quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Sociedade dividida, Raphael Lima (motoreditorial)

 
   Fiquei curiosa com este livro que foi apresentado pela Teresa no âmbito da disciplina Escrita de viagem lecionada pelo Paulo Moura. Para o escrever, o autor percorreu e fotografou os países e regiões da ex-Jugslávia, cerca de duas décadas depois da guerra.
    Como ele próprio explica, estava dividido entre regressar a Chipre ou Belfast onde concebeu o projeto que dá o nome a este livro ou ir para a antiga Jugoslávia e entender os motivos que levaram ao colapso do país na década de 1990, após quase quarenta anos sob o comando do Marehal Josip Broz Tito e passados mais de dez anos, após a sua morte, com nacionalismos cada vez mais exacerbados. Optou pelo último. Começou por Belgrado, capital da Sérvia, justamente 18 anos depois sobre o início do bombardeio da NATO. As fotografias mostram uma cidade ainda fortemente marcada pela guerra. Daí, depois de ter assistido a um jogo de futebol, parte para Vukovar na fronteira com a Croácia e que foi o palco de uma das piores batalhas. Também aqui as marcas da guerra são evidentes. "(...) a impressão é de que a cidade havia saído da guerra há menos de um ano".
    Depois segue para Sarajevo, e entre as suas deambulações, com reflexões sobre a cidade e a guerra, menciona o documentário Miss Sarajevo. Finda a viagem, falou com Alma Catal a protagonista, que lhe descreveu a sua vida na cidade durante a guerra e com o realizador, Bill Carter. Este diz-lhe que esteve em Sarajevo pela última vez em 2009 e que a cidade, de certa forma, recuperou-se visualmente, mas há muitas cicatrizes escondidas debaixo daquilo que terá uma, duas gerações para desaparecer.    
    Vai a Srebrenica, Mostar, Podgorica, Kosovo, Pritina, Skopje, Junta às suas reflexões fotografias a preto e branco dos locais por onde passa, onde a destruição causada pela guerra está sempre presente, e depoimentos de residentes. Em Kosovo, um indivíduo diz-lhe que viveu em cinco países sem sair de casa - nasceu na República Socialista Federal da Jugoslávia, depois viveu na República Federal da Jugoslávia, em seguida na Sérvia e Montenegro, na Sérvia e agora no Kosovo.
    Na parte final da viagem, cita Tito que teria dito:"ninguém se questionou quem era sérvio, croata, muçulmano, éramos todos um povo, foi assim na época e ainda penso que é assim hoje."
    
    Em Mostar, na Bósnia, encontra esta frase numa parede:
    Cuidado com seu inimigo, mas cuidado com seu amigo cem vezes mais. Se seu amigo se tornar seu inimigo, ele pode te machucar muito mais.

    Quando acabei de ler, senti que faltava alguma conclusão, algum sentido ao percurso feito que não fosse meramente descritivo. A sensação com que fiquei da leitura foi que perpassava por todos os entrevistados a mesma tristeza, a guerra ainda muito presente e alguma nostalgia pelo passado.

   Uma nota final para a edição do livro que, como refere na contracapa, foi feito por autores, leitores e editores na plataforma de edição em rede motoreditorial.org.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Mil Novecentos e Setenta e Cinco, Tiago Patrício (Gradiva)

