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Abdulrazak Gurnah, Prémio Nobel da Literatura 2021

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     Abdulrazak Gurnah, escritor tanzaniano, é o Prémio Nobel da Literatura 2021.     Antes dele, o Prémio Nobel da Literatura foi atribuído a Wole Soyinka (1986) escritor nigeriano, seguido dois anos depois pelo escritor egípcio, Naguib Mahfuz, e mais tarde pelos autores sul-africanos Nadine Gordimer (1991) e J. M. Coetzee (2003).    Nos últimos anos, tenho assistido ao anúncio do Prémio Nobel da Literatura com alguma perplexidade e sem ficar com vontade articular de conhecer a obra dos laureados. Neste caso aconteceu o contrário. Não conheço Abdulrazak Gurnah. Sei que tem apenas uma obra publicada entre nós e que se encontra esgotada. Espero que com a atribuição do Prémio, mais livros sejam traduzidos e publicados entre nós.        Só fica a vontade de ver um dia o Prémio Nobel da Literatura ser atribuído a um escritor africano de língua portuguesa. De acordo com o blogletras.com , Abdulrazak Gurnah é o quinto escritor do contine...

Outrora e Outros Tempos, Olga Tokarczuk (Cavalo de Ferro)

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      Começo pelo fim: Outrora e Outros Tempos é um livro extraordinário.      Outrora, uma aldeia protegida por quatro arcanjos, situa-se na Polónia, mas poderia situa-se em qualquer país ou região da Europa central ou, como é dito a abrir o livro: Outrora é um lugar situado no centro do universo . Ao longo do século XX, três gerações de habitantes de Outrora assistem às duas Guerras Mundiais e à chegada dos exércitos alemão e russo à sua aldeia. Também são três as famílias que vamos acompanhando - as famílias de Genowefa, de Kloska e do Morgado Popielski. Como se se tratasse de um fresco humano em que cada uma destas famílias representa um segmento de uma sociedade, social e economicamente estratificada e fortemente marcada pela sua origem. Em Outrora, como em todas as terras,  há sempre um louco. Em Outrorao louco é Izydor, irmão de Misia, ambos filhos de Genowefa:     "- Sim, é possível que todas as famílias normais tenham de incl...

Khan al-Khalili, Naguib Mahfouz (Civilização Editora)

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    Não sei há quanto tempo tinha este livro à espera de ser lido. Por vezes, entre dois livros, abria-o, folheava-o, mas voltava a pô-lo de lado.  Desta vez, mal comecei a lê-lo tive dificuldade em interromper a leitura.     O autor, Naguib Mahfouz, ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1988. Este romance, Khan al-Khalili, foi publicado muitos anos antes, em 1946, e a ação decorre em plena II Guerra Mundial, com a ameaça constante de bombardeamentos e o receio de uma invasão, quer pelos alemães, quer pelos aliados. É justamente devido ao receio dos bombardeamentos que Ahmad Akif, funcionário no Ministério do Trabalho, e seus pais decidem mudar para o bairro Khan al-Khalili. Segundo o pai, o bairro estaria protegido pela Mesquita de al-Hussein pelo que dificilmente seria bombardeado pelos alemães.     O pai aposentara-se muito novo e por essa razão, Ahmad fora forçado a abandonar os estudos e a aceitar um lugar modesto no Ministério par...

O Homem Duplicado, José Saramago (Porto Editora)

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    Comprei este livro há vários anos, na sequência da sua adaptação para cinema (apesar de não ter visto o filme). Entretanto, o livro ficou a aguardar a sua vez na minha estante. E o que eu andei a perder!     Tertuliano Máximo Afonso, Máximo Afonso, de preferência, é professor de História no liceu e vive num «marasmo» próximo da depressão desde o seu divórcio. Para o tentar distrair, o colega de Matemática recomenda-lhe um filme leve que viu há uns tempos, Quem Porfia Mata Caça, e, apesar de não ser propriamente amante de cinema, Máximo acaba por alugar o vídeo. E a sua vida fica virada do avesso. Porque, por uma fração de tempo, vê-se a si mesmo num papel secundário desse filme. Mais do que isso, vê-se como era na altura em que o filme fora gravado.     « [...] tudo quanto é possível suceder, já sabemos que sucederá, primeiro foi o acaso que nos tornou iguais, depois foi o acaso de um filme de eu nunca tinha ouvido falar, poderia ter vivido o re...

