quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Jardins de Canela, Shyam Selvadurai (Bizâncio)

Shyam Selvadurai "@ Clube de Leituras"
    Há livros que apesar de lidos, queremos guardar. Podemos nunca mais pegar neles, mas gostamos de os saber ao nosso alcance. Que temos a possibilidade de os voltar a ler quando quisermos. 
    Foi o que aconteceu com este livro que consegui adquirir na editora, a preço de feira porque era o último exemplar e já tinha sido manuseado, depois de o ter procurado em vão em livrarias e alfarrabistas. Justamente porque me foi pedido que o procurasse por quem já o tinha lido mas queria guardar. Não vai por isso ficar comigo, mas antes de o entregar tive oportunidade de o ler e me apaixonar por ele também.
   O autor, Shyam Selvadurai, canadiano, nasceu no Ceilão, atual Sri Lanka, filho de uma mãe de origem cingalesa e de um pai de origem tâmul. Bastou ler estas indicações na badana para me consciencializar do pouco que sei da história deste país que se tornou independente em 1948, tendo sido colonizado por vários países europeus, incluindo Portugal e, até à independência, pelo Reino Unido. Depois de se tornar independente, o país é dilacerado durante vários anos por uma violenta guerra civil entre cingaleses e tâmiles (ou tâmules).
    O romance situa-se em 1928, justamente quando representantes do Reino Unido  (Comissão Constitucional Donoughmore) visitam Ceilão com o objetivo de concederem maior autodeterminação na nova constituição, gerando divisões e agravando as dissensões entre as duas etnias. As elites receiam a perda de poder que poderá representar a universalização do direito de voto ou mesmo o seu alargamento. Simultaneamente emergem movimentos de mulheres pelo direito ao voto (União para o Sufrágio Feminino) e sindicatos (União Trabalhista).
    Os protagonistas são Annalukshmi e o seu tio Balendran, ambos reféns de preconceitos, regras e ditames que os impedem de viver a sua vida como desejam. Mas juntamente com eles, vamos descobrir que há muitas coisas que ambos desconhecem. Annalukshmi, a mais velha de três irmãs, destinada a casar-se em primeiro lugar,  não quer desistir de dar aulas e um dia, quem sabe, ser diretora de uma escola, mas sabe que as mulheres professoras não se podem casar.  Por outro lado, ignora que Miss Lawton, a diretora da sua escola e sua amiga, de quem ela tanto gosta, preferirá sempre uma europeia, e que é, em muitas matérias, uma pessoa preconceituosa:
   "(...) É a forma de estar Britânica. Suponho que quando se acha que se tem o direito de governar metade do mundo para seu próprio bem, é difícil admitir que se é capaz de cometer erros, que se lamenta, e que se precisa de perdão."
    Balendran, que obedece cegamente ao seu pai, e que por ele nunca assumiu a sua homossexualidade, irá por causa do seu sobrinho, filho do irmão mais velho, finalmente enfrentá-lo.
    Não querendo antecipar o fim da história e estragar o prazer da leitura, gostei do facto de o fim  das duas histórias (Annalukshmi e Balendran) não serem previsíveis nem parecerem impossíveis.

    Apesar da distância geográfica, temporal e cultural, há partes em que a leitura me recordou Orgulho e Preconceito que é, aliás, expressamente mencionado ("Isto não é o Orgulho e Preconceito, akka (...) O teu Mr. Darcy não vai aparecer por aí montado num cavalo.")
    Ao longo do livro surgem alguns nomes portugueses ou com sonoridade portuguesa, o que é surpreendente dado o tempo passado.    
   
