sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A Elizabeth desapareceu, Emma Healey (Marcador Editora, Editorial Presença)

    A minha irmã trouxe-me este livro, dizendo que era perfeito para ler na longuíssima viagem de avião que me preparava para fazer. E estava certa. Assim que comecei a lê-lo, fiquei refém dele e tive dificuldade em interromper a leitura. A protagonista principal é Maud, que tem 82 anos e sofre de demência senil. Maud tem por sua conta dois mistérios por resolver: o desaparecimento da sua irmã mais velha, há já cerca de 70 anos, e, mais recentemente, o desaparecimento da sua amiga Elizabeth.
    Como sabe que tem problemas de memória, toma nota das coisas que quer recordar em pequenos papeis que guarda nos bolsos ou pousa em qualquer lado onde pára e que vai encontrando ao longo do dia. A nota mais frequente é: a Elizabeth desapareceu. E sempre que encontra um bocado de papel com esta anotação inicia o processo de procura da amiga. Para além destas notas, guarda várias coisas na carteira ou em pequenos frascos, um hábito que adquiriu quando a irmã desapareceu.
    Maud é apoiada por um conjunto de cuidadoras, que aparecem diariamente, e pela filha e pela neta. Uma das cuidadoras passa o tempo a contar histórias assustadoras de velhinhas que foram assaltadas [(...) Bom, há a situação de uma idosa que estava presa na cave, e os ladrões roubaram tudo, torturaram-na e prenderam-na, e ninguém soube que ela se encontrava lá. Durante dias e dias.] o que juntamente com as notas, com a incapacidade crescente da Maud  e com a divagação entre o passado e o presente, ajudam a criar o cenário meio esquizofrénico em que a história se desenvolve.
    Como regressa sistematicamente à procura da sua amiga, leva o filho desta bem como a sua própria filha ao desespero. Como era previsível, o desaparecimento das duas é esclarecido no final e, de alguma forma, aprocura de uma estava ligada à procura da outra.
    Embora a trama toda esteja muito bem estruturada, sentimos no final que há elementos que só são esclarecidos no final e que a sua omissão contribuiu para manter o mistério.
    Uma nota final para a personagem principal, a Maud, com a qual vamos criando uma imensa empatia, na certeza porém, que se tivéssemos que conviver com ela como a filha e a neta têm, manifestaríamos a mesma impaciência que elas só ocasionalmente manifestam.
       

sábado, 28 de julho de 2018

O Gigante Enterrado, Kazuo Ishiguro (Gradiva)


    Este livro foi-me difícil de ler, por vários motivos. Em primeiro lugar, custou-me não me sentir impelida a ler em todos os momentos - algo que já sentira com Remains of the Day e que me deu semelhante sensação de desilusão, após a leitura de Nunca me deixes. Em segundo lugar, porque me parecia inicialmente que prometia uma história de descoberta pelos recônditos da memória, numa alegoria aos seus segredos, usando como pretexto os tempos após Rei Artur; na verdade acabou por se tornar mais uma aventura de cavaleiros, duelos, criaturas míticas... Por fim, e talvez por ter demorado bastante tempo a ler e bastante tempo à espera do esclarecimento que nos seria dado quanto ao que a "névoa" que apagava as memórias das pessoas da região escondia, não consegui - de início - compreender o fim, além do que me senti enganada ao não ver as minhas dúvidas respondidas. Foi preciso algum tempo de reflexão e debate para que o meu namorado sugerisse uma hipótese que, de repente, fazia todo o sentido.
    No princípio da história conhecemos Axl e Beatrice, um casal idoso que mora perto da entrada de uma gruta que alberga vários outros habitantes, e que decide empreender uma viagem há muito adiada para rever o filho que há muito se foi embora. No entanto, as suas recordações do seu tempo junto, do porquê da ausência do filho e mesmo do motivo para adiar a viagem estão submersas na tal "névoa" de esquecimento. No seu caminho, cruzam-se com Wistan, Edwin e Sir Gawain, sobrinho do falecido Rei Artur e acabam enredados em conspirações, feridas e ressentimentos do passado - e uma missão para destruir o dragão Querig.
    O livro tem passagens muito bonitas - isso é inegável! E, correndo o risco de que, como eu, fiquem à espera de mais relativamente a este comovente casal, aqui fica uma:

   «Estás tão segura, boa senhora, de que desejas libertar-te dessa névoa? Não é melhor algumas coisas permanecerem ocultas das nossas mentes?»
    «Pode ser que assim seja para alguns, irmão, mas não para nós. O Axl e eu desejamos recuperar os momentos felizes que partilhámos. Ser despojados deles é como se um ladrão tivesse passado de noite e roubado o que tínhamos de mais precioso.»
    «Mas a névoa cobre todas as recordações, tanto as más como as boas. Não é verdade, senhora?»
    «As más também regressarão, ainda que nos façam chorar ou tremer de cólera. Pois não é essa a vida que partilhámos?»
        

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quarta-feira, 25 de julho de 2018

Orgia dos loucos, Ungulani Ba Ka Khosa (alcance editores)

    Nunca tinha lido nada deste autor, que já tem vários livros publicados, um dos quais (Ualalapi) foi considerado um dos 100 melhores romances africanos do século XX. Apesar disso, não consegui encontrar livros dele entre nós. Este livro  foi-me recomendado quando estive em Maputo, em 2017, mas só agora o li.
    Conforme é dito na contracapa, a obra, composta por nove contos, tem como plano central a imagem de um país independente, mergulhado na guerra civil e marcado pela escassez, pela pobreza e pelo aviltamento da cultura endógena. E, contudo, é de uma beleza surpreendente:
    O tempo entrou pela casa adentro e vagueou como um pássaro ferido pela sala enorme e moribunda, procurando as frestas por onde se infiltrou e estancou, reduzindo os séculos e séculos de luz em pó e cinza. As lascas de tinta caíam do tecto e das paredes, formando figuras estranhas e desconhecidas no chão sujo; as baratas e os ratos circulavam sem pudor, brincando na luz e na sombra, passeando por entre as cadeiras e mesas do tempo da pacificação, e olhando com certa naturalidade as teias de aranha que se ligavam entre si, criando um céu de nuvens poluídas que se rarefaziam à luz da lâmpada que se limitava a iluminar o centro onde as vozes da noite chegavam aos bocados, partidas, fragmentadas e se amontoavam no círculo de luz, deixando o tantã longínquo arremessar-se à sombra e às paredes onde os espíritos petrificados dos brancos da desordem e da mentira, incapazes de sustarem o avanço dos deuses africanos, sonhavam com galeras remotas que os libertassem das lianas que os afastavam do mar da descoberta e da civilização. (A solidão do senhor Matias). 
    Mas a escrita poética acentua mais a tristeza de alguns dos contos, a fome, a morte, as perdas. Particularmente doloroso o conto A praga: (...) O filho, sentado a cinquenta metros da casa, comia as crostas das feridas mal saradas que cobriam o corpo. Com  gestos calmos e precisos Kufenei tirava as crostas do corpo e levava-as à boca. Os dentes esmagavam, trituravam. E Luandle ouvia o som, o ruído. Kufenei comia com sofreguidão as crostas. As feridas brilhavam ao sol. (...)
E imensamente divertido e surpreendente o conto A revolta.
    Um livro que só peca por ser tão pequeno.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

La solitude du docteur March, Geraldine Brooks (Pocket)

   
    Este livro significou muito para mim há alguns anos. Em 2004, a minha mãe estava a recuperar de um gravíssimo problema de saúde e a minha amiga Cinda falou-me neste livro. Pensei que a minha mãe gostasse de o ler, dada a sua ligação ao livro As mulherzinhas, de Louise May Alcott, que não só tinha lido e relido, como tinha insistido comigo e com a minha irmã, quando éramos miúdas, para que o lêssemos.
    A primeira e a última páginas deste livro, La solitude du docteur March, têm assinalados os dias de início e fim da sua leitura (04.04.2014 a 26.06.2014) e confirmam o interesse que teve na sua leitura, numa fase em que ainda estava muito debilitada.