A Jangada de Pedra, José Saramago (Caminho)

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    No seguimento da leitura de autores com Prémio Nobel, não poderia deixar de ler Saramago. O meu único contacto com o autor português tinha sido a leitura (obrigatória) do Memorial do Convento. Na altura, em parte pela obrigatoriedade e limite de tempo, não apreciei particularmente a obra, com exceção das passagens de Baltazar e Blimunda.      Quando comecei a ler A Jangada de Pedra, fiquei boquiaberta. Durante as primeiras páginas, não conseguia parar de pensar que o homem era um génio da escrita! A maneira como brinca com as palavras, como usa e abusa da ironia e do tom jocoso, as frases de um paragrafo lidas de um fôlego só... Foi verdadeiramente uma experiência de ler simplesmente pelo bem escrever. E deu-me um grande gosto. Tenho muitas páginas com o canto dobrado, de passagens que gostei particularmente.     A narrativa começa com Joana Carda a riscar o chão com uma vara de negrilho, no norte de Portugal. Nesse mesmo momento, todos...

A Revoltada, Doris Lessing (Livros do Brasil)

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    Nunca tinha lido nada da Doris Lessing, o que considero uma falha, por ser Prémio Nobel da Literatura (claro que ainda me falta ler muitos mais), e quando vi, na estante dos meus avós, o segundo e terceiro volumes da sua coleção "Filhos da Violência" fiz minha a missão de encontrar o primeiro volume - A Revoltada. Já não é editado, pelo que tive de o comprar em segunda mão, pela internet.     Não sei muito bem o que dizer sobre este livro. Já me tinha perguntado - e até recentemente - como seria escreve e er um livro sobre uma vida perfeitamente normal, isto é, sem grande peripécias do protagonista, ou romances avassaladores, ou intrigas por destrinçar ou as aventuras que fizeram história. Como seria descrver o percurso de vida de alguém anónimo, de uma persinagem neutra que vai seguindo a sua vida ao rumo da maré que a arrasta. É um bocadinho asim que me sinto em relação a este volume, mas não num mau sentido. CLaro que o romance está muito marcad...

A ponte sobre o Drina, Ivo Andric (Cavalo de ferro)

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    Há já alguns anos passei alguns dias em Santo Domingo onde era com frequência interpelada sobre o meu país. Quando respondia que era de Portugal, invariavelmente era brindada com o nome de Luis Figo. Embora alheada então como agora do futebol, sempre me fascinou a forma como aproxima as pessoas e ultrapassa fronteiras.      Uma noite, o grupo de pessoas com quem estava, foi interpelado por um individuo, obviamente embriagado, e que nos dirigiu a mesma pergunta. Quando respondemos que éramos portugueses, ele retorquiu de imediato: Fernando Pessoa.      Fiquei surpreendida e não pude deixar de pensar que eu, como provavelmente as outras pessoas com quem estava, desconhecia o nome de qualquer poeta ou escritor dominicano que permitisse reotorquir àquele individuo que desapareceu, aos tropeções pela rua, empatando o diálogo.     Desde então, sempre que vou a um pais, à geografia, clima, história e património,...

Prémio Nobel da Literatura

Foi hoje anunciada a vencedora do Prémio Nobel da Literatura: Alice Munro, canadiana.  Alice Munro já recebera, em 2009, o Man Booker International Prize, e, segundo li, era há muito uma candidata recorrente ao Nobel da Literatura. Nunca li nada dela, pior ainda, não tenho ideia de ter lido qualquer crítica ou recensão aos seus livros, pelo que foi com surpresa que descobri a quantidade de livros já editados entre nós, pela editora relógio D’Água:  Amada Vida ( Dear Life , 2012), O Progresso do Amor ( The Progress of Love , 1986), O Amor de Uma Boa Mulher ( The Love of a Good Woman , 1998), Fugas ( Runaway , 2004), A Vista de Castle Rock ( The View from Castle Rock , 2006) e Demasiada Felicidade ( Too Much Happiness ). Uma autora a descobrir rapidamente.

Desgraça, J.M. Coetzee (Leya - Bis)

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     Outro dos livros do curso online .    Vencedor do Man Booker Prize em 1999 e Prémio Nobel da Literatura em 2003, foi o único livro de Coetzee que li.     O livro segue David Lurie, um professor de Comunicação da Universidade Técnica de Cape, na Cidade do Cabo. Tem 52 anos e uma paixão na vida: mulheres. Quando se envolve com uma aluna e ela apresenta queixa, David é convidado a demitir-se, apesar das tentativas de ajuda dos seus colegas.      «O crânio e depois o temperamento: as duas partes mais duras do corpo.»   Vai viver com a sua ilha, Lucy, na propriedade desta em Grahamstown. A sua vida e até a sua atitude perante ela mudam substancialmente, sobretudo depois de um incidente de absoluta violência que recai sobre ambos.     A relação que tentavam restabelecer como pai e filha, vivendo juntos, mas ambos na idade adulta, desmorona-se.      «- Então ajuda-me. Trata-se de alg...

