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Acabámos de ler:

Filho da PIDE, Paulo Jorge Pereira (Ed. Oro)

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      Sem saber explicar porquê, tenho um gosto especial, e que penso que é comum, em ler um livro autografado pelo Autor. Tenho uma amiga que procura nos alfarrabistas livros com dedicatórias e se deleita a lê-las. Mas melhor que um livro autografado pelo Autor é um livro oferecido pelo próprio, como é o caso deste.          Nos tempos que correm, parece-me escusado referir a importância de falarmos sobre o passado, de o desentranharmos e trazermos à superfície. Um romance é uma forma de o fazer, porque não tem as limitações impostas por uma investigação histórica, que exige uma metodologia rigorosa e o respeito das fontes disponíveis, como escreve Luís Farinha no Preâmbulo. E porque pode chegar a mais gente.      Mas não é fácil escrever um romance sobre este tema, até porque o Paulo, justamente para poder lembrar que, tal como refere Chico Buarque, a "ameaça fascista persiste [em Portugal] como um pouco por toda a parte" col...

Léxico Familiar, Natalia Ginzburg (Relógio d'Água)

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       Ainda me divido quanto a este livro. Não deixei de o ler, mas por vezes perdia-me entre os nomes dos irmãos e dos amigos deles, na escrita de um fôlego só, em 191 páginas sem capítulos. Mas há momentos belíssimos em termos de escrita e com os quais me identifiquei:     "Recebi uma carta da minha mãe. Estava também ela, assustada e não sabia como ajudar-me. Pensei então, pela primeira vez na minha vida, que não havia para mim outra proteção possível, que teria de arranjar-me sozinha. Compreendi que houvera sempre em mim, no meu afeto pela minha mãe, a impressão de que ela, nas adversidades, me protegeria e defenderia. Mas agora, em mim, restava somente o afeto, e desaparecera desse afeto todo o pedido e toda a expetativa de proteção, e eu pensava que talvez devesse ser eu no futuro a protegê-la e a defendê-la, porque, doravante, ela, a minha mãe, estava muito velha, abatida e indefesa." (pg. 146)     Num texto que designou de Advertência, a ...

Pai, tiveste medo? Catarina Gomes (matéria-prima edições)

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    Uma amiga ofereceu-me este livro, com um autógrafo da autora, Catarina Gomes. Dela já conhecia o trabalho extraordinário de investigação que deu origem ao livro e à série "Furriel não é nome de pai".     Este livro, editado em 2014, tem alguns pontos de contacto com  o livro  Querido Pai  - Uma conversa entre ausentes, Cartas da Guerra, 1961-1975. Em Querido Pai, os filhos já eram nascidos quando os pais foram mobilizados e escreveram e receberam catas dos pais, na sua maioria, militares de carreira e que por isso fizeram várias comissões e estiveram ausentes durante parte significativa da infância e juventude dos filhos. Em Pai, tiveste medo? trata-se de filhos nascidos depois dos pais regressarem. Futuros pais, como os designa a Autora. Nuns e noutros há marcas deixadas pela "guerra dos pais". As perguntas que não foram feitas nem nunca serão, são comuns nos dois casos, bem como a conclusão a que chega a Catarina Gomes, na introdução, "afinal n...

Lisboa, Porta do Mundo Lisboa, Porta de Mim, José Fanha (Âncora editora)

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    Deu-me muito prazer ler esta autobiografia de José Fanha, porque me permitiu recordar alguns momentos que fazem parte da minha (nossa) história recente (hesito em classificá-la como recente, dados os mais de 50 anos que passaram desde então).     Nascido em Lisboa, em 1951, entra aos 10 anos para o Colégio Militar e encontra-se a estudar arquitetura quando se dá o 25 de Abril.      Nas páginas de Lisboa, Porta do Mundo, Lisboa, Porta de Mim, lembramos ruas e locais de Lisboa que ainda permanecem ou que já desapareceram, como se percorrêssemos um mapa que existe na memória, feito de passado e presente. Nestas deambulações, não pude deixar de soltar uma exclamação, saudosista, quando encontrei a referência à loja Porfírios, "a  loja onde se comprava roupa meio hippie, calças à boca de sino, camisas de longos colarinhos e flores por todo o lado" (pg. 105).     Encontramos também nomes de amigos, professores, poetas, músicos e muitas out...