segunda-feira, 11 de março de 2019

A Amante do Governador, José Rodrigues dos Santos (Gradiva)


Opinião do novo romance de José Rodrigues dos Santos, a Amante do Governador, publicado pela Gradiva, no nosso blogue Clube de Leituras   Mais um lançamento do autor português mais prolífico da atualidade – se não em número de livros, seguramente em número de páginas!
    A Amante do Governador (717 páginas) é o fecho da trilogia composta por As Flores de Lótus, de 2015 (683 páginas), O Pavilhão Púrpura, de 2016 (698 páginas), e O Reino do Meio, de 2017 (700 páginas). Pelo meio, o autor ainda lançou dois livros de Tomás Noronha, Vaticanum, em 2016 (600 páginas), e Sinal de Vida, em 2017 (654 páginas). Uma bonita média de 1 000 páginas editadas por ano. Há quem chame a isto literatura a metro, há quem considere que José Rodrigues dos Santos (JRS) conta histórias, explana os seus conhecimentos enciclopédicos e, na verdade, ajuda-nos a melhor entender a História e o Mundo em que vivemos.
    Começo pela trilogia, em que o narrador Jorge Lobo, em fim de vida, conta a história de quatro personagens principais: Artur, Fukui, Lian-hua e Nadja, a que se deve ainda adicionar Sawa. Ao descrever as vidas deles, mostra como as ideologias radicais do séc. XX nasceram, cresceram e se consolidaram, desenvolvendo ainda uma teoria sobre uma origem comum (marxista) tanto do comunismo russo como do fascismo italiano e do nazismo alemão. Refere ainda o enorme impacto que a crise de 1929 provocou em todo o mundo.
    Artur, o português, assiste e acompanha o surgimento de Salazar, que também é personagem dos livros, dizendo o que de facto disse (ou escreveu). De passagem, aparece também Rolão Preto, o político que tentou ser o Mussolini português.
    Fukui, o japonês, observa o avanço do imperialismo e do militarismo no Japão. Pelo caminho, JRS explica, com grande detalhe, alguns aspetos fundamentais da cultura japonesa (a submissão absoluta ao Imperador e à autoridade do pai e/ou do marido, o respeito pela honra e a preocupação em «salvar a face», etc., recorrendo a uma outra personagem, Sawa, que ascende a uma posição importante no Exército Imperial e é um militarista convicto da superioridade da raça japonesa, descendente direta dos Deuses).
    Lian-hua, a chinesa, que se cruza com Mao Tse-tung (JRS terá esgotado com Salazar toda a sua simpatia com os personagens históricos desta trilogia, reservando para Mao uma descrição muito desagradável) e com o Kuomintang, passando ainda pela experiência da ocupação japonesa da China.
Nadja, a russa, sofre com a coletivização forçada na Sibéria e especialmente na Ucrânia, consegue fugir dos soviéticos para a China e acaba por ser submergida pelos japoneses.
     Finalmente, n’A Amante do Governador, verificamos que a trilogia não passou dum longo prólogo que apresentou a vida destes 5 personagens antes de se encontrarem todos em Macau, em 1941. Artur como Governador e Fukui como Cônsul, depois de se terem tornado grandes amigos em Berlim, em 1939, e Lian-hia e Nadja como personagens auxiliares. Sawa é o chefe do Kempeitai (a Gestapo japonesa) em Macau, e Lobo é o Responsável pela Economia, escolhido por Artur.
    O livro relata a forma como se viveu em Macau durante a guerra e os difíceis acordos que tiveram de ser estabelecidos para assegurar a sobrevivência da colónia, que estava completamente à mercê dos japoneses. Desde episódios de canibalismo e apoio (clandestino) à guerrilha chinesa, às vendas de petróleo e de canhões do séc. XVII para alimentar o esforço de guerra japonês, o livro esmiúça as decisões mais importantes do governador da colónia, que acabaria por ser afastado no fim da guerra por imposição do novo governo chinês, por acusação de colaboracionismo com os japoneses.
    Relata também as circunstâncias das mortes de Fukui (assassinado) e de Sawa (executado), assim como a entrada de Stanley Ho no mundo dos negócios. Mais uma vez, JRS consegue conciliar muito bem os factos históricos com as suas estórias romanceadas.
    Do lado da História, aprende-se sempre muito – por exemplo, Macau sofreu um ataque aéreo por parte dos americanos, algo de que não se fala muito. Os livros de JRS são sempre muito didáticos, sejam ao nível da História, da Religião ou da Física Quântica, servindo para enriquecer a cultura geral de cada um e brilhar em «quizes».
    O recheio com que JRS acompanha as «partes mais sérias» dos seus livros corre o risco de ser apelidado de entulho. Diálogos pouco verosímeis, mulheres palpitantes de luxúria e de lascívia (ou vice-versa) que invariavelmente se transformam em sopeirazinhas desinteressantes e irritantes, logo que se vêem numa relação institucionalizada. Utilização bastante exagerada da técnica de criação de situações de suspense, real ou forçado, que sugere que JRS escreve os livros a pensar em eventuais adaptações televisivas e nos intervalos para a publicidade.
    
