sábado, 21 de março de 2020

Sinais de vida, cartas da guerra 1961-1974, Joana Pontes (Tinta da China)

    Ouvi falar deste livro por acaso e fiquei logo com vontade de o ler. Através dele e da Joana Pontes fiquei a saber que já houve projetos que visavam assegurar a conservação da correspondência trocada durante a guerra colonial, como o Projeto Recolha, mas que não foram porventura suficientes para garantir que uma parte não se perca, na Feira da Ladra ou em caixotes de lixo de qualquer casa desmanchada. Por isso estes Sinais de Vida é tão importante
    Como é dito no prefácio, de Aniceto Afonso, "(...) Toda a população masculina nascida entre 1940 e 1954 esteve, de uma forma geral, sujeita a mobilização militar para cumprir serviço num dos territórios em guerra - Angola, Guiné ou Moçambique.
    Mas todos os outros portugueses  acabaram por ser envolvidos pelo ambiente social resultante da guerra. Essa relação aumentou sentimentos, influenciou opiniões, provocou ansiedades e desespero. Todos, mobilizados ou não, viveram os dramas uns dos outros, familiares, amigos, vizinhos e conhecidos."
    Sinais de vida analisa correspondência trocada durante o período da guerra, abrangendo cerca de 4 400 cartas e aerogramas (atualmente muita gente nem saberá o que são aerogramas, por isso decidi colocá-los na imagem) durante os 13 anos que durou a guerra colonial. Apesar de ser uma tese de doutoramento lê-se como um romance e nele ficamos a conhecer o que pensavam e sentiam os que participavam nesta guerra, pelo exército português, e aqueles com quem se correspondiam, a família, os amigos, as noivas e as namoradas. Como era encarada a guerra e como se foi evoluindo claramente no sentido da percepção da derrota iminente e da irracionalidade da sua continuação.
    Se a ideia que existia a priori era a de que depois de um período inicial de apoio à guerra, passou-se para o descrédito e finalmente para a rejeição, ela é confirmada pelo teor das missivas que, sendo apresentadas cronologicamente, permitem-nos perceber a evolução
    Mas as cartas refletem igualmente o que era a sociedade portuguesa de então, o analfabetismo reinante, a pobreza, a ignorância e também o medo. Dão ainda uma imagem da situação da mulher, dependente primeiro do pai e depois do marido, em todos os aspetos da vida.
    Se este livro é importante por preservar parte da nossa memória individual e coletiva, é-o igualmente por trazer a guerra colonial para o domínio público, através das palavras de quem a viveu e do testemunho que dela deram então, no momento em que nela participavam, com as palavras que permitem sentir o medo, a raiva, a ansiedade, a frustração ou, nalguns casos, o orgulho.
    Como é referido no prefácio "O silêncio imposto pelo regime faz a guerra parecer distante, faz a guerra parecer ausente, de certa forma, torna a guerra inexistente".
     Este livro torna-a real.
   

domingo, 15 de março de 2020

A Peste, Albert Camus (Edição Livros do Brasil)

   
Já se tornou um lugar comum a propósito da situação que vivemos citar este livro de Albert Camus. Tenho estado a relê-lo, sem seguir a disciplina imposta pela ordem das página. Abro-o ao acaso, entre outras leituras ou outras afazeres, e fico sempre impressionada pela sua atualidade. Premonitório? Tanto quanto sei, não vivenciou durante a sua vida qualquer situação similar. A Peste foi publicada pela primeira vez em 1947. Não resisto a publicar um excerto a que provavelmente se seguirão outros:
    Mas mesmo nisso, contudo, a reação do público não foi imediata. Com efeito, o anúncio de que a terceira semana de peste contara trezentos e dois mortos não falava à imaginação. Por um lado, talvez nem todos tivessem morrido de peste. Por outro lado, ninguém na cidade sabia quantas pessoas morriam habitualmente por semana. A cidade tinha duzentos mil habitantes. Ignorava-se e esta proporção de mortes era normal. É mesmo o género de precisões com que nunca nos preocupamos, apesar do interesse evidente que elas apresentam. Ao público faltavam, de algum modo, pontos de referência. Foi só com o tempo, ao verificar o aumento constante das mortes, que a opinião tomou consciência da verdade. Com efeito, a quinta semana deu trezentos e vinte e um mortos e à sexta trezentos e quarenta e cinco. A subida, pelo menos, era eloquente. Mas não era bastante forte para que os nossos concidadãos não mantivessem, no meio da sua inquietação, a impressão que se tratava de um acidente, sem dúvida grave, mas, apesar de tudo, temporário. Continuavam, assim, a circular nas ras e a sentar-se bos terraços dos cafés.