    Primeiro livro que li deste autor, de que ainda não tinha ouvido falar, tendo por isso ficado surpreendida por descobrir na badana que já recebeu (venceu, como é ali referido) diversos prémios. O título, Mil Novecentos e Setenta e Cinco, não nos remete apenas para um qualquer período temporal definido, envia-nos diretamente para uma época agitada no nosso país que se seguiu à revolução do 25 de abril. Para uns será uma viagem a um tempo que não conheceram, para outros um regresso ao passado.
    O livro inicia-se com o ano novo e acaba com o “findano”. Horácio regressa à aldeia de Trás os Montes, onde nasceu porque recebeu uma carta da tia a informá-lo que a avó estaria muito doente. E é esse o ponto de partida, o regresso de Horácio, a que se hão-de seguir outros regressos ou chegadas à aldeia, que se encontra espartilhada entre os muito ricos e os pobres.
    A descrição das personagens é tão perfeita que nos permite imaginá-las, sentadas à entrada de suas casas ou a matar um porco ou a lavar a roupa no rio. Mas tratando-se de uma obra ficcional é, simultaneamente, uma obra realista, porque tudo o que é contado pode ter acontecido, se não ali, logo ao lado, se não daquela forma, de outra muito parecida. Para esta noção de verosimilhança contribuem os diálogos, curtos e vivíssimos.
    Embora seja o retrato de uma aldeia transmontana é, de alguma forma, uma metáfora para a situação que o país viveu nesse já longínquo ano de 1975 e para os anos que se seguiram. Como se tivesse sido um sobressalto, a ideia que se podia mudar tudo, reverter o que até aí era a ordem estabelecida, e depois, lentamente tudo tivesse voltado não ao que era, mas a uma realidade intermédia.
    A imagem perfeita da mudança é o facto de as pessoas terem deixado de morrer:
    « - Bons tempos, em que as pessoas ficavam doentes e dali a um par de meses morriam. Agora não, é uma desgraça.
     »Lamentou a mulher.
   » - Estou em crer que é uma coisa passageira. Vivemos um tempo de indefinição, é normal que ninguém queira morrer sem saber como é que isto acaba»

    O Coveiro, vítima desta ausência de mortos, é uma personagem fascinante. 

    «(…) Gostava de falar sozinho, ajudava-o a aclarar os pensamentos, porque uma coisa eram as suas ideias, muitas e variadas, e outra era aquilo que ele camava “saber o que se diz”. Para isso tinha de testar as ideias através das palavras, o que é diferente de deixá-las andar às escuras a saltar dentro da cabeça como macacos nas árvores. Tinha duas maneiras de fazer isso: escrever o que pensava ou repetir os pensamentos em voz alta.»

   As personagens femininas, embora presentes são quase sempre secundárias, com exceção de Fernanda, amiga de Gabriel, que vai com ele passar férias à aldeia em agosto e que, deslumbrada, conhece a aldeia e os seus habitantes, dando-nos um olhar externo sobre o que se vai passando.
    O livro tem um mérito inegável que é o de contar diversos episódios que se sucedem naquele ano sem nunca cair no maniqueísmo fácil de justificar uns e culpar outros. Senti, contudo, ao longo da leitura, que muitas histórias ficaram por contar ou mereciam ser mais contadas.

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domingo, 18 de novembro de 2018

Viagens com o Charley, John Steinbeck (Livros do Brasil)

  Este livro foi sugerido pela Catarina para um trabalho da disciplina Escrita de viagem e adorei lê-lo. Há muito que não lia um livro do Steinbeck, mas a escrita dele, rápida, despretensiosa e ao mesmo tempo tão rica, prende-nos desde o princípio.
    De acordo com a contracapa, «a bordo de uma camioneta a que chamou Rocinante, tendo apenas como companhia o cão-d'água Charley, partiu numa viagem de mais de três meses do Maine à Califórnia», e a causa e o  objeto da viagem são mencionados logo no início:
    «Por conseguinte, descobri que não conheço o meu próprio país [...]. Não ouvira falar da América, não cheirara a sua erva, as suas árvores e as sua imundície, não vira as suas colinas nem as suas águas, a sua cor e a qualidade da luz.»
    Contudo, há uma segunda razão, que resulta do facto de ele ter estado doente no inverno anterior, com uma doença que descreve como uma advertência da aproximação da velhice, daí a decisão de viajar:
    «Não quero renunciar à impetuosidade por um pequeno ganho em tempo de vida. [...] Não quero trocar, na minha própria vida, a qualidade pela quantidade.»
     Começa por fazer uma série de reflexões sobre a preparação das viagens:
    «Descobrimos após anos de luta que não escolhemos uma viagem; a viagem é que nos escolhe a nós», ou «Creio que há no planeamento de uma viagem a longo prazo uma convicção íntima de que a mesma não se realizará», ou ainda «Pergunto a mim mesmo porque será que quando planeio uma viagem muito cuidadosamente ela se desfaz em pedaços, enquanto, se vou cambaleando por aí além numa ignorância bem-aventurada, seguindo uma direção de fantasia, chego onde pretendo sem dificuldade».
    Curiosamente faz a maior parte do percurso sem procurar falar com pessoas, isolando-se até: «Sentei-me na cama e caí numa monotonia cinzenta. Porque pensara que podia aprender alguma coisa  a respeito do país? Nas últimas centenas de milhas evitara as pessoas.» E é depois desta reflexão que passa a interagir mais. Apesar de serem  os últimos capítulos que me pareceram mais interessantes, justamente pelos diálogos com os outros, os capítulos precedentes não deixam de cativar, lançando um conjunto de reflexões sobre o regresso à terra, ao lugar onde cresceu(mos), o progresso versus tradição, a solidão e até mesmo a depressão («Uma alma triste pode matar-nos mais depressa do que um micróbio»).
    Mesmo as observações que faz sobre o país e os americanos relativiza-os «mas os nossos olhos da manhã descrevem um mundo diferente do que descrevem os nossos olhos da tarde».
    Os últimos capítulos, passados no sul, abordam a questão do racismo de uma forma que, mesmo à distância do tempo, não deixa de nos impressionar.
     Mais do que o relato da viagem, o mais interessante no livro são as reflexões que faz sobre o seu dia a dia, o desejo de viajar, a solidão e finalmente, o enorme desejo de regressar.
        
