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Acabámos de ler:

Se um dia voltarmos, María Dueñas (Porto Editora)

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     "- Leva tudo na memória, Cecília, não nos esqueçamos de nada - murmurou Rafael, quando a costa de Óran já se tinha transformado numa linha desfocada. - Para se um dia voltarmos." É a este conselho dado no final do livro que a autora foi buscar o título. Cecília e Rafael regressam a Espanha na véspera do referendo que confirmará o desejo de independência dos argelinos.     A receita do livro é muito similar à de outros livros de María Dueñas que li, como As filhas do Capitão e O tempo entre costuras . Mulheres muito jovens - neste caso, ainda uma criança - são forçadas a emigrar e, para além das dificuldades que enfrentam a viver num país diferente, de que nem sequer conhecem a língua, têm de encontrar formas de sobreviver, sozinhas, numa época marcada por uma sucessão de guerras     Em Se um dia voltarmos, Cecília - que não é o seu nome verdadeiro - , foge da aldeia onde vivia com os pais porque mata um homem que a viola. Sem saber o destino, emb...

O perfume das flores à noite, Leila Slimani (Alfaguara)

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    Há qualquer coisa nesta capa que me atraiu imediatamente. Uma imagem difusa, escura, na qual se destacam as pernas em andamento de uma mulher, escondidas a partir dos joelhos por um tecido branco. Uma mulher caminha descalça na noite. Percebemos depois que representa a noite que a autora passou no Museu Punta della Dogana, em Veneza.    O convite foi feito pela editora, Alina Gundiel, no âmbito de um projeto que deu origem à coleção “A minha noite no museu”. Há já vários volumes publicados nesta coleção, envolvendo sobretudo escritores e museus de França, mas também de outros países, como Líbano, Itália, Espanha ou Grécia. Nenhum autor ou museu português, o que lamento. Imaginei logo uma noite no Museu do Chiado ou no Museu Nacional de Arte Antiga.     A ideia é que o escritor explore o sentimento de solidão provocado pela noite de isolamento e escreva um livro nela inspirado. Leila Slimani quer recusar o convite ou qualquer outro convite que lhe seja f...

Hotel Timor, Luís Cardoso (The Poets and Dragons society)

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      Gostei muito de regressar a Timor através do último livro de Luís Cardoso, Hotel Timor. Confesso que este é o livro dele de que mais gostei, embora admita que seja porque os outros já estejam menos presentes na minha memória: Para onde vão os gatos quando morrem?   O ano em que Pigafetta completou a circum-navegação e O Plantador de Abóboras (Sonata para uma neblina) .     Hotel Timor tem uma escrita circular, repetitiva, com uma toada melancólica e poética. O narrador, aquele que sonhou as histórias que o escritor que vai a Timor para ser condecorado pelo Presidente da República escreveu, chega também ao seu país “com atraso de uma hora ao hotel e de vinte e um anos ao novo país.” Nesta viagem leva o propósito de se livrar dos fantasmas que lhe povoam os sonhos depois de fugir de Timor, deixando o pai preso e o irmão Bonifácio enterrado numa vala comum.     Quer procurar os restos mortais do seu irmão para o resgatar do esquecimento e ...

Corpo de Cristo, Bea Lema (Iguana)

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        Ouvi falar deste livro e fiquei curiosa, não tanto pela temática, mas pelo facto da autora, Bea Lema, utilizar bordado juntamente com desenho.     Bea Lema nasceu na Corunha em 1985. É autora de banda desenhada e os temas em que trabalha são de carácter autobiográfico. Neste, Corpo de Cristo, fala-nos da doença mental da mãe e como os outros elementos da família - o pai, Bea e o irmão - lidaram com a situação. Aborda também o impacto da Igreja na doença da mãe, bem como a sua infância, marcada pela morte de um irmão, ainda bebé, e pelo alcoolismo do pai que depois de beber se transformava num demónio.     À descrição do quotidiano familiar, marcado pela depressão da mãe, junta imagens de declarações médicas e prescrição de medicamentos. Perante a ausência reiterada do pai e a aparente indiferença do irmão, é a filha, ainda menor, que se ocupa da mãe. A relação inverte-se. Particularmente impressionante é quando já adulta aceita passar uns ...