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Acabámos de ler:

Pai, tiveste medo? Catarina Gomes (matéria-prima edições)

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    Uma amiga ofereceu-me este livro, com um autógrafo da autora, Catarina Gomes. Dela já conhecia o trabalho extraordinário de investigação que deu origem ao livro e à série "Furriel não é nome de pai".     Este livro, editado em 2014, tem alguns pontos de contacto com  o livro  Querido Pai  - Uma conversa entre ausentes, Cartas da Guerra, 1961-1975. Em Querido Pai, os filhos já eram nascidos quando os pais foram mobilizados e escreveram e receberam catas dos pais, na sua maioria, militares de carreira e que por isso fizeram várias comissões e estiveram ausentes durante parte significativa da infância e juventude dos filhos. Em Pai, tiveste medo? trata-se de filhos nascidos depois dos pais regressarem. Futuros pais, como os designa a Autora. Nuns e noutros há marcas deixadas pela "guerra dos pais". As perguntas que não foram feitas nem nunca serão, são comuns nos dois casos, bem como a conclusão a que chega a Catarina Gomes, na introdução, "afinal n...

Lisboa, Porta do Mundo Lisboa, Porta de Mim, José Fanha (Âncora editora)

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    Deu-me muito prazer ler esta autobiografia de José Fanha, porque me permitiu recordar alguns momentos que fazem parte da minha (nossa) história recente (hesito em classificá-la como recente, dados os mais de 50 anos que passaram desde então).     Nascido em Lisboa, em 1951, entra aos 10 anos para o Colégio Militar e encontra-se a estudar arquitetura quando se dá o 25 de Abril.      Nas páginas de Lisboa, Porta do Mundo, Lisboa, Porta de Mim, lembramos ruas e locais de Lisboa que ainda permanecem ou que já desapareceram, como se percorrêssemos um mapa que existe na memória, feito de passado e presente. Nestas deambulações, não pude deixar de soltar uma exclamação, saudosista, quando encontrei a referência à loja Porfírios, "a  loja onde se comprava roupa meio hippie, calças à boca de sino, camisas de longos colarinhos e flores por todo o lado" (pg. 105).     Encontramos também nomes de amigos, professores, poetas, músicos e muitas out...

Sem destino, Imre Kertész (Editorial Presença)

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    Nas minhas estantes convivem livros da minha juventude, livros que fui comprando ao longo dos anos ou que me foram oferecidos, livros emprestados – e que prometo devolver – e livros que trouxe de casa dos meus sogros e dos meus pais, quando tivemos que as desmanchar. E juntamente com esses, vieram livros de casa dos meus avós, cuja origem descubro ou relembro quando vejo uma assinatura ou uma dedicatória nas primeiras páginas. Mas é sempre com imensa nostalgia que encontro na primeira página de um livro, no canto superior direito, a lápis, uma letra e um número. Sei logo que esse livro veio de casa dos meus pais e que a sua arrumação obedecia a uma lógica em que identificávamos a estante pela letra, por ordem alfabética, da esquerda para a direita, e depois a prateleira, contando de baixo para cima. «Sem destino» tem escrito E-3 e ao ler estas coordenadas sei imediatamente onde estava arrumado.     Confesso que foi uma surpresa este livro. Depois de o ler de...

O Louco de Deus no Fim do Mundo, Javier Cercas (Porto Editora)

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     Logo no início do livro ficamos a saber de que trata O Louco de Deus no Fim do Mundo:    "Sou ateu. Sou anticlerical. Sou um laicista militante, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou, viajando em direção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na Terra, disposto a interrogá-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo."     Identifiquei-me completamente com a descrição dele próprio: também sou ateia, anticlerical, sobretudo, uma laicista militante, uma racionalista obstinada, uma ímpia inveterada. Mas se tivesse oportunidade seguiria o louco de Deus até ao fim do mundo para lhe fazer uma pergunta idêntica. Afinal, apesar de na aparência ser uma pergunta simples, feita para tranquilizar a mãe, tr...