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Acabámos de ler:

O Diabo foi meu Padeiro, Mário Lúcio Sousa (D. Quixote)

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     Uma amiga emprestou-me este livro, que lhe foi oferecido com uma bonita dedicatória do Autor, que acaba com a frase «com o afeto dos mundos que somos.» Poucos dias depois, na Feira do Livro, encontrei o Mário Lúcio Sousa, sentado entre outros escritores, de língua portuguesa, ao dispor de quem lhes quisesse pedir um autógrafo ou uma dedicatória. Apesar de ter sentido que era absurdo sujeitá-los a esta situação, expectantes de leitores que por ali passassem e os reconhecessem, não resisti a comprar o último livro dele, Afrocalipse, e pedir que o dedicasse à minha amiga. Não me recordo do que escreveu, mas sei que foi algo igualmente bonito. Será que escreve o mesmo em todos os livros ou que guarda um conjunto de frases poéticas para as distribuir pelos livros que lhe pedem para assinar ou será que estas lhe surgem à medida que escreve dedicatórias?     Li O Diabo foi meu Padeiro enquanto decorrem escavações arqueológicas para localizar a Frigideira, a cela d...

Filho da PIDE, Paulo Jorge Pereira (Ed. Oro)

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     S em saber explicar porquê, tenho um gosto especial, e que penso que é comum, em ler um livro autografado pelo Autor. Tenho uma amiga que procura nos alfarrabistas livros com dedicatórias e se deleita a lê-las. Mas melhor do que um livro autografado pelo Autor, é um livro oferecido pelo próprio, como é o caso deste.   Nos tempos que correm, parece-me escusado referir a importância de falarmos sobre o passado, de o desentranharmos e trazermos à superfície. Um romance é uma forma de o fazer, porque não tem as limitações impostas por uma investigação histórica, que exige uma metodologia rigorosa e o respeito das fontes disponíveis, como escreve Luís Farinha no Preâmbulo . E porque pode chegar a mais gente.      Mas não é fácil escrever um romance sobre este tema, até porque o Paulo, justamente para poder lembrar que, tal como refere Chico Buarque, a « ameaça fascista persiste [em Portugal] como um pouco por toda a parte », coloca a ação em pleno séc...

Léxico Familiar, Natalia Ginzburg (Relógio d'Água)

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       Ainda me divido quanto a este livro. Não deixei de o ler, mas por vezes perdia-me entre os nomes dos irmãos e dos amigos deles, na escrita de um fôlego só, em 191 páginas sem capítulos. Mas há momentos belíssimos em termos de escrita e com os quais me identifiquei:     « Recebi uma carta da minha mãe. Estava também ela, assustada e não sabia como ajudar-me. Pensei então, pela primeira vez na minha vida, que não havia para mim outra proteção possível, que teria de arranjar-me sozinha. Compreendi que houvera sempre em mim, no meu afeto pela minha mãe, a impressão de que ela, nas adversidades, me protegeria e defenderia. Mas agora, em mim, restava somente o afeto, e desaparecera desse afeto todo o pedido e toda a expetativa de proteção, e eu pensava que talvez devesse ser eu no futuro a protegê-la e a defendê-la, porque, doravante, ela, a minha mãe, estava muito velha, abatida e indefesa. » (pg. 146)     Num texto que designou de Advertência, ...

Pai, tiveste medo? Catarina Gomes (matéria-prima edições)

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   Uma amiga ofereceu-me este livro, com um autógrafo da Autora, Catarina Gomes. Dela, já conhecia o trabalho extraordinário de investigação que deu origem ao livro e à série Furriel não é nome de pai .     Este livro, editado em 2014, tem alguns pontos de contacto com o livro Querido Pai - Uma conversa entre ausentes, Cartas da Guerra, 1961-1975 . Em Querido Pai , os filhos já eram nascidos quando os pais foram mobilizados e escreveram e receberam cartas dos pais, na sua maioria, militares de carreira e que, por isso, fizeram várias comissões e estiveram ausentes durante parte significativa da infância e juventude dos filhos. Em Pai, tiveste medo? trata-se de filhos nascidos depois de os pais regressarem. Futuros pais, como os designa a Autora. Nuns e noutros há marcas deixadas pela « guerra dos pais ». As perguntas que não foram feitas, nem nunca serão, são comuns nos dois casos, bem como a conclusão a que chega a Catarina Gomes, na introdução, « afinal não era p...