domingo, 7 de outubro de 2018

Isto e mais isto e mais isto, Luísa Costa Gomes (Editorial Notícias)

    Leio regularmente crónicas, de diferentes autores e assuntos. Desde as crónicas escritas do António Lobo Antunes, Ricardo Araújo Pereira, Miguel Esteves Cardoso, António Guerreiro, às crónicas radiofónicas do Júlio Machado Vaz, apenas para citar alguns.  São, em regra, pequenas jóias literárias, curtas, muitas vezes sobre temas da atualidade. Dão para ler enquanto bebemos um café ou interrompemos a leitura de um livro. Ou mesmo no tempo de uma viagem de comboio. Gosto de crónicas, mesmo sabendo que alguns dos que as escrevem desdenham de quem as lê, por serem o que são, uma leitura simples e rápida.
    Mas gostando de crónicas, nunca comprei ou li um livro de crónicas. Sempre achei que seria um exercício fastidioso ler de seguida cinquenta ou mais crónicas do mesmo autor, que foram escritas e publicadas ao longo do tempo, algumas  sobre os mesmos temas. Curiosamente, numa nota da editora sobre o livro é dito que os livros de crónicas têm vindo a ter enorme sucesso no nosso panorama editorial.
   Apesar disso, em virtude da disciplina Artes da crónica que frequento, decidi-me a requisitar na Biblioteca Municipal de Oeiras este livro da Luísa Costa Gomes que reúne crónicas que ao longo de dois anos (1998-1999) escreveu nos jornais, primeiro para o "Público", depois para o "Independente". Algumas tinha-as lido quando foram publicadas, recordo-me bem. Outras li-as agora pela primeira vez. Curiosamente acho que, sendo todas crónicas irrepreensíveis do ponto de vista literário, nem todas sobreviveram ao tempo. Assuntos como a EXPO, Seinfeld ou as vacas loucas fazem já parte da história. A geração que tem tantos anos quanto as crónicas provavelmente não perceberá estas e outras questões que são aqui tratadas. Mas para quem conta mais idade, ler estas crónicas é como ler cartas que recebemos há alguns anos e rememorar através delas acontecimentos que nos marcaram ou de que pelo menos nos recordamos. E todas com um toque de humor.

domingo, 30 de setembro de 2018

Na vertigem da traição, Carlos Ademar (Parsifal)

   
    Gosto de ler policiais, não pelo fascínio de descobrir antecipadamente o criminoso, mas pela trama que é tecida à volta do crime e da descoberta. 
    Já li outros livros deste autor, Carlos Ademar, e, particularmente no anterior, O Chalet das cotovias, gostei das possibilidades em aberto relativamente a um crime cujo responsável nunca foi descoberto.
    Também neste livro, como naqueloutro, não me pareceu que o autor receasse explorar o que não era factual, ou falhasse aqui, como em livros de outros autores, em que percebemos o que é verdade e o que foi  imaginado para colmatar os espaços em branco ou para reforçar a história que se quer contar.
    A história, como consta na capa, é sobre Miguel Domingos, que foi encontrado morto num pinhal nos arredores de Lisboa, em 1951. Miguel Domingos era membro do Partido Comunista Português, vivia na clandestinidade e depois de ter estado na origem da revolta da Marinha Grande, viveu em Espanha e França, onde combateu contra Franco e Hitler. Em 1949 foi afastado do Comité Central e caiu em desgraça. Quando o cadáver é descoberto, mesmo os seus irmãos têm dificuldade em identificá-lo, o que adensa o mistério.
    E a história de Miguel Domingos e os anos que antecederam a sua morte são o pretexto para uma viagem pela história da Europa e sobretudo de Portugal na primeira metade do século XX. Para um continente em guerra e com fronteiras vigiadas e um país pobre e onde imperava a censura e a polícia política. E é justamente aqui que, em meu entender, o autor se estende e alonga em demasia, o que é, contudo, justificado pela necessidade de contextualizar o momento político que se vivia.
    Não me recordo se a personagem central, Inspetor Guimarães, da PJ, já aparecia n' O Chalet das cotovias, mas é uma personagem cuja humanidade e integridade toca o leitor. São dele estes pensamentos:

    Enquanto a conversa se desenrolava , os pensamentos levavam-no para uma casa modesta e escura, em Belas, habitada por aquele homem de aparência rude, mas cheio de humanidade, e por uma menina pequena, dando por ele a refletir no dia-a-dia daquela criança, nas muitas horas que tivera de passar sozinha enquanto o pai ia trabalhar. (...) Esta história e muitas outras entranhavam-se-lhe na pele e acompanhavam-no para onde quer que fosse, emergindo sem que ele