   

domingo, 15 de setembro de 2019

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert. Joël Dicker (Alfaguara)

    Comecei a ler este livro porque vi os primeiros episódios da série, que me estava a prender, mas que, infelizmente, não consegui terminar. Além disso, se a série estava interessante, o livro devia ser espetacular! Isto porque nas adaptações televisivas há sempre pormenores que não cabem e que só temos acesso se lermos a história original.
     Assim que o comecei a ler, ouvi todo o tipo de opiniões: «o livro é espetacular», «o livro é uma desilusão», «o livro está a fazer imenso sucesso», «o livro é muito pobre», «se gostas da série, dizem que o livro está muito bom!», «esse livro?, a meio já tinha percebido tudo... só li o fim para confirmar»... O que ainda dá mais vontade de ler! Quanto mais não seja, para formar uma opinião. E formei-a. Adorei o livro por duas coisas em particular: a história e o foco sobre o processo da escrita.
    Quanto ao primeiro ponto, gostei imenso das mil e uma reviravoltas em que o leitor é apanhado, mas, acima de tudo, gostei da forma, como mais tarde, todos os pontos de unem, não deixando nenhuma ponta solta - e são inúmeras as perguntas que nos vão surgindo ao longo da leitura.
    Quanto ao segundo ponto, o romance inicia-se com um escritor em ascensão que, após o seu primeiro livro, tem uma mui severa crise de «página em branco» ou «bloqueio de escritor», que é o que leva a procurar o seu mentor e amigo em busca de ajuda. A par dos conselhos no «presente», cada capítulo é apresentado com dicas ou ensinamentos sobre como escrever um livro.

    Marcus Goldman, antigo aluno do famoso escritor Harry Quebert, encontra-se numa grave fase de «bloqueio de escritor» e acaba por pedir ajuda ao seu mentor, que o convida a passar uns dias na sua recatada casa em Aurora. Deliciado, Goldman aceita o convite, sem saber que tudo o que conhece sobre Quebert está prestes a ruir. Tudo começa a «[...] 6 de Março de 2008 [...]: descobri que Harry mantivera uma ligação com uma jovem de 15 anos, quando ele próprio tinha trinta e quatro. Acontecera por volta de 1975.»
    Mas a história está longe de ter terminado. A rapariga, Nola Kellergan, desapareceu sem deixar rasto nesse mesmo ano. E, subitamente, o seu corpo é descoberto no quintal de Harry Quebert, que fica doido de desgosto e, imediatamente preso, jura com todas as forças não ter matado o seu único amor.

    Afinal o que aconteceu no verão de 1975? Quem matou Nola Kellergan? Qual a natureza da sua relação com Harry e de que forma o levou a escrever o seu maior sucesso As Origens do Mal?

     Não resisto a partilhar a passagem seguinte, não só por ser um excelente conselho para futuros escritores, como por ter sido exatamente o que eu senti com este livro (e com alguns outros livros que me marcaram de alguma forma):

    «- Um bom livro, Marcus, não se mede apenas pelas últimas palavras, mas pelo efeito colectivo de todas as que as precederam. Cerca de meio segundo depois de terminar o livro, de pois de ler a última palavras, o leitor deve sentir-se dominado por um sentimento poderoso; por um instante, só deve pensar em tudo o que acaba de ler, olhar para a capa e sorrir com uma ponta de tristeza porque vai sentir a falta das personagens. Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter acabado de ler.»

    A minha única crítica é para a forma como a história está organizada, ou seja, apesar de ter gostado imenso de o ler, gostaria de ter descortinado a intriga de outra forma. Senti que havia demasiadas mudanças de voz, demasiados «passados dentro de passados» (e eu até gosto muito do recurso à analepse). Mas não deixo de o recomendar!