    Confesso que fiquei muito surpreendida por ter encontrado o livro As Mulherzinhas no desafio 100 livros da BBC, mas penso que a leitura deste livro mo fez ver sobre uma outra perspetiva, embora me pareça que o mérito é, sobretudo, deste último. Provavelmente se o lesse agora teria uma visão distinta, mas a ideia que conservo é da vivência das quatro irmãs, muito diferentes entre si,  num mundo relativamente protegido, com a mãe e uma criada devotadíssima a elas, e que se dedicavam sobretudo à caridade para com os que eram ainda mais pobres que elas. Uma das irmãs, distinguia-se das outras, pelo seu espírito rebelde e pela vontade de ser escritora e não se limitar a sonhar com o casamento. O pai delas estava na guerra e um dia recebem a notícia que teria sido ferido.
    Geraldine Brooks conta a história do pai das mulherzinhas, que é capelão (docteur?) e que parte para a guerra para acompanhar os jovens soldados da sua terra que se tinham alistado. Tanto quanto me recordo, no livro As mulherzinhas, não resultava de forma óbvia o envolvimento de toda a família  na luta contra a escravatura, nem sequer a causa da perda da fortuna familiar, e a autora aproveita estes espaços vazios para nos dar o retrato de uma família politicamente empenhada e envolvida na luta contra a escravatura. Este livro é centrado essencialmente no pai, praticamente ausente do outro, e, simultaneamente, dá-nos uma visão distinta das filhas e da mulher.
    Penso que foi um ato de coragem escrever este livro. Pegar numa história que tem a projeção de As Mulherzinhas e escrever a história do docteur March, encaixando perfeitamente uma na outra como se fossem duas peças de um puzzle é  um trabalho fascinante. No posfácio, a autora explica que o romance de Louise May Alcott  mostra a forma como um ano vivido numa situação de proximidade da guerra modificou a personalidade das quatro filhas, nada sendo dito sobre o efeito da guerra no pai, que a viveu, e é neste vazio que deixou trabalhar a sua imaginação.
    O livro (March, em inglês) ganhou o prémio Pulitzer em 2006. Penso que não foi traduzido para português, o que me parece surpreendente.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

A mulher de cabelo ruivo, Orhan Pamuk (Editorial Presença)

    Alguns dias antes do dia da mãe descobri que iria ser editado entre nós mais um livro do Orhan Pamuk, A mulher de cabelo ruivo. Enviei a notícia aos meus filhos, sugerindo-lhes que mo oferecessem. Estraguei a surpresa que me preparavam, porque antes mesmo da sua publicação já o tinham encomendado, mas foi com o mesmo prazer que o recebi.
    A história, ou pelo menos a parte inicial, está sumariamente contada na contracapa do livro: um jovem estudante, Cem, vai trabalhar como aprendiz de um escavador de poços antes de se candidatar à universidade. O pai, um militante de esquerda, que já tinha estado preso, deixara depois a mulher e o filho, que passavam então sérias dificuldades financeiras.
    O jovem e o escavador de poços, o mestre Mahmut, criam uma ligação muito forte, até porque o jovem pouco se recorda do pai, e está numa fase da vida em que lhe sente particularmente a falta, e o mestre, por seu lado, porque não tem filhos. Para além disso, o isolamento a que estão sujeitos e o trabalho que fazem tornam essa relação quase inevitável, o que é ainda reforçado pela cumplicidade que ambos desenvolvem, contando diariamente histórias um ao outro.
   Habitualmente, ao final do dia descem à cidade onde se encontra uma companhia de teatro itinerante na qual atua a mulher de cabelo ruivo, por quem o jovem se apaixona. Mas se a mulher de cabelo ruivo deu o nome ao livro e é crucial no desenrolar da história, esta centra-se essencialmente na relação entre pai e filho, ou, melhor dizendo, entre pais e filhos. O mito de Édipo é repetidamente mencionado - e se não o fosse, seria, inevitavelmente, lembrado - bem como a história de Rostam, que matou o filho Sohrab por engano, uma lenda persa narrada no Shahnameh.
    Este cruzamento faz parte do fascínio dos livros deste autor porque, tal como o seu país, as suas histórias têm dois mundos distintos que ele convoca simultaneamente, o ocidente e o oriente. Ao mesmo tempo, e como é habitual, o pano de fundo é a cidade de Istambul, e da imensa evolução que teve nos últimos 40 anos.
  
