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Acabámos de ler:

O fim do mundo não terá acontecido, Patrik Ouredník (Antígona)

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      Não sei muito bem como definir este livro. É surpreendente e, ao mesmo tempo, divertido. E faz-nos pensar.     Gaspard, o protagonista, nasceu dez anos depois do fim da II Guerra Mundial, no dia do décimo aniversário dos bombardeamentos de Dresden. Depois de concluir os estudos universitários, passa cerca de três anos nos Estados Unidos, onde conhece a sobrinha do futuro presidente, que descreve como o presidente americano mais estúpido da história do país. Regressa a França e trabalha como tradutor até ser convidado para conselheiro do presidente americano.     O narrador, que quer escrever um livro sobre o fim do mundo, conheceu o Gaspard o suficiente para "recompor algumas sequências da vida gaspardiana". Gaspard teme ser descendente de Hitler, porque o seu pai estava convencido de ser o resultado de uma noite de amor  entre a sua mãe e um cabo alemão chamado Adolf Hitler. E por isso pesquisa e chega a fazer testes ADN para ver se tinha a...

O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy (Edições ASA II)

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    Tudo neste livro é belo, desde a capa, à escrita, à história triste que nos traz. Antes de qualquer outra coisa, fui cativada pela escrita, tão diferente mas tão bonita, tão viva e rica nos seus detalhes, descrições e comparações. Depois, abandonei-me às personagens, cuja história fui tentando reconstruir à medida que o novelo de memórias era desfiado, misturando presente com passado, com histórias paralelas.     Não concordo com a sinopse da contracapa. Não entendo este romance como « a história de três gerações de uma família da região de Kerala, no Sul da Índia, que se dispersa por todo o mundo e se reencontra na sua terra natal. » Para mim, é a história dos « gémeos biovulares », Rahel e Estha, que voltam com a mãe, Ammu, para a sua terra natal, sim, após o divórcio desta, situação que os torna indesejados na casa da família. E é, acima de tudo, a história de como num quente verão em que a sua prima, Sophie Mol, vinda de Inglaterra, morre, e dos acontecimento...

O Diabo foi meu Padeiro, Mário Lúcio Sousa (D. Quixote)

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     Uma amiga emprestou-me este livro, que lhe foi oferecido com uma bonita dedicatória do Autor, que acaba com a frase «com o afeto dos mundos que somos.» Poucos dias depois, na Feira do Livro, encontrei o Mário Lúcio Sousa, sentado entre outros escritores, de língua portuguesa, ao dispor de quem lhes quisesse pedir um autógrafo ou uma dedicatória. Apesar de ter sentido que era absurdo sujeitá-los a esta situação, expectantes de leitores que por ali passassem e os reconhecessem, não resisti a comprar o último livro dele, Afrocalipse, e pedir que o dedicasse à minha amiga. Não me recordo do que escreveu, mas sei que foi algo igualmente bonito. Será que escreve o mesmo em todos os livros ou que guarda um conjunto de frases poéticas para as distribuir pelos livros que lhe pedem para assinar ou será que estas lhe surgem à medida que escreve dedicatórias?     Li O Diabo foi meu Padeiro enquanto decorrem escavações arqueológicas para localizar a Frigideira, a cela d...

Filho da PIDE, Paulo Jorge Pereira (Ed. Oro)

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     S em saber explicar porquê, tenho um gosto especial, e que penso que é comum, em ler um livro autografado pelo Autor. Tenho uma amiga que procura nos alfarrabistas livros com dedicatórias e se deleita a lê-las. Mas melhor do que um livro autografado pelo Autor, é um livro oferecido pelo próprio, como é o caso deste.   Nos tempos que correm, parece-me escusado referir a importância de falarmos sobre o passado, de o desentranharmos e trazermos à superfície. Um romance é uma forma de o fazer, porque não tem as limitações impostas por uma investigação histórica, que exige uma metodologia rigorosa e o respeito das fontes disponíveis, como escreve Luís Farinha no Preâmbulo . E porque pode chegar a mais gente.      Mas não é fácil escrever um romance sobre este tema, até porque o Paulo, justamente para poder lembrar que, tal como refere Chico Buarque, a « ameaça fascista persiste [em Portugal] como um pouco por toda a parte », coloca a ação em pleno séc...