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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A transparência do tempo, Leonardo Padura (Porto Editora)

   
    E se a história de um crime e da sua investigação servir apenas para falar sobre muitas outras questões, presentes e passadas,  ainda assim estamos perante um policial?
    Apesar de ser mais um livro protagonizado por Mario Conde, que é contratado por um antigo colega para recuperar uma estátua de uma virgem negra, esta é de facto a parte menos importante da história, quase só o pretexto para viajarmos no tempo e no espaço, sendo o elo de ligação uma estátua da Virgem negra. Viajamos entre Cuba, no presente (2014), a guerra civil de Espanha (1936), a independência catalã, as guerras de Aragão (1472), até às batalhas dos Templários contra os infiéis, em Tripoli  (1291).
    E simultaneamente acompanhamos as reflexões do Mario Conde - alter ego do autor - sobre a idade, o envelhecimento e a decisão de permanecer ou abandonar Cuba. O ambiente permanece o mesmo, a relação com Tamara, os amigos, o cão Basura II, as faltas e a escassez de dinheiro. Ao lado de Mario Conde existe Antoni Barral - que sempre que se vê numa situação capaz de lhe revirar a vida, acaba sempre a olhar os pés - que foge de Espanha no início da guerra civil e que viaja até Cuba e que séculos antes acompanhou o seu cavaleiro doente, mas é ele que encontra a morte, e antes ainda era ele que fugia da perseguição feita aos membros da Ordem do Templo, como se o tempo fosse transparente. E é Antoni Barral que em 2014 organiza os elementos de que dispõe e escreve a história e que batiza as personagens com o mesmo nome:
    "(...) Uma e outra vez, um ser nascido das tuas obsessões, que dotaste de atitudes, de pensamentos precisos, tão próximos da tua vida real e de escritor que as fronteiras entre o que criaste e o que viveste se te foram confundindo (...)".
    É, aliás, a complexidade das personagens, a atualidade dos temas ainda que mesclados com temas históricos,  a partilha de reflexões e de algumas perplexidades que justificam o interesse das obras deste autor, sejam policiais, como Um passado perfeito ou romances como O homem que gostava de cães. Leonardo Padura é o único escritor de policiais que no meio de uma investigação envolve as lutas contra os infiéis na Idade Média e  reflexões absolutamente atuais sobre as guerras religiosas:
    "(...) Que enquanto nós, cristãos, matamos muçulmanos, os muçulmanos matam e matarão cristãos, e que uns e outros depressa nos mataremos diante desta cidade e nesta terra, dizem que santa, e que continuaremos a fazê-lo pelos séculos dos séculos sempre em nome da fé mas, na realidade, por causa das suas riquezas, pelo afã de poder?" ou
    "(...) O que descobrimos sobre a manipulação do medo e a essência da tortura aplicar-se-á pelos séculos dos séculos, nas futuras sociedades que vierem..."
    Gostei muito desta viagem no tempo e no espaço e dos passeios em Cuba, país que ele próprio vai descobrindo surpreendido. E como nas leituras anteriores, não consegui deixar de roubar algumas frases:
    "(...) Pensar que a História nos esqueceu equivale a ignorar que, acima da nossa vontade, fazemos parte de uma realidade ingovernável que nos envolve. E pensar que nos salvaremos dela é um impossível: não interessa que estejamos no que parece ser um meandro perdido da corrente, porque na altura de um dilúvio tudo se inunda, tudo se agita, e os caudais alteram-se."
    E quase a acabar:
    "(...) E de que aquilo que te desfazias pelo facto magnífico de o fixares e de o veres depois ganhar distância, como um navio funerário ao pairo, passava a ser um fantasma cujos contornos se te confundiam como se visses a  História e o tempo através do véu transparente de uma lágrima."
   

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Águas da primavera, Ivan Turguénev (Relógio D' Água)

