terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

O Homem Duplicado, José Saramago (Porto Editora)

Opinião do livro O Homem Duplicado de José Saramago pela Porto Editora no blogue Clube de Leituras
    Comprei este livro há vários anos, na sequência da sua adaptação para cinema (apesar de não ter visto o filme). Entretanto, o livro ficou a aguardar a sua vez na minha estante. E o que eu andei a perder!
    Tertuliano Máximo Afonso, Máximo Afonso, de preferência, é professor de História no liceu e vive num «marasmo» próximo da depressão desde o seu divórcio. Para o tentar distrair, o colega de Matemática recomenda-lhe um filme leve que viu há uns tempos, Quem Porfia Mata Caça, e, apesar de não ser propriamente amante de cinema, Máximo acaba por alugar o vídeo. E a sua vida fica virada do avesso. Porque, por uma fração de tempo, vê-se a si mesmo num papel secundário desse filme. Mais do que isso, vê-se como era na altura em que o filme fora gravado.

    «[...] tudo quanto é possível suceder, já sabemos que sucederá, primeiro foi o acaso que nos tornou iguais, depois foi o acaso de um filme de eu nunca tinha ouvido falar, poderia ter vivido o resto da vida sem imaginar sequer que um fenómeno destes escolheria para manifestar-se um vulgar professor de História, este que ainda há poucas horas estava a corrigir os erros dos seus alunos e agora não sabe o que fazer com o erro em que ele próprio, de um instante para o outro, se tinha visto convertido.»

   Inicia então uma busca obsessiva por esse seu duplicado, com consequências que não poderia prever, por mais advertências que o Senso Comum, que surge como que personificado de quando em vez, o tente convencer a parar.

    «O que tiver de ser, será, Conheço essa filosofia, costumam chamar-lhe predestinação, fatalismo, fado, mas o que realmente significa é que farás o que te der na real gana, como sempre, Significa que farei aquilo que tiver de fazer, nada menos, Há pessoas para quem é o mesmo aquilo que fizeram e aquilo que pensaram que teriam de fazer, Ao contrário do que julga o senso comum, as coisas da vontade nunca são simples, o que é simples é a indecisão, a incerteza, a irresolução [...]

    Gosto muito da escrita de Saramago. Não o percebi na escola, com o Memorial do Convento, mas tomei consciência disso quando, há uns anos, li A Jangada de Pedra. Desta vez, foi igual. Assim que comecei a ler, maravilhei-me com a escrita. Mas foi preciso chegar ao último terço do livro para o devorar. Confesso que durante a primeira parte, não conseguia tirar da cabeça o livro O Outro Eu de Daphne du Maurier, e estava como que à espera que Saramago seguisse a mesma linha. Pois não seguiu e deu-nos, pelo contrário, um final inesperado e genial.
    Vale muito a pena ler!

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