    Em resumo: Um livro que dificilmente viverá por si só, sem as 2 000 páginas da trilogia que o antecede, mas que é uma visão muito interessante sobre a expansão japonesa, a vida em Macau e os dilemas da governação.

Luís Serpa Pereira

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sábado, 9 de março de 2019

Timão de Atenas e Rei Lear, William Shakespeare (Relógio D'Água e Caminho)

 
O Rei Lear "@ Clube de Leituras"
    A leitura da obra Timão de Atenas foi feita para a disciplina da Escrita para Teatro. Confesso que não conhecia esta obra de Shakespeare, considerada uma peça menor, pelo que fiquei surpreendida ao descobrir que já tinha sido levada a cena muitas vezes, mesmo em Portugal,  que H. Purcell  compôs uma ópera e que Duke Ellington compôs igualmente a música Timon of Athens. Confesso também que não gostei particularmente de ler esta peça. Para além de me parecer uma obra fragmentada, dividida em duas partes, a história é pouco interessante. Mesmo o exercício de procura de um significado menos evidente ou menos óbvio para a peça e, sobretudo, para o próprio Timão, não tornou a peça mais apelativa.
    Quando concluí a leitura, e por me parecer que a questão podia não residir na obra em si, mas na minha falta de hábito de leitura de peças de teatro, para mais de época, decidi ler o Rei Lear. 
    E, neste caso, a minha experiência foi totalmente diferente. Nem o facto de conhecer a história tornou desinteressante a leitura, pelo contrário, foi difícil  interrompê-la, porque queremos saber o que vai acontecer às diferentes personagens. O Rei Lear tem tudo, tragédia, traição, amor, demência... Há também uma inegável atualidade na questão das relações familiares, do apoio das filhas ao velho pai que, depois de dividir o reino entre elas, teria combinado que se hospedaria alternadamente em casa  das duas filhas mais velhas, que logo depois lhe recusam o que tinham acordado.
    Não resisto a roubar uma das últimas falas de Lear quando, embora desgraçado, se reconcilia com a filha mais nova:
    (...) Vamos para a cadeia, anda; sozinhos os dois cantaremos como pássaros na gaiola. Quando pedires a minha benção, pedirei de joelhos o teu perdão. Assim viveremos, cantando e rezando, e contando velhas histórias, e rindo das borboletas doiradas, e ouvindo pobres diabos falar das notícias da Corte; e nós falaremos também com eles, de quem perde, de quem ganha, de quem entra, de quem sai; e, como se fôssemos espias de Deus, tomaremos a nosso cargo explicar o mistério das coisas; dos muros da prisão, veremos partidos e seitas dos grandes da terra subir e descer, no seu constante fluxo e refluxo.
    Uma curiosidade final: a tradução desta edição do Rei Lear é de Álvaro Cunhal.


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Quero ler!

quinta-feira, 7 de março de 2019

Em Nome da Filha, Carla Maia de Almeida (Fundação Francisco Manuel dos Santos)

A opinião do livro de Carla Maia de Almeida sobre violência doméstica, no dia oito de março, em celebração do dia da mulher, no nosso Clube de Leituras
    O tema é atual. Nunca deixa de o ser, mas Portugal está agora com uma atenção muito maior às questões de violência e, particularmente, violência doméstica. 