    Há livros que lemos, apressadamente, só porque não conseguimos parar de ler embora saibamos que devíamos  apreciá-los lentamente. Reler cada página antes de passar à próxima, mas em vez disso apressamo-nos a continuar. Foi assim que li este romance, Águas da primavera, sem parar. Confesso, contudo, que não sei  dizer exatamente o que o torna especial.
    No inicio do romance, o protagonista, Dmítri Pávlovitch Sánin, tem 51 anos e não encontra justificação para nenhuma das épocas da sua vida. Sofre com a perspetiva da velhice, da doença e da morte. Para afastar os pensamentos que o atormentam, mexe nas suas coisas e encontra uma pequena cruz guarnecida de granadas. Recorda então o que se passou alguns anos antes, no Verão de 1840, quando tinha 22 anos e, no regresso à Rússia, vindo de Itália, passa por Frankfurt.
    Termina por ficar em Frankfurt onde conhece Gemma por quem se apaixona, o irmão Emil e a mãe de ambos, uma família italiana ali radicada há já alguns anos. Conhece também Pantaleone, amigo e cozinheiro da família e antigo cantor de ópera.
    Gemma, que estava noiva, desfaz o noivado e aceita casar com Sánin que decide vender os bens que tem na Rússia para voltar e casar com ela. Há uma atração entre ele e aquela família que não passa apenas por Gemma. Mas as coisas não correm como planeado e é por isso que se encontra, anos depois, sozinho e a recordar o que fora a sua vida e o amor que sentira por Gemma.
    Consegue localizá-la e depois de lhe escrever, recebe uma carta dela:
    "(...)  Não ousamos descrever os sentimentos porque Sánin passou enquanto lia a carta. Não existe forma de exprimir tais sentimentos: são mais profundos e fortes, e mais indefinidos, do que toda e qualquer palavra. Talvez só a música os pudesse transmitir."
     Quando acabei de o ler, lembrei-me da frase de John Lenon, “Life is what happens to you while you’re busy making other plans", porque na vida de Sánin e Gemma a vida acontece em sentido inverso ou distinto do que eles vão planeando. Pareceu-me curioso o facto de o romance ser contado na perspetiva de Sánin. É a ele que acompanhamos e de quem vamos sabendo o que sente e sofre, o que não me parece muito comum para a época.
    Deste autor (cujo nome aparece como Turguénev ou Turguéniev) já tinha lido Pais e filhos, um romance mais reflexivo mas cuja leitura é igualmente apelativa.
    
   

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Contos de Petersburgo, Nikolai Gogol (Relógio D' Água)


Nikolai Gogol "@ Clube de Leituras"    Há um prazer especial em ler um livro no lugar em que a história decorre. Foi por isso que tendo lido alguns contos deste livro antes da viagem que fiz recentemente a São Petersburgo, reservei a leitura dos restantes para quando lá estivesse. Não resisti a tirar uma fotografia à placa toponímica que assinala o início da Rua Nevski, conhecida como Perspetiva Nevski e que dá o título ao primeiro conto. Explica Carlos Leite, tradutor desta edição, que se conservou  o termo Perspetiva porque a Avenida Nevski de Petersburgo é tradicionalmente conhecida nas literaturas ocidentais pelo seu nome em russo, Perspetiva Nevski.
        
