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Acabámos de ler:

Vista Chinesa, Tatiana Salem Levy (Elsinore)

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      Depois de ler “Melhor não contar” não resisti a ler de seguida este livro da mesma autora. Admito que a leitura da “Vista Chinesa” tenha sido contagiada pela leitura daquele outro livro. Não é estragar o prazer de quem o vai ler, dizer que “Vista Chinesa” conta a história da violação de uma mulher jovem, e a forma como sobrevive ao horror que viveu, porque isto está escrito na parte de trás do livro.      Mas, influenciada por “melhor não contar” em que a narradora (que não conseguimos deixar de identificar com a Autora) conta que a mãe foi violada num táxi, quando era jovem, comecei por pensar que a Júlia era a mãe e que este livro era sobre o horror que a mãe tinha vivido. Horror que se tinha transmitido à filha, porque a mãe lho tinha contado, mas também pelo que a narradora considera os misteriosos processo que garantem a transmissão de acontecimentos sofridos pelos pais (“será que por terem morado nove meses na minha barriga vocês sabem que um ...

melhor não contar, Tatiana Salem Levy (Elsinore)

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     Já acabei de ler este livro há algum tempo. Mexeu comigo. É sentidamente um livro autobiográfico. Não vivenciei algumas das situações vividas pela autora, mas identifiquei-me em muitas passagens do livro/da vida dela.   Em “melhor não contar”, a autora expõe-se, contando o que nós, mulheres, habitualmente guardamos ou escrevemos ou sussurramos apenas. O conselho que lhe é repetidamente dado, é que é melhor não contar. E ela reflete sobre o silêncio das mulheres, imposto ou mesmo autoimposto. Da recusa da exposição.     No livro fala da doença e da morte da mãe, do luto, do assédio do padrasto, do aborto que sofreu. Fala disso tudo enquanto lê as cartas que a mãe lhe escreveu, as páginas do diário da mãe do tempo da sua adolescência e enquanto se interroga sobre os efeitos da escrita:     “(…) Acho mesmo que a escrita não redime, não sublima, não compensa nada. A perda dá início à escrita, mas não há o movimento contrário. Digo: es...

As flores do riso, Osamu Dazai (Presença)

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    Leio "As flores do riso" depois de "Se um dia voltar" que, em mais de 400 páginas, relata a vida de uma mulher que foge de Espanha para a Argélia, então ainda uma colónia francesa. Ao contrário de "Se um dia voltar", "As flores do riso" decorre em apenas 4 dias, num sanatório, onde Yozo Oba, um homem jovem, recupera de uma tentativa de suicídio. Dois amigos, a enfermeira e o irmão acompanham-no no processo de recuperação e, ao contrário do que se poderia esperar, em vez de reflexões sobre a vida e a morte, e a tristeza pela mulher com quem se tentou matar e que de facto morreu, encontramos um ambiente descontraído e até alegre. E esse ambiente vai estender-se até aos outros quartos e doentes.     Mas o mais curioso é o diálogo permanente do autor com o leitor, numa tentativa sistemática de se justificar, desde a escolha do nome do protagonista, até aos diálogos entre as personagens, apresentando-se também como um elemento da história:     ...

Se um dia voltarmos, María Dueñas (Porto Editora)

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     "- Leva tudo na memória, Cecília, não nos esqueçamos de nada - murmurou Rafael, quando a costa de Óran já se tinha transformado numa linha desfocada. - Para se um dia voltarmos." É a este conselho, dado no final do livro, que a autora foi buscar o título. Cecília e Rafael regressam a Espanha na véspera do referendo que confirmará o desejo de independência dos argelinos.     A receita do livro é muito similar à de outros livros de María Dueñas que li,  As filhas do Capitão e O tempo entre costuras . Mulheres muito jovens - neste caso, ainda uma criança - são forçadas a emigrar e, para além das dificuldades que enfrentam a viver num país diferente, de que nem sequer conhecem a língua, têm de encontrar formas de sobreviver, sozinhas, numa época marcada por uma sucessão de guerras e conflitos armados.     Em Se um dia voltarmos, Cecília - que não é o seu nome verdadeiro - , foge da aldeia onde vivia com os pais porque mata um homem que a viola. ...