    Nesta hora que dobra o dia 7 em dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher, despedimo-nos daquele que o governo decretou como Dia de Luto Nacional pelas (agora já) 12 vítimas mortais nos meros 66 dias que contamos desde a virada do ano. Foi por coincidência que o pequeno livro que é alvo de opinião nesta nova publicação me acompanhou hoje, sem saber ainda se lhe conseguiria pegar.
  Também abri-lo foi por um simples acaso - o de ter terminado o livro anterior (que aparecerá num outro post, posterior) -; já tê-lo terminado ainda hoje, escassas horas após ter iniciado a leitura, foi inevitável.
   Uma reportagem (assim lhe chama a autora) dividida em três partes: a primeira, a vida de uma filha que presenciou o assassinato da mãe pelo pai; a segunda, relatos de vítimas de violência doméstica, na altura em casas de abrigo; a terceira, a adaptação de um conto popular. As duas primeiras partes são testemunhos verdadeiros das vítimas, arrepiantes, comoventes, inacreditáveis, talvez, para quem lê desconhecendo essa realidade. Mas tão essenciais...
   Ao longo da segunda parte, a autora também menciona estudos e figuras de autoridade - psicólogos, sociólogos, entre outros - abordando a violência doméstica sob os seus vários prismas: as vítimas, não só mulheres, também homens, crianças, idosos; os agressores e a falta de apoio de que também sofrem; o stress pós-traumático. Acima de tudo, como entre contextos e perfis aparentemente tão distintos, as histórias podiam contar-se quase como uma só...
    Um livro que se lê de um só fôlego e que toca, toca tanto - e do qual não posso deixar de transcrever a ressalva da autora: «Gostaria de deixar claro que este livro não é contra os agressores, e muito menos contra os homens. A minha ambição é unir e não separar. Como todas as lutas culturais mais importantes dos últimos séculos (...) precisamos de contar com o empenho de todos nós, homens e mulheres, porque nunca seremos bastantes para mudar mentalidades. Essa é sempre a parte mais difícil e mais demorada».

«- A quem serve o amor?
- O amor serve o amor.»


    Quero deixar uma nota adicional para a beleza da escrita e do texto, bem como a revisão cuidada e o próprio design da edição. Nota máxima!

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segunda-feira, 4 de março de 2019

Um Artista do Mundo Flutuante, Kazuo Ishiguro (Gradiva)

Imagem da capa do livro de Kazuo Ishiguro, Um Artista do Mundo Flutuante, pela Gradiva, em recensão no blogue Clube de Leituras
    Este livro deixou-me absolutamente dividida - o que justifica, em parte, o tempo entre o fim da sua leitura e a minha recensão da mesma neste blogue.
   Recorrendo à fórmula a que já nos habituou e de que, pessoalmente, gosto bastante, a história, narrada na primeira pessoa, é como que um discorrer de memórias dentro de memórias. Em qualquer dos seus romances já lidos - Nunca Me Deixes, The Remains of the Day (Os Despojos do Dia) e O Gigante Enterrado - encontramos esta forma de escrever, mas diria que este é aquele que mais se aproxima do primeiro, que é, sem dúvida, para mim, o seu melhor romance e o que me fez ler todos os seguintes (que não lhe chegaram aos «calcanhares»).
    Se me perguntarem se gostei do livro, direi que sim. Se me perguntarem do que trata, responderei que me parece ser a análise de uma vida e de como as nossas ações podem vir a ter influências imprevisíveis no futuro. Mas também pode não ser exatamente isso...
 Narrado na primeira pessoa, somos, como leitores, apresentados ao Japão pós-Segunda Guerra, pelas palavras de Masuji Ono, um pintor reformado e, pelo que nos dá a entender, bastante conhecido pelas suas obras.

    «Quando se passa em revista os feitos de uma vida, existe sem dúvida algum consolo - e até uma profunda satisfação - na consciência de se ter falhado em qualquer coisa que mais ninguém teve a coragem ou a determinação de tentar.»

   Masuji dirige-se frequentamente ao leitor de forma direta, fazendo algumas interpretações de olhares, conversas ou comentários que ficou de alguma forma a remoer, dando-nos a entender que poderá ter tido alguns comportamentos ou defendido alguns ideais no seu passado que, à luz dos novos valores, poderiam ser francamente mal interpretados.

   «a meu ver, um homem que se respeite a si mesmo não tem alternativa senão admitir a sua responsabilidade pelos actos que cometeu; não é uma tarefa fácil, claro está, mas há realmente uma certa satisfação, uma certa dignidade, em assumir erros do passado. Em todo o caso, não há vergonha nos erros cometidos de boa-fé. Mais vergonhoso é, sem dúvida, não querer ou não poder reconhecê-los.»

    E porém… há sempre uma parte de nós que fica na dúvida quanto à relevância que Ono atribui a estes momentos, não compreendendo inteiramente se se trata verdadeiramente de um tema, ou se decorre apenas de mal-entendidos por parte do narrador.

