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Acabámos de ler:

Léxico Familiar, Natalia Ginzburg (Relógio d'Água)

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       Ainda me divido quanto a este livro. Não deixei de o ler, mas por vezes perdia-me entre os nomes dos irmãos e dos amigos deles, na escrita de um fôlego só, em 191 páginas sem capítulos. Mas há momentos belíssimos em termos de escrita e com os quais me identifiquei:     "Recebi uma carta da minha mãe. Estava também ela, assustada e não sabia como ajudar-me. Pensei então, pela primeira vez na minha vida, que não havia para mim outra proteção possível, que teria de arranjar-me sozinha. Compreendi que houvera sempre em mim, no meu afeto pela minha mãe, a impressão de que ela, nas adversidades, me protegeria e defenderia. Mas agora, em mim, restava somente o afeto, e desaparecera desse afeto todo o pedido e toda a expetativa de proteção, e eu pensava que talvez devesse ser eu no futuro a protegê-la e a defendê-la, porque, doravante, ela, a minha mãe, estava muito velha, abatida e indefesa." (pg. 146)     Num texto que designou de Advertência, a ...

Pai, tiveste medo? Catarina Gomes (matéria-prima edições)

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    Uma amiga ofereceu-me este livro, com um autógrafo da autora, Catarina Gomes. Dela já conhecia o trabalho extraordinário de investigação que deu origem ao livro e à série "Furriel não é nome de pai".     Este livro, editado em 2014, tem alguns pontos de contacto com  o livro  Querido Pai  - Uma conversa entre ausentes, Cartas da Guerra, 1961-1975. Em Querido Pai, os filhos já eram nascidos quando os pais foram mobilizados e escreveram e receberam catas dos pais, na sua maioria, militares de carreira e que por isso fizeram várias comissões e estiveram ausentes durante parte significativa da infância e juventude dos filhos. Em Pai, tiveste medo? trata-se de filhos nascidos depois dos pais regressarem. Futuros pais, como os designa a Autora. Nuns e noutros há marcas deixadas pela "guerra dos pais". As perguntas que não foram feitas nem nunca serão, são comuns nos dois casos, bem como a conclusão a que chega a Catarina Gomes, na introdução, "afinal n...

Lisboa, Porta do Mundo Lisboa, Porta de Mim, José Fanha (Âncora editora)

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    Deu-me muito prazer ler esta autobiografia de José Fanha, porque me permitiu recordar alguns momentos que fazem parte da minha (nossa) história recente (hesito em classificá-la como recente, dados os mais de 50 anos que passaram desde então).     Nascido em Lisboa, em 1951, entra aos 10 anos para o Colégio Militar e encontra-se a estudar arquitetura quando se dá o 25 de Abril.      Nas páginas de Lisboa, Porta do Mundo, Lisboa, Porta de Mim, lembramos ruas e locais de Lisboa que ainda permanecem ou que já desapareceram, como se percorrêssemos um mapa que existe na memória, feito de passado e presente. Nestas deambulações, não pude deixar de soltar uma exclamação, saudosista, quando encontrei a referência à loja Porfírios, "a  loja onde se comprava roupa meio hippie, calças à boca de sino, camisas de longos colarinhos e flores por todo o lado" (pg. 105).     Encontramos também nomes de amigos, professores, poetas, músicos e muitas out...

Sem destino, Imre Kertész (Editorial Presença)

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    Nas minhas estantes convivem livros da minha juventude, livros que fui comprando ao longo dos anos ou que me foram oferecidos, livros emprestados – e que prometo devolver – e livros que trouxe de casa dos meus sogros e dos meus pais, quando tivemos que as desmanchar. E juntamente com esses, vieram livros de casa dos meus avós, cuja origem descubro ou relembro quando vejo uma assinatura ou uma dedicatória nas primeiras páginas. Mas é sempre com imensa nostalgia que encontro na primeira página de um livro, no canto superior direito, a lápis, uma letra e um número. Sei logo que esse livro veio de casa dos meus pais e que a sua arrumação obedecia a uma lógica em que identificávamos a estante pela letra, por ordem alfabética, da esquerda para a direita, e depois a prateleira, contando de baixo para cima. «Sem destino» tem escrito E-3 e ao ler estas coordenadas sei imediatamente onde estava arrumado.     Confesso que foi uma surpresa este livro. Depois de o ler de...