Doutor Jivago, Boris Pasternak (Sextante Editora)

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   Muita gente da minha geração conhece bem Doutor Jivago, alguns porque leram o livro, a maioria porque viu o filme. Lê-lo, por isso, parecia-me uma tarefa mais fácil do que efetivamente foi. A história, contada em poucas linhas, relata a paixão arrebatadora vivida entre o doutor Jivago e Lara, enfermeira, no cenário de guerra e tendo como pano de fundo a revolução russa.    O livro está belissimamente bem escrito e permite-nos viver e entender o quotidiano da população russa, martirizada com a guerra com o Japão, depois com o envolvimento nas duas guerras mundiais e, entretanto, a viver internamente a revolução. Se apenas um século nos separa das vidas e das histórias narradas, uma  diferença abissal nos afasta, tornando quase incompreensível aquelas vidas vividas entre frentes de guerra, hospitais, aldeias e casas destruídas, comboios e deslocações cuja duração se contava em semanas ou mesmo meses. Tudo o que havia sido construído, organizado, ordenado, ...

Teresa Desqueyroux, François Mauriac (Estúdios Cor)

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   Já tinha lido este livro há muitos anos, nesta edição de 1958 trazida de casa dos meus avós. Lembrava-me vagamente da história: Teresa (o primeiro nome aparece traduzido) regressa a casa depois de ter sido ilibada da tentativa de matar o marido. Foi o testemunho do marido, mais desesperado por recuperar a sua dignidade e não afetar o bom nome da família, que a ilibou do crime que ambos sabem que cometeu.    Mesmo sabendo a história, não deixamos de nos impressionar pela total indiferença e frieza de Teresa por todos, especialmente pela sua pequena filha, de quem o marido a separa após a sua libertação. Compreendemos o desencato de Teresa pelo marido, boçal e materialista, mas não percebemos o que ambiciona, o que deseja, quais são os seus sonhos, com exceção de viver na cidade e ser adulada e admirada.    Mas foi este retrato impiedoso que François Mauriac quis transmitir: Muitos se admirarão de que eu tenha podido imaginar uma criatura ainda mais odi...

Descascando a cebola, Gunter Grass (Casa das Letras)

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    O Pedro Valente ofereceu-me este livro há alguns anos. Iniciei e interrompi a sua leitura algumas vezes. Não sei se tinha a ver com o tema, com a narração, um pouco errática, de quem vai descascando a cebola e encontrando, camada após camada, recordações.     A imagem da cebola é interessante pois como diz o autor tem muitas camadas.   Só ao descascá-la fala verdade. Cortada, provoca lágrimas .     E esta é verdadeiramente a surpresa: a narração não tem tristeza, nem lágrimas. Talvez apenas estupefacção para a forma como o autor, então jovem, conviveu com este período da história alemã, com a guerra dentro e fora das fronteiras e com o regime nazi (" e de questionar o meu comportamento em determinadas situações ").     O livro assumido como um acto de exorcismo, ao fim de muitos anos, e que segundo se diz provocou a indignação geral de muitos leitores, é, a meu ver, e enquanto tal, um acto falhado...

O Museu da inocência, Orhan Pamuk (Editorial Presença)

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    Tolstoi inicia Anna Karenina dizendo que as famílias felizes não têm história .Os amores felizes também não. Desde pequenos que sabemos que a história que começa com Era uma vez acaba com  Casaram-se e foram felizes para sempre ! A felicidade não merece ser contada.     O Museu da inocência obedece a esta regra: Kemal, solteiro, de boas famílias turcas, estava praticamente noivo de uma jovem, também turca, que estudara em Paris. Pouco antes da festa do noivado entra numa loja onde reconhece uma prima afastada que não via há muitos anos. Arranja todos os pretextos possiveis para que ela se encontre com ele num apartamento que pertencia à sua mãe e iniciam nesse dia um romance, ficando Kemal dividido quanto ao noivado e casamento.     Termina por avançar com a festa do noivado, conseguindo que Fusun e os pais sejam convidados e compareçam. Depois da festa Fusun desaparece e Kemal arrasta-se numa existência melancólica que começa por afastar o...