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Orgulho e preconceito, Jane Austen (Romano Torres)


Recensão do livro Orgulho e Preconceito no blogue Clube de Leituras    O Almada Negreiros tinha razão: não duramos o tempo suficiente para lermos todos os livros que existem numa livraria e, por isso, no meu desejo de tentar ler os mais que possa, raramente volto a ler um livro. Agora vou  quebrar esta regra, porque quatro dos seis livros cuja leitura terei que fazer nas próximas semanas (no âmbito da disciplina Arte do Romance, Rogério Casanova) já li, mas há demasiado tempo para me lembrar. 
    O primeiro, Orgulho e Preconceito, custou-me mais a ler do que pensava. Confesso que tenho alguma incapacidade para compreender o sucesso e a perenidade desta obra, mas quando se a lê pela primeira vez, há uma imensa expetativa relativamente ao desenvolvimento e desfecho da história que  é contada e especialmente da relação entre Lizzie e Mr. Darcy. Quando se conhece a história (e as histórias) de fio a pavio, se dá rosto às personagens e quase que se sabe de cor algumas falas, a leitura é relativamente fastidiosa, apesar de simples.
    Reconheço o carácter precursor do livro (publicado pela primeira vez em 1813, embora tivesse sido concluído 16 anos antes), mas penso que o seu sucesso se deve sobretudo ao facto de as leitoras - ainda nos dias de hoje - se identificarem imediatamente com Lizzie. As outras irmãs e amigas não têm a densidade dela, e quase que as conseguiríamos descrever utilizando um único adjetivo para cada uma. Já Lizzie revela uma complexidade que não só a torna mais interessante como garante a empatia e compreensão imediatas. Por outro lado, Darcy tem as características que, sobretudo na juventude, desejamos encontrar num homem.
    O livro já teve algumas sequelas, pouco conhecidas e muito inferiores ao Orgulho e Preconceito, como Longbourn de Jo Baker e a Independência de uma mulher, de Colleen McCollough, e já foi adaptado várias vezes ao cinema, embora, em minha opinião, nunca tenha contracenado o par perfeito. 
    Nesta leitura, verifiquei com surpresa que a imagem que guardava de algumas personagens não correspondia à que encontrei, sobretudo do pai, Mr. Bennett, que antes descreveria como um homem culto, cínico q.b., distante, mas afetivo com as filhas, e que, agora, me pareceu egoísta e irresponsável. Em 2013, nos duzentos anos da publicação do romance, o jornal The Guardian publicou um artigo onde diversos escritores da atualidade analisam as várias personagens desta obra e que coincidem com esta minha leitura quanto a Mr. Bennett, que consideram um rufia.

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domingo, 24 de fevereiro de 2019

Curvas Ideiais, Relações Desconhecidas e outras histórias da Matemática, Jorge Buescu (Gradiva)


