe deu origem.       O autor, repórter de guerra, acompanhou a guerra da Bósnia. Anos mais tarde regressa à Bósnia e Herzegovina para procurar o rasto e os motivos que levaram um jovem sérvio, Gavrilo Princip, a empunhar o revólver e a disparar contra o herdeiro do império.      A pesquisa e o seu relato são acompanhados da descrição da vida atual naquele novo país, bem como da recordação omnipres...

A Chave para Rebeca, Ken Follett (Bertrand Editora)

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    Li o livro Rebeca de Daphne du Maurier, há muitos anos e continua a ser um dos meus livros favoritos. Quando li O Paciente Inglês de Michael Ondaatje, achei curiosa a menção ao facto do romance ter sido usado para codificar mensagens alemãs no Egipto, durante a Segunda Guerra Mundial e quando vi que tinha sido escrito um livro sobre o assunto não resisti. Aparentemente o código nunca chegou a ser usado mas é a base deste romance de Ken Follett. Não há outra maneira de o descrever que não seja: "É um livro de espionagem". É um romance muito visual e daria um bom filme de ação. Não li mais nada do autor mas não achei uma escrita espetacular.     Seguimos várias personagens, nomeadamente: Alexander Wolff - também conhecido com Achmed Rahmha -, o espião alemão que chega ao Cairo através do deserto e que está encarregue de descobrir os planos britânicos e de os transmitir de acordo com a chave do código que tem por base o romance Rebeca ; William Vand...

Escritos Secretos, Sebastian Barry (Bertrand)

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    Desde o momento em que comecei a ler este livro que só me apetecia apregoar o quão bem escrito está. Não é um livro para devorar; é um livro para saborear.    Tinha algumas reservas de início pois uma amiga minha já o tinha lido e descreveu-o como "muito estranho". Eu adorei-o e sem dúvida que o recomendo.     Roseanne McNulty, ou Roseanne Clear (nome de solteira) tem cerca de cem anos e encontra-se há mais de cinquenta num hospital psiquiátrico. O Dr. Grene, psiquiatra, é encarregue de avaliar os vários pacientes da instituição para determinar quais deles estão aptos para serem reintegrados na sociedade, contexto da iminente demolição do edifício que está praticamente em ruínas. Apenas os pacientes que, após avaliação, forem considerados inaptos serão transferidos para novas instalações.     Ainda que compreendendo, apenas pelo olhar, o quanto Roseanne sofreu ao longo da sua vida, antes de ser internada, o Dr. Grene nu...

No tempo das borboletas, Julia Alvarez (Bertrand Editora)

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    Há mais de dez anos fui a um congresso à República Dominicana. Tive oportunidade de conhecer apenas a capital. O povo dominicano, nos contatos que tive, pareceu-me afável e simpático. Sempre que me identificava como portuguesa invocavam o nome de Luís Figo e de outros jogadores de futebol. Um dia fomos surpreendidos por um indivíduo de uma certa idade, e com ar de sem abrigo, que quando nos identificou como portugueses, gritou Camões. Continuou a andar e passado um pouco, voltou-se para nós e gritou Pessoa. Fernando Pessoa.     Senti-me intimidada. Se a minha incapacidade de citar nomes de jogadores dominicanos era compreensível, já me impressionava o total desconhecimento da literatura e da história daquele país. Esta noção foi corroborada quando, num restaurante, no final da refeição e a propósito de uma moeda, me falaram das irmãs Mirabal, as mariposas, e me perguntaram se não conhecia a história delas. Era uma história tão marcante que Hollyw...

No tempo das borboletas, Julia Alvarez (Bertrand)

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    Há mais de dez anos fui a um congresso à República Dominicana. Tive oportunidade de conhecer apenas a capital. O povo dominicano, nos contatos que tive, pareceu-me afável e simpático. Sempre que me identificava como portuguesa invocavam o nome de Luís Figo e de outros jogadores de futebol. Um dia fomos surpreendidos por um indíviduo de uma certa idade, e com ar de sem abrigo, que quando nos identificou como portugueses, gritou Camões. Continuou a andar e passado um pouco, voltou-se para nós e gritou Pessoa. Fernando Pessoa.     Senti-me intimidada. Se a minha incapacidade de citar nomes de jogadores dominicanos era compreensível, já me impressionava o total desconhecimento da literatura e da história daquele país. Esta noção foi corroborada quando, num restaurante, no final da refeição e a propósito de uma moeda, me falaram das irmãs Mirabal, as mariposas, e me perguntaram se não conhecia a história delas. Era uma história tão marcante que Hollyw...

A independência de uma mulher, Colleen McCullough (Bertrand Editora)

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    Os leitores de Orgulho e Preconceito sabiam que a história de amor de Elizabeth e de Mr. Darcy não tinha acabado quando concluíram a sua leitura. E suspeitavam de que as irmãs Bennet tinham muito para contar. A vida de todas elas deveria ter sido infinitamente mais interessante depois de saírem de casa dos pais. Descobrir que Colleen McCullough (autora de Pássaros Feridos e de Tim, entre outros) tinha retomado a sua história, deixando apenas um hiato de alguns anos, parecia uma fórmula de sucesso.     Curiosamente, a autora decide utilizar como figura central, a irmã mais nova, Mary. Mary, por decisão dos cunhados, ficou solteira e a tomar conta da mãe, pelo que o livro e a sua vida se iniciam com a morte inesperada desta.     Tenho de confessar que me dividia entre a expetativa de encontrar todas as outras irmãs casadas e felizes ou, pelo contrário, em rota de colisão com a vida que lhes foi traçada pelos pais e pela sociedade. ...