    Uma palavra final para o Charley, o cão d'água que o acompanha na viagem e que desempenha várias funções, companheiro, segurança e facilitador porque, como Steinbeck refere, muitas conversas no caminho começaram com uma pergunta sobre a  raça do cão.


    E, já agora, se tivesse sido inventada esta viagem ou, pelo menos, a maneira como decorreu, o livro teria menos interesse?

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domingo, 11 de novembro de 2018

O Menino de Cabul, Khaled Hosseini (Editorial Presença)

Depois de várias tentativas falhadas - e, consequentemente, uma grande ausência no blogue - decidi-me a ler O Menino de Cabul, do mesmo autor de Mil Sóis Resplandecentes. E se gostei do primeiro, quase não tenho palavras para este. Foi um livro que me tocou como há muito não acontecia. É um livro duro, sobre segredos guardados a sete chaves que corroem as vidas dos que os guardam e também as dos que, desconhecendo-os, fazem parte desses segredos. O pano de fundo é a invasão soviética do Afeganistão e domínio talibã que se lhe seguiu.
Amir vive desafogadamente com o seu pai cujo afeto luta por conquistar. Toda a sua infância é marcada por esta necessidade de se provar diante do seu Baba, que não compreende o filho nem se identifica com a sua sensibilidade. O maior amigo de Amir, Hassan, é o seu criado hazara, que vive também apenas com o pai numa cabana anexa à casa grande. O pai de Amir tem um grande carinho por Hassan e pelo seu pai, Ali, com quem, por sua vez, cresceu.
Amir sente um grande ciúme por este interesse do pai em Hassan. Por isso, encontra formas de, nas suas brincadeiras em conjunto, atormentar o amigo. Já Hassan tem por Amir a maior das devoções (Por ti, tudo), provando-o por diversas vezes. Na noite mais importante para Amir, a noite em que apostara tudo para merecer o orgulho de Baba, é confrontado com a derradeira prova de amizade que poderá alguma vez prestar a Hassan - a sua decisão nesse momento determina o curso das suas vidas e dos seus tormentos.
O livro fez-me chorar, fez-me rir e fez-me conhecer um pouco melhor a história do Afeganistão (Quando os talibã avançaram e expulsaram a a Aliança de Cabul, eu posso dizer que dancei nessa rua [...] e, acredita, não estava sozinho). Fora um ou outro momento mais previsível ou menos bem conseguido, posso dizer que este se tornou um dos meus livros prediletos.

[...] perguntei-me se seria assim que o perdão despontava, não com fanfarra e aparato,mas com a dor a reunir os seus pertences, a fazer as malas e a partir sem despedidas, a meio da noite.