Livro de Jorge Buescu, Curvas Ideais, Relações Desconhecidas, publicado pela Gradiva
      Regressei a um género de que gosto muito, mas a que não dou a atenção devida, pelo menos de forma mais sistemática, a «divulgação científica (ou originais clássicos). Deveu-se este regresso à compilação de crónicas publicadas por Jorge Buescu na revista Ingenium (a origem da maioria delas, segundo o próprio autor), trazida a público pela Gradiva (2 edições, a primeira em novembro de 2018 e a segunda em dezembro do mesmo ano!)  sob o título Curvas Ideais, Relações Desconhecidas.
    Ao alinhar estas impressões preparei algumas referências sobre as minhas últimas incursões neste domínio, nomeadamente O Último Teorema de Fermat de Amir D. Aczel (já há alguns anos) e, mais recentemente, Como Mentir com a Estatísticade Darrel Huff (para não me esquecer de como somos manipulados todos os dias em frente ao pequeno ecrã), e Godel, Escher, Bach-Laços Eternos, de Douglas R. Hofstadter, na sequência da Exposição de Escher em Lisboa, onde estava exposto, pelo meu fascínio sobre as relações mais ou menos conhecidas entre matemática, música e formas plásticas de expressão artística. Nem sequer tinha reparado que todos estes títulos constam da lista da série Ciência Aberta da Gradiva, pelo que reitero o justo reconhecimento à editora que Jorge Buescu exprime na sua Nota Prévia.
    Teve esta compilação a capacidade de me proporcionar uma gratificante mistura de evocação, conhecimento e diversão. Logo em O Colecionador de Sucessões, ao introduzir a referência à OEIS (On-line Encyclopedia of Integer Sequence), criada originalmente pelo matemático americano Neil Sloane, começa por apresentar a forma como um problema colocado a um hipotético grupo de candidatos a um emprego pode ter múltiplas soluções. Salvaguardadas as evidentes diferenças, ou não se tratasse de uma evocação, veio-me à memória um fugaz encontro, na minha adolescência, com o já reformado professor de matemática, Silva Paulo, do então Liceu de Oeiras, que acompanhou um dos grandes matemáticos portugueses, Sebastião e Silva (que hoje dá o nome ao liceu), na sua reforma do ensino da matemática e na introdução das «matemáticas modernas» no currículo oficial da disciplina. Desse encontro ficou a imagem de uma sala pouco iluminada, revestida de livros alinhados quer vertical quer horizontalmente e, sobre uma mesa, uma brochura com o título (espero não ser traído pela memória) Cem Demonstrações do Teorema de Pitágoras. Cem? A que propósito, para quê? Pedi autorização para consultar e reconheço ter ficado surpreendido por reconhecer alguma «beleza» nas demonstrações (as que consegui perceber, claro) e perplexidade perante o facto de verificar (pela primeira vez?) ser possível olhar para um mesmo problema, matemático ou não, de tantas e diversas formas. Voltando à OEIS, que desconhecia, o impulso de experimentar foi irresistível. Lançar as mais disparatadas sucessões e verificar que estão registadas e, sobretudo, ver os padrões (artísticos?) das suas representações gráficas e ouvi-las!! E fecha-se ciclo com evocação da obra de Hofstadter e a referência às fugas de Bach.
    Também não conhecia o trabalho de Pedro J. Freitas (FCUL) e Simão Palmeirim Costa (FBAUL), que o autor apresenta em A Chave da Geometria de Almada, uma deveras interessante colaboração no estudo e interpretação do painel Começar de Almada Negreiros, com que nos deparamos, imediatamente, ao entrar na Fundação Calouste Gulbenkian. Parece-me importante referir que Pedro Freitas e Simão Costa organizam, em colaboração com a Fundação, visitas guiadas com explicações sobre o painel.
    Apenas como curiosidade, esta leitura modificou para sempre a forma com vou olhar para os engarrafamentos, quando estiver bem dentro de um. É preciso ler Menos Estradas Melhor Trânsito?. O que vai ao encontro do que já ouvi sobre a pendência nos tribunais, para cuja causa poderão concorrer a abertura de novos tribunais ou a multiplicação de profissionais da área, no que parece um quase evidente paradoxo. Será que haverá aqui algum objeto matemático que interesse estudar?
    Já vai longo o comentário, mas não posso deixar de referir uma passagem do prefácio, sobre «Big Data», que me parece um pouco descontextualizada e algo panfletária. Se é certa a apropriação, em minha opinião ilícita, de volumes monumentais de dados sobre as pegadas eletrónicas de todos nós, a conjetura sobre manipulação de eleitores e eleições parece-me ter um nível de generalização tão elevado que a sua demonstração será necessariamente problemática. Na realidade as grandes corporações citadas, vieram (antítese dialética?) «democratizar» a manipulação de massas, até há pouco monopólio das WMM (Weapons of Mass Manipulation), mais conhecidas por Main Stream Media (MSM), na sua maioria controladas, também elas, por outras grandes corporações ou pelos Estados, incluindo ligações a interesses militares. Mas esta conjetura já provocou danos factuais à democracia, com a «legitimação» de novas formas de censura, listas negras de sites marcados (branded) como «desinformativos» ou «fraturantes», «fact checkers» sem qualquer espécie de acreditação relativamente a idoneidade, independência e imparcialidade, arrastando também aqueles que pensam de forma diversa da do regime. E de repente estamos no primeiro termo da pseudo-sucessão de Niemoller-Brecht!
    Fecho, no entanto, com um voto de esperança, na figura espantosa da iraniana Maryam Mirzakhani, mulher, matemática, pela pessoa, pelo trabalho que não tenho a mínima capacidade de seguir ou compreender, mas amplamente reconhecido pela Academia (a primeira mulher a ganhar a Medalha Fields) e pelo impacto que a sua vida teve na condição da mulher, incluindo no seu país natal onde, como em muitos outros e em todas as religiões do mundo, a interpretação, tantas vezes sectária, que homens fazem dos textos sagrados, conduz a abusos e descriminações inaceitáveis.

João Gusmão

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