    "(...) Ainda hoje entra-se na Avenida Nevski e é-se como que convidado a participar num longo e infindável cortejo."  Naturalmente não são os mujiques nem os preceptores de todas as nacionalidades que agora a atravessam, mas  a sensação da sua beleza e do cortejo infindável de quem lá passa ainda perdura.
    O livro reúne seis contos extraordinários, todos escritos entre 1834 e 1842 (no índice, à frente do título deste conto aparece 1941; ou se trata de um lapso ou é referência a uma edição posterior). Já tinha lido O Capote de que todos nós descendemos, segundo Dostoiévski, e o Diário de um louco. São ambos completamente absurdos. Surpreendentemente absurdos, mas são, simultaneamente, espelhos ou denúncias da realidade então existente. No conto O Capote, quando Akakii percebe que já não pode remendar o capote que tem, decide reduzir as despesas diárias pelo menos durante um ano inteiro: prescindir do chá à noite, não acender as velas(...) ao andar, na rua, pisar as pedras e as lajes o mais cautelosa e levemente possível, quase em bicos de pés para não gastar tão depressa as solas. 
    Mas o capote novo transfigura Akalii Akakievitch quando o usa:
    "(...) como se se tivesse casado, como se tivesse outra pessoa ao seu lado, como se tivesse deixado de estar sozinho e tivesse uma afetuosa companheira que aceitara caminhar de mão dada com ele pelos caminhos da vida - e essa amante - esposa, essa alma gémea mais não era do que aquele capote com chumaços de algodão e um forro robusto para durar toda uma vida."
    Neste conto, como nos restantes, o fim não chega quando lhe roubam o capote e Akakii morre. O narrador antecipa a continuação:
    "(...) Mas quem imaginaria que a história de Akakii Akakievitch não acabava aqui, que depois de morto ele viveria ainda alguns dias de som e de fúria, como uma espécie de compensação pela falta de brilho de toda a sua vida? Pois bem, foi o que aconteceu, e a nossa história ganha um final fantástico e inesperado".
    O Diário de um louco também é um relato extraordinário do mergulho na loucura e ao mesmo tempo a denúncia dos tratamentos então feitos aos diagnosticados como loucos: "(...) Vertem-me água fria pela cabeça abaixo. (...) Dói muito quando o maldito pau nos atinge."
    Mas penso que o absurdo é mais extraordinário no conto O Nariz: "(...) O assessor de colégio Kovaliov saltou da cama, sacudiu-se: não tinha nariz!..."
    Também neste conto, o narrador se dirige ao leitor censurando o conto pela temática e pelo absurdo da história:
    "(...) Mas o mais estranho, o mais incompreensível é haver autores que escolham semelhantes temas. Tenho de reconhecer que acho tudo perfeitamente inconcebível, é realmente... não, sou incapaz de compreender! Em primeiro lugar, nada disto tem alguma utilidade para a pátria; em segundo... em segundo lugar, também não tem qualquer utilidade.É qe nem chego a entender o que isto seja...."
    Um livro deliciosamente absurdo.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Como um romance, Daniel Pennac (Asa)

  
Daniel Pennac "@ Clube de Leituras"
  Comprei este livro no sebo (expressão utilizada pelos brasileiros para se referir a livros comprados em segunda mão, já lidos, como me ensinou a Teresa Cristina) e, apesar de não ter nenhuma mensagem inicial, nem dedicatória, tem o carimbo de uma biblioteca (o que terá acontecido para se desfazer deste livro?) e as páginas ligeiramente amarelecidas pelo tempo e pela leitura. 
    Não resisti a comprá-lo, porque são deste autor os 10 direitos inalienáveis do leitor que não hesitámos em colocar no nosso blogue, porque os subscrevemos na totalidade, e por isso relembro-os aqui:
    O direito de não ler.
    O direito de saltar páginas.
    O direito de não acabar um livro.
    O direito de reler.
    O direito de ler não importa o quê.
    O direito de amar os “heróis” dos romances.
    O direito de ler não importa onde.
    O direito de saltar de livro em livro.
    O direito de ler em voz alta.
    O direito de não falar do que se leu.