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    SOBRE O FILME

   Por já me terem falado tanto do filme, assim que acabei de ler quis vê-lo. Vi-o acompanhada por quem não conhecia a história e, apesar de estar bastante fiel, ficaram de fora detalhes que, por omissos, tornam o filme mais superficial (e muito menos duro que o livro). Acrescentei a informação em falta e a resposta que obtive foi que sem esses pormenores, a mensagem não tinha sido passada. De qualquer maneira, é um filme bonito. Deixo o trailer, para quem tiver curiosidade:


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Este tempo, crónicas, Maria Judite de Carvalho (Caminho)


     Mais um livro de crónicas. Uma antologia de crónicas de Maria Judite de Carvalho organizada e prefaciada por Ruth Navas e José Manuel Esteves e editada em 1991. As crónicas foram publicadas em diversos jornais e revistas entre 1968 e o princípio dos anos 80. Ao contrário do que estava à espera, as crónicas mantém-se atuais na sua grande maioria, quer quanto aos temas, quer quanto à abordagem feita. Acresce ainda uma escrita perfeita, cuidada, poética por vezes.
    Nestas crónicas, Maria Judite de Carvalho escreve sobre diversos temas, como o turismo, a publicidade, a língua portuguesa, a televisão e os computadores. Muitas das crónicas são sobre Lisboa:
    Às vezes acontece passarmos por uma rua onde não passávamos há um, há dois anos, e onde havia um bonito prédio antigo, com loja, com gato à janela, com varanda florida, e já não há prédio, só remendo gritante, violento, deserto à noite. (O Jornal, 16-3-84)
    Por isso fico triste quando encontro uma casinha antiga, a ser demolida. Era feia? Talvez fosse feia, mas ficava bem a Lisboa e devia ser muito agradável viver dentro dela, no tempo em que o sol não era só dos gigantes e as árvores e os canteiros não eram um luxo inacessível. (Diário de Lisboa, 13-1-73)
    Também escreve sobre o rio Tejo e, neste caso, descobrimos a diferença para a atualidade, nesta crónica que data de 1971:
    Este Tejo é,  de facto, um rio abandonado pelos deuses do rio. Está quase todo tapado, vedado, escondido, armazenado, por assim dizer, lá para o fundo da cidade. Fábricas, estaleiros, sei lá, tudo serve para que o não veja o lisboeta nem mesmo o turista - é bom não esquecer o turista, o sol e o céu azul não bastam para o atrair, é bom ajudar um pouco. E o Tejo....
   Tem também várias crónicas sobre a velhice, agrupadas no capítulo À espera, tendo como títulos Centenárias, Reformada, Velhinhas.
    Muitas crónicas são pequenas histórias, como uma crónica publicada em 1973, com o título Desexistência: 
    Não sei se desistiu mesmo, um dia, tendo para tal, parece-me, várias circunstâncias atenuantes, ou se a sua vida foi sempre uma não-vida, um tempo passado ao lado, de fora da faixa por onde os outros se movimentavam. Há pessoas (...) - raras - que, por mais que vivam, nunca se habituam a viver. 
    Ninguém sabe se desistiu mesmo, como já disse. Mas não. para uma desistência dessas, a grande, a maior de todas, é precisa uma coragem que ele nunca teve, um olhar em frente que não conseguia. Não, não era homem para isso. Desexistência, era tudo.
    Por coincidência, enquanto lia este livro soube que  a obra completa desta autora vai ser publicada na íntegra, até ao final de 2019, pela Almedina, através da chancela Minotauro. Uma oportunidade para a reler e para as novas gerações a conhecerem.

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domingo, 28 de outubro de 2018

O fiel defunto, Germano Almeida (Caminho)

