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Acabámos de ler:

As flores do riso, Osamu Dazai (Presença)

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    Leio "As flores do riso" depois de "Se um dia voltar" que, em mais de 400 páginas, relata a vida de uma mulher que foge de Espanha para a Argélia, então ainda uma colónia francesa. Ao contrário de "Se um dia voltar", "As flores do riso" decorre em apenas 4 dias, num sanatório, onde Yozo Oba, um homem jovem, recupera de uma tentativa de suicídio. Dois amigos, a enfermeira e o irmão acompanham-no no processo de recuperação e, ao contrário do que se poderia esperar, em vez de reflexões sobre a vida e a morte, e a tristeza pela mulher com quem se tentou matar e que de facto morreu, encontramos um ambiente descontraído e até alegre. E esse ambiente vai estender-se até aos outros quartos e doentes.     Mas o mais curioso é o diálogo permanente do autor com o leitor, numa tentativa sistemática de se justificar, desde a escolha do nome do protagonista, até aos diálogos entre as personagens, apresentando-se também como um elemento da história:     ...

Se um dia voltarmos, María Dueñas (Porto Editora)

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     "- Leva tudo na memória, Cecília, não nos esqueçamos de nada - murmurou Rafael, quando a costa de Óran já se tinha transformado numa linha desfocada. - Para se um dia voltarmos." É a este conselho, dado no final do livro, que a autora foi buscar o título. Cecília e Rafael regressam a Espanha na véspera do referendo que confirmará o desejo de independência dos argelinos.     A receita do livro é muito similar à de outros livros de María Dueñas que li,  As filhas do Capitão e O tempo entre costuras . Mulheres muito jovens - neste caso, ainda uma criança - são forçadas a emigrar e, para além das dificuldades que enfrentam a viver num país diferente, de que nem sequer conhecem a língua, têm de encontrar formas de sobreviver, sozinhas, numa época marcada por uma sucessão de guerras e conflitos armados.     Em Se um dia voltarmos, Cecília - que não é o seu nome verdadeiro - , foge da aldeia onde vivia com os pais porque mata um homem que a viola. ...

O perfume das flores à noite, Leila Slimani (Alfaguara)

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    Há qualquer coisa nesta capa que me atraiu imediatamente. Uma imagem difusa, escura, na qual se destacam as pernas em andamento de uma mulher, escondidas a partir dos joelhos por um tecido branco. Uma mulher caminha descalça na noite. Percebemos depois que representa a noite que a autora passou no Museu Punta della Dogana, em Veneza.    O convite foi feito pela editora, Alina Gundiel, no âmbito de um projeto que deu origem à coleção “A minha noite no museu”. Há já vários volumes publicados nesta coleção, envolvendo sobretudo escritores e museus de França, mas também de outros países, como Líbano, Itália, Espanha ou Grécia. Nenhum autor ou museu português, o que lamento. Imaginei logo uma noite no Museu do Chiado ou no Museu Nacional de Arte Antiga.     A ideia é que o escritor explore o sentimento de solidão provocado pela noite de isolamento e escreva um livro nela inspirado. Leila Slimani quer recusar o convite ou qualquer outro convite que lhe seja f...

Hotel Timor, Luís Cardoso (The Poets and Dragons society)

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      Gostei muito de regressar a Timor através do último livro de Luís Cardoso, Hotel Timor. Confesso que este é o livro dele de que mais gostei, embora admita que seja porque os outros já estejam menos presentes na minha memória: Para onde vão os gatos quando morrem?   O ano em que Pigafetta completou a circum-navegação e O Plantador de Abóboras (Sonata para uma neblina) .     Hotel Timor tem uma escrita circular, repetitiva, com uma toada melancólica e poética. O narrador, aquele que sonhou as histórias que o escritor que vai a Timor para ser condecorado pelo Presidente da República escreveu, chega também ao seu país “com atraso de uma hora ao hotel e de vinte e um anos ao novo país.” Nesta viagem leva o propósito de se livrar dos fantasmas que lhe povoam os sonhos depois de fugir de Timor, deixando o pai preso e o irmão Bonifácio enterrado numa vala comum.     Quer procurar os restos mortais do seu irmão para o resgatar do esquecimento e ...