terça-feira, 3 de março de 2020

A missão, Ferreira de Castro (Livros de Bolso Europa-América)

    A semana passada fui à feira do livro da Snob na Cossoul, antes daquela mudar para as novas instalações e, entre os muitos livros que estavam à venda, encontrei, numa pilha de Livros de Bolso Europa-América, "A missão". De Ferreira de Castro só li - e há muitos anos - Emigrantes. Tinha vontade de ler outros livros dele e por isso comprei este que comecei a ler imediatamente. 
    É o quinto livro desta coleção, foi editado em 1971 e este exemplar teve pelo menos um dono anterior que o carimbou (nome e morada) na primeira e na última página (o que terá levado a que se deixasse de carimbar o nome ou o ex libris nos livros?)
    A missão é uma novela passada numa pequena aldeia francesa durante a II Guerra Mundial e narra o dilema vivido pelo Superior que não sabe se deverá determinar a pintura da palavra Missão no telhado evitando desta forma a confusão com uma fábrica próxima e o possível bombardeamento pelos aviões alemães. Contudo, se a Missão for assinalada, provavelmente a fábrica e os operários serão bombardeados. Ligado a este dilema estão dúvidas sobre a fé e também sobre o valor das pessoas: 
    "(...) Ora, eu não estou convencido de que, pelo fato de ser um profissional da Fé, seja efetivamente melhor do que todos esses quatrocentos homens que trabalham na fábrica e cujas qualidades desconhecemos."
    Mas ao mesmo tempo que vivemos o dilema, expectantes relativamente à decisão que será adoptada, deliciamo-nos com as descrições das personagens e do ambiente envolvente, incluindo da guerra:
     "(...) Ele pressentia que a própria gordura do seu corpo baixo e arredondado, a sua cara larga e aquelas pálpebras entumescidas sobre os olhos luzidios o tornavam mais atraente às crianças. E, pela primeira vez, não lhe despraziam os excessos que a natureza lhe dera, como se houvesse colado sobre ele, camada a camada, o que economizara nos corpos de outros missionários."
    "(...) Deixara de ser o quente rumorejo de insetos e adquirira a regularidade e a frieza dos ruídos mecânicos. (...) O Superior não se moveu. Admitiu que chegara o castigo de Deus e que ele merecia, talvez esse castigo. Michaux e os outros missionários caminharam até à cerca e puseram-se a olhar o céu. Era uma limpidez azul de Junho, sem outra mácula além daquela: além daqueles três pequenos pontos que iam engordando de instante a instante e formando uma linha de reticências no espaço sidério, um espaço tão vazio de perdão como de vingança."
   A Missão só peca pela dimensão.Quando viramos a última página só nos apetece continuar a leitura.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O custo da vida, Deborah Levy (Relógio D'Água)

    Recebi este livro no Natal. Não conhecia a autora, nem tinha lido qualquer crítica ao livro. Confesso que o início da descrição na contracapa não me seduziu particularmente:
   "Um manifesto moderno, vital e empolgante sobre as políticas do feminismo..."
    Não me apetecia ler um manifesto (apesar de não perceber exatamente o que se pretende dizer com esta indicação) mas "O Custo da Vida" não é, nem me pareceu que tivesse sequer essa intenção, embora seja uma reflexão  sobre o papel da mulher na sociedade atual e, sobretudo, nas relações familiares e no casamento. 
    Logo no início do livro, fala num colega que se esquecia da maior parte dos nomes das mulheres que conhecia em ocasiões especiais (Quem somos nós, afinal, se não temos um nome?),  mais à frente fala num homem que conhece no comboio que fala na esposa sem a nomear, contudo, ela opta por nunca nomear os homens de que fala e que designa como "o meu melhor amigo" ou "o homem que tinha chorado no funeral" ou "o homem que nunca olhava para a esposa" ou "o pai das minhas filhas". Apesar de não terem nome, essas indicações individualizam-nos mais expressivamente que se os tivesse nomeado o que acaba por redundar numa contradição com o que tinha afirmado ou pretendia provar.
    Curiosamente as críticas e recensões que li sobre o livro depois de o acabar, oscilavam entre a crítica demolidora e o deslumbramento.
    Para mim, está justamente no meio. 
    Mais do que uma autobiografia é um diário de uma mulher (a autora) que tem 50 anos, acabou de se divorciar, muda de casa para um apartamento cheio de problemas, com apenas uma filha - a outra entrou na faculdade - e cuja mãe adoece mortalmente pouco tempo depois. Obviamente isto é muito e é pouco. É muito para quem vive estas mudanças radicais na vida, é pouco para só por si justificar o interesse na leitura de um livro. Mas Deborah Levy consegue manter o interesse do leitor e, penso que não apenas do leitor que se identifica com as situações vividas e escritas, salpicando o livro com pequenas histórias, reflexões e referências  a outros autores, misturadas com banalidades:
    "(...) Só existe dois tipos de lares: os lares unidos e aqueles em que impera a desunião. Foi a história patriarcal que se desfez. (...)"
     Mas confesso que gostei de o ler.
    