   O livro trata exclusivamente deste tema, da importância da leitura e como se ensinam os outros, os filhos, os alunos, a ler e, sobretudo, a gostar de ler. O autor começa por nos lembrar que o verbo ler não suporta o imperativo, como o verbo amar ou sonhar. Pode-se tentar mas não funciona. E elenca todos os culpados do facto de os jovens lerem cada vez menos (será que é verdade?): a televisão, os jogos eletrónicos, a escola, o programa, a falta de bibliotecas...
    Mas avança mais e relembra como as crianças adoram quando lhe lemos uma história e procura o momento em que este prazer se perde e considera que provavelmente será na altura em que deixamos de ler a história porque a criança já tem idade para o fazer, e, mais tarde, na escola, quando o professor não lê os livros e se limita a recomendar a sua leitura. Recorda depois professores que liam livros aos seus alunos.
    Todos nós temos recordações pessoais, familiares ou de professores que contribuíram para o prazer da leitura. Não sei se passa pela leitura em voz alta. Acho que no meu caso passou sobretudo pela partilha. Lembro-me dos meus avós, dos meus pais e também de alguns professores que recomendavam livros ou autores que descobri com imenso prazer. Também me recordo de autores que ficaram proscritos até à atualidade por me terem obrigado (o programa de leituras) a lê-los antes de tempo. Ainda há pouco, umas amigas falaram-me da descoberta que fizeram do Aquilino Ribeiro  - e, em particular, do romance Casa grande - muitos anos depois de termos lido, contrariadas, Cinco réis de gente.
    Sublinhei uma frase do livro que me deixou a pensar:    
    "De facto, se psicologicamente nos sentimos mais próximos dos nossos filhos do que os nossos pais estavam de nós, inteletualmente falando nós estávamos mais próximos dos nossos pais."
    Será que é assim?

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O Invisível, Rui Lage (Gradiva)

  
Rui Lage "@ Clube de Leituras"
    Se o Fernando Pessoa tivesse fundado uma agência dedicada a investigações ocultistas e paranormais, decerto designar-se-ia Agência Bandarra e Pessoa teria como sócio o seu amigo Augusto Ferreira Gomes.
    No romance O Invisível, é isso que acontece. Para além da agência, Fernando Pessoa,  é amante de Hanni Jaeger, que chegou a Portugal com Aleister  Crowley, o mesmo que com a ajuda do poeta e de Augusto Ferreira Gomes simula o suicídio na Boca do Inferno - no local existe uma placa :
                        Resultado de imagem para boca do inferno placa crowley

    Estamos em 1931, anos depois da revista Orfeu e de outras revistas que funda ou nas quais participa. Fernando Pessoa é um pobretanas, sem um tostão furado, e por isso decide aceitar prestar os seus serviços ao povo de uma aldeia serrana atormentado por ocorrências nocturnas inexplicáveis, juntamente com o seu sócio. Só na viagem demoram perto de doze horas, o que  representava um avanço inegável pois, como refere Pessoa, no início do século, essa era a duração da viagem Lisboa - Porto. Quem os contacta e contrata é o Padre daquela aldeia, por conselho do abade de Baçal, apesar daquele afirmar reprovar qualquer prática mágica.
    A descrição de um povo pobre, abandonado no meio de uma serra inóspita e sem dormir há dias por causa de assombrações que aparecem à noite, gritam às portas das casas e desenterram os mortos, é impressionante. Mas de repente, passamos para um mundo repleto de magia e fantasia, em que o herói é o nosso enfezado poeta, que consegue descobrir o problema e fechar uma fissura intramundos que tinha sido recentemente aberta.
    Foi isso que senti quando acabei de o ler, que o autor, Rui Lage, tinha aberto uma porta entre  dois mundos, pegando na personagem Fernando Pessoa, com toda a sua história, desde a infância na África do Sul, até à época em que a narrativa decorre, e noutras personagens reais, e daí partiu para um mundo irreal, com fantasmas, seres de outro mundo, assombrações. Passei o livro à espera de uma explicação razoável para o que acontecia até me aperceber que tal não iria acontecer.  E é esse o fascínio deste livro, descrito como um romance com notável fulgor imaginativo, pelo Júri do Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís.

    Mas não se pense que a imaginação reside apenas na história, porque ela está em cada imagem, cada descrição que é feita:

      «Porque na floresta a razão era tão útil como um isqueiro numa casa a arder. [...]
    Em face de uma floresta desconhecida, um homem só pode desistir ou penetrar. E depois de penetrar é como um animal desequipado de sentidos, a escavar à toa debaixo da terra, sem saber se escava para diante ou às arrecuas. (...) Até que os nossos olhos se aprofundam e é a floresta que vislumbra o que vai dentro de nós.» (pg.14)

    Um livro a não perder.