    Encontrei este livro por acaso. Um dia quase à meia-noite, esperava pelo João no aeroporto e entrei na loja (tabacaria?) que vende revistas, jornais e também alguns livros. Quando aguardo a chegada de alguém no aeroporto, passo quase sempre por lá e folheio sobretudo os jornais e revistas. Mas, desta vez, este livro chamou-me a atenção, pelo autor, pelo título e também pela sobriedade da capa. Há muito que não leio um livro do Germano de Almeida. Li as primeiras páginas deste e, felizmente, não li a última.     
    Já me aconteceu ler as primeiras páginas de um livro e depois a última. Saber como um livro acaba não me dissuade de o ler. Mesmo se se tratar de um livro policial, porque não tento adivinhar quem matou, quem roubou, enfim, quem tem a culpa. O que me seduz na leitura é o percurso que é feito, as personagens, as relações que estabelecem entre elas, ou seja, o que está entre o princípio e o fim do livro, sendo que estas partes são um bom indicador sobre o interesse do mesmo. Mas, neste caso, não li a última página antes de ler o livro e por isso quando o terminei, quando de facto cheguei ao fim do livro, desmanchei-me a rir. Não me consigo lembrar de outra expressão. Absolutamente surpreendente e divertido.
    O livro parece ter sido escrito ao sabor da caneta, sem grandes delongas, nem reflexão. Como se as palavras afluíssem ao autor e a história fosse passeando pelas diversas personagens, o escritor, Miguel Lopes Maceira, Mariza, Matilde, Edmundo do Rosário e o primo do escritor, Jesus de Brito Macieira. A morte do escritor é anunciada logo no primeiro parágrafo e pressentida pelo próprio e a partir daí seguimos os principais envolvidos na vida e morte do escritor. Depois da morte dele,  acompanhamos a forma como as pessoas lidam com o acontecimento, as pessoas próximas do escritor, mas também as pessoas afastadas, que o conheciam pelos seus livros ou apenas pelo nome e os políticos. Como lidam e tentam beneficiar com a sua morte.
    Não resisto a dar um cheirinho do livro:
    (...) eu mesmo pensava, mas como é possível que uma pessoa como ele, que produziu páginas tão belas, tão extasiantes, páginas que encantaram não apenas nós, os seus patrícios, mas mesmo o mundo lá fora, possa de repente começar a cheirar tão mal? Mas precisamente aqui está a maravilha da natureza, disse o presidente, a maravilhosa benção que é a luta permanente entre a vida e a morte dentro de nós, e quando  vida perde essa luta, que ninguém sabe quanto tempo dura, a morte instala-se finalmente triunfante e com todo o seu horror de podridão. (...)
    A não perder!

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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Morte na Pérsia, Annemarie Schwarzenbach (Edições Tinta da China)

    Primeiro livro desta autora de quem pouco conhecia. Foi-me emprestado pela Catarina, colega da disciplina Escrita de viagem. Talvez por estar à espera de um livro de viagens, senti alguma dificuldade no início da leitura. Mesmo depois de ter lido a Nota prévia que avisa que este livro trará pouca alegria ao leitor. Não o poderá consolar nem reconfortar, como muitas vezes os livros tristes sabem fazer, (...)
     Só quando compreendi que a Pérsia funciona apenas como cenário para o profundo drama existencial que a autora vive, é que comecei a lê-lo com interesse e mesmo avidez. A sentir o que ela escreveu e absolutamente surpreendida pelo facto de ter sido escrito nos anos trinta do século passado (embora só tenha sido publicado em 1995) pelo arrojo que evidencia. 
    O livro poderia decorrer em qualquer outro lado que representasse o exílio, o afastamento, o desconhecido. O medo. (O perigo tem diferentes nomes. Por vezes, chama-se simplesmente saudades de casa, outras vezes, é apenas o vento seco das montanhas que acicata os nervos, outras vezes, o álcool, outras vezes, venenos mais letais ainda. Em certos momentos, não tem nome, nesses momentos somos acometidos por um medo inominável.) 
    Da Pérsia pouco ficamos a saber. Há algumas descrições, menção de algumas cidades ou paisagens e a afirmação de que neste país temos de estar duas vezes certos das coisas que amamos. Mas é de alguma forma apenas um pretexto para uma viagem por dentro dela própria, uma forma de resistir ao medo que a acompanha sempre. A procura do amor:
    Sabes bem que ninguém pode entrar no coração de outra pessoa e unir-se a ela, nem sequer por um breve momento. Mesmo a tua mãe deu-te apenas um corpo, e quando começaste a respirar, não foi ar que inspiraste, mas solidão.
   Eu sei - respondi, - mas o nosso único consolo é o amor e ficar ao lado de quem amamos.

    Tive de resistir à tentação de acumular frases roubadas mas acabei de o ler com a sensação que teria de começar de novo a lê-lo e relê-lo mais uma vez para o apreender totalmente.