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Os Últimos Sete Meses de Anne Frank, Willy Lindwer (Vogais)

Anne Frank @Clube de Leituras
    Não posso deixar de apresentar este livro como ele se me apresentou, ou seja, com uma passagem da contracapa:

    «Em 1988, Willy Lindwer, cineasta holandês, realizou um documentário televisivo intitulado Os Últimos Sete Meses de Anne Frank, pelo qual receberia um Emmy. Impressionado com as entrevistas que levou a cabo com seis mulheres que viveram e partilharam com Anne Frank os dias de horror nos campos de concentração nazis, Lindwer deciciu publicá-las integralmente, dando origem a este livro


    Se fiquei curiosa porque, claro, li o Diário de Anne Frank ainda em miúda (versão inicial e versão alargada, publicada posteriormente), e queria saber o que acontecera a seguir à sua captura, não esperava que este livro me tocasse tanto. Como o autor relata no Prefácio:


«Este livro é, portanto, acima de tudo, um registo histórico da coragem das mulheres que aqui contam as suas experiências dramáticas. [...]    [F]oram precisas muitas conversas preliminares antes que estas entrevistas pudessem ser gravadas. Ao relatarem as suas memórias, as mulheres sujeitaram-se a um enorme stress emocional e psicológico. Mesmo assim, prevaleceu a necessidade de partilharem as suas histórias.»


   A verdade é que não se trata de uma história romanceada, com base em factos verídicos. Trata-se de um conjunto de narrativas na primeira pessoa que constituem esses mesmos factos. Não há qualquer tipo de clemência para o leitor - as coisas são contadas como se passaram.
   Fiquei a conhecer muitas coisas que desconhecia, as próprias protagonistas respondem a diversas questões que surgem a quem não viveu esse período... E partilham os seus momentos mais dolorosos, mais aflitivos, mais desconcertantes.
    Foi um privilégio para mim poder ler estes testemunhos e, mais ainda, conhecer as histórias de quem viveu os tormentos dos campos de concentração, nas suas mais variadas versões, e, além de sobreviver, teve a coragem de revisitar esses momentos para os poder partilhar quem não sofreu essa experiência.


    «Discriminar alguém por causa da cor da pele, das orelhas, do cabelo ou de sabe Deus o quê, pode fazer com que possamos morrer por causa disso. Basta uma pessoa dizer:    - Ele não é tão bom como eu, porque tem...    Pode acrescentar o resto. [...]   [F]oi um momento tão irreal e catastrófico da minha vida que não há hipótese de aceitação. Um pequeno movimento, um barulhinho ou o cheiro de comida queimadas e regresso imediatamente àqueles campos. Podemos falar sobre o assunto, mas ninguém consegue aliviar-nos disto. E, neste aspeto, os fascistas alcançaram uma vitória mundial.»


       Aconselho a leitura.