    Depois de deixar o mestre, Cem entra para a universidade  onde estuda engenharia geológica e torna-se um abastado empreiteiro de construção civil, dono de uma empresa a que dá o nome de Sohrab. Quando decide comprar terrenos, na zona onde vários anos antes  tinha estado a escavar o poço com o mestre, é confrontado com o seu passado e com as consequências dos seus atos. 
    Será ele Édipo ou Rostam?
    Neste livro, como nos outros livros deste autor, o que nos apaixona é a forma como é contada a história e como vai desvendando a relação entre as várias personagens.
    Roubei muitas frases, mas vou citar apenas duas que são muito expressivas relativamente à história:
    (...) Nesses momentos, pensava: as ocasiões em que sou mais eu próprio são aquelas em que ninguém está a olhar. Mal começara ainda a descobrir esta verdade. Quando não há ninguém para nos observar, o outro eu que mantemos escondido dentro de nós pode vir cá para fora e fazer o que lhe apeteça. Mas, quando se tem um pai suficientemente perto para tomar conta de nós, esse segundo eu fica enterrado cá dentro.(...)
    (...) Será que a necessidade de um pai existe sempre ou só a sentimos quando estamos confusos ou angustiados, quando o nosso mundo está a cair aos pedaços?     


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sábado, 23 de junho de 2018

Escrito na Água, Paula Hawkins (Topseller)

Paula Hawkins Escrito na Água @ Clube de Leituras   Nel Abbott tem, desde pequena, um fascínio pelo rio que rodeia a cidade onde costuma passar férias. Pelo rio e pelas mortes que nele ocorreram, ao longo dos tempos. Mulheres levadas ao desespero ou levadas à força, que deram a vida às águas. Até que chega a sua vez. 
    O livro começa com a irmã de Nel, Jules, a receber a notícia da sua morte. Regressa então à cidade onde tanto anos antes passara os seus verões e sofrera às mãos da irmã e dos seus amigos; a cidade onde a irmã decidiu passar a viver e onde Jules preferia nunca mais ter de voltar. A casa é a mesma onde passavam férias e era lá que Nel vivia com a sua filha, que tem a certeza que a mãe se suicidou e a deixou por vontade própria. 
   O livro está escrito ao estilo do primeiro livro da autora, A Rapariga no Comboio, uma vez que vamos conhecendo o desenrolar da história pela voz de diferentes personagens. Tem ainda as curiosidades de se ir passando no presente e no passado, onde vai sendo explorada a relação entre as irmãs e o motivo que as fez afastarem-se enquanto cresciam e também de ir mostrando passagens do livro que Nel estava a escrever sobre a sua interpretação das várias mortes que ocorreram no Poço das Afogadas. Tudo bons ingredientes para um bom mistério, certo? Para mim, sim! Só que… precisava de ir mais além. Os ingredientes estão lá. Mas não chegam.
    Como leitora, senti que ficaram muitas perguntas por responder - e não daquelas que são deliberadamente deixadas para nos obrigarem a pensar ou puxarem a nossa interpretação, mas sim, em meu entender, por falta de capacidade da autora em dá-las. Adoraria ter conhecido a fundo o manuscrito de Nel, onde ela acaba por revelar que mais do que um local de mortes trágicas, o Poço das Afogadas é um local onde, ao longo dos tempos, a cidade se foi libertando das mulheres problemáticas. Temos acesso a algumas passagens - nada de muito envolvente. Mesmo as visitas ao passado, as várias mensagens que Nel deixa a Jules, nada disso é explorado a fundo, fica tudo na camada mais superficial. 
    É um excelente livro para o verão. Agarra e queremos saber o que de facto aconteceu; mas não nos faz pensar e, quando o faz, não favorece o enredo - isto porque é um bocadinho previsível…