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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Cebola crua com sal e broa, Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor)

    Li recentemente partes do livro Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery. Um livro interessante que desvenda a personalidade e a vida de Sophia, para além dos muitos aspetos que são do domínio público. Fiquei com curiosidade de ler este livro sobretudo pelos cruzamentos com o anterior.     
    Mas confesso que, mesmo não sendo as expetativas muito elevadas, foi uma desilusão. Logo na contracapa pergunta o seguinte: Pode um homem viver impunemente começando a sua infância numa aldeia do Marão, comendo cebola crua com sal todas as merendas? Ora, o "menino Miguelinho" como era designado, não comia esta merenda porque não houvesse mais que comer na casa dos tios onde viveu alguns anos, mas porque gostava. Tal como gostava de comer com os trabalhadores agrícolas na casa, onde para além dos tios havia ainda o pessoal doméstico - a cozinheira, as ajudantes, as raparigas da casa (uma por cada membro da família). Fico por isso sem perceber a questão. Se queria falar da liberdade que sentia então em contraste com o ambiente que encontrou no regresso a Lisboa, comer cebola com sal não será por certo a imagem mais adequada.
    Ao longo do livro acompanhamos a vida do autor, num registo autobiográfico mas que não consegue escapar ao registo jornalístico, como quando conta que recusou a integração e demissão da função pública e daí salta para a atualidade [Trinta anos e duas falências públicas depois, constato que a base de sobrevivência do atual (2018) governo PS, de António Costa, é a disponibilidade, exigida pelos seus parceiros, para aceitar integrar na Função Pública...]. 
    Numa autobiografia o autor é o protagonista ou, frequentemente, o herói da história. Neste livro, ele é o herói não apenas por ocupar o lugar central mas porque, com raríssimas exceçoes, é isento e desinteressado, contrastando com todos os demais. 
     Nem alguns episódios que relata, como a mãe, Sophia, a recitar um poema no eléctrico  ou o eterno candidato ao trono a perguntar quem é Fernando Pessoa salvam o livro.

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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Os Sertões, Euclydes da Cunha (Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro)

    Depois de ter lido "A Guerra do Fim do Mundo" de Mario Vargas Llosa fiquei com curiosidade de ler este livro, Os Sertões, publicado em 1902.
    Euclydes da Cunha, o autor, cobriu a guerra de Canudos como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo e mais tarde publicou este livro que fascinou Mario Vargas Llosa e outros autores, como Sándor Márai, que escreveram igualmente livros sobre esta guerra. Este último, autor de Veredicto em Canudos, depois de ler Os Sertões, disse que era como se tivesse lá estado.
    Uma amiga trouxe-mo do Brasil, tendo comprado-o no sebo (em 2.ª mão), designação tão expressiva que não carece de explicação. 
     Confesso que não foi fácil de ler e que usei o meu direito de leitora de saltar páginas. 
    Conforme é referido no Guia de leitura, no final da edição, Os Sertões faz parte do ensaio de interpretação do Brasil, daí que o autor comece por descrever a terra, o clima e a geografia, depois o homem, o jagunço e o sertanejo. É neste capítulo que descreve detalhadamente António Conselheiro, figura central desta guerra, que descreve como um gnóstico bronco, chegando a titular um subcapítulo "Como se faz um monstro". Avança então para os confrontos, descrevendo detalhadamente as quatro expedições contra Canudos.
    No final do século XIX, António Conselheiro criou no interior do estado da Baía uma comunidade com cariz religioso que rapidamente reuniu à sua volta milhares de pessoas, pobres, famélicas e descrentes do recém instaurado regime republicano. Esperavam ainda pelo regresso de D. Sebastião. Os grandes proprietários da região, juntamente com a Igreja, pediram a intervenção do exército, mas foram necessárias quatro expedições para vencer aquelas pessoas sem quaisquer meios mas unidas pela fé ou pela crença naquele homem.

    Para além da história, escrita num tom jornalístico, a parte inicial do livro está claramente datada, como quando fala do português do Amazonas, "A raça inferior, o selvagem bronco, domina-o;" ou quando conclui que "o mestiço é, quase sempre, um desequilibrado".
    Mas, a dada altura, conclui - e talvez esta seja a mensagem mais importante - que "era indispensável que a campanha de Canudos tivesse um objetivo superior à função estúpida e bem pouco gloriosa de destruir um povoado dos sertões. Havia um inimigo mais sério a combater, em guerra mais demorada e digna. Toda aquela campanha seria um crime inútil e bárbaro, se não se aproveitassem os caminhos abertos à artilharia para uma propaganda tenaz, contínua e persistente, visando trazer para o nosso tempo e incorporar à nossa existência aqueles rudes compatriotas retardatários."

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