    Nickie perguntava-se se teria dito demasiado, revelado demasiado. Mas não a podiam culpar por ter começado aquilo tudo. Nel Abbott já andava a brincar com o fogo - estava obcecada com o rio e os seus segredos, e esse tipo de obsessão nunca acaba bem. (…) E não se dava o caso de não a ter avisado, pois não? O problema era que ninguém lhe dava ouvidos. (…) Ninguém gostava de se lembrar de que a água daquele rio estava infetada com o sangue e a bílis de mulheres perseguidas, mulheres infelizes; afinal, bebiam-na todos os dias.

sábado, 16 de junho de 2018

Uma noite em Lisboa, Erich Maria Remarque (Edições Saída de Emergência)

  
  Confesso que para além do autor, foi o título da obra, a menção a Lisboa,  que me atraiu e suscitou curiosidade.
    Lisboa, que serve de cenário a esta história, é sobretudo vista como um lugar de passagem, mas, em plena segunda guerra mundial, pelo contraste que oferece relativamente aos restantes países europeus, tem um toque encantatório:
   Embora estivesse em Lisboa há já uma semana, ainda não me habituara à sua iluminação exuberante. (...) Contornámos a Praça do Comércio com o seu aspeto teatral e, passado algum tempo, chegámos a um labirinto de vielas e escadarias inclinadas (...) Cheirava a peixe, alho, flores, sol morto e sono. De um lado, sob a Lua nascente, o Castelo de São Jorge sobressaía na noite, e o luar descia em cascata pelos degraus. Voltei-me e olhei para o porto lá em baixo. Ali estendia-se o rio, e o rio era sinónimo de liberdade e vida; corria para o oceano, e o oceano queria dizer América (...)  De dia Lisboa tem uma qualidade ingénua e teatral que encanta e cativa, mas à noite é uma cidade de conto de fadas, descendo em terraços iluminados até ao mar, como uma senhora de vestes festivas a ir ao encontro do seu misterioso amante. (...)
    E é justamente no cais, junto de um navio que ia partir para a América, que dois homens, refugiados, se encontram. Um dos homens aborda o outro e diz-lhe que tem dois bilhetes para aquele navio e que lhos oferece. Apenas lhe impõe uma condição: não quer passar a noite sozinho. Em troca dos bilhetes terá de lhe fazer companhia até ao amanhecer. O outro aceita e primeiro vão para o terraço de um restaurante e depois circulam por diversos espaços noturnos, enquanto o primeiro, Schwarz, que usava o nome que constava do passaporte que também lhe tinha sido oferecido por outro refugiado, lhe conta a sua história de amor. E é uma belíssima história de amor, sem cedências a lugares comuns.
    Mas o que mais ressalta na história que é contada é a extraordinária capacidade de resistência e solidariedade humana, materializada na repetida oferta do passaporte que, sendo um ato de generosidade, mantém, de alguma forma, vivas as pessoas que o utilizaram anteriormente: 
    (...) Por estranho que possa parecer, comecei a interessar-me por pintura, arte que até então nunca tivera significado para mim - pareceu-me que foi algo que herdei do há muito falecido Schwarz original. Lembrava-me muitas vezes do outro Schwarz, que talvez ainda estivesse vivo, e os dois fundiram-se no meu espírito, transformados num fantasma indistinto, cuja presença eu por vezes pressentia. (...)
    E a questão da memória e da permanência terminam por ser centrais nesta história: 
    (...) Entre um homem e a imagem que  o espelho lhe reflete, qual dos dois será real? O ser humano ainda vivo, ou a memória que dele fica, a imagem que o luto lhe confere? (...) Será possível que ela (a mulher) nunca antes tenha sido absolutamente minha e que apenas pela alquimia sinistra da morte tenha passado a pertencer-me? (...)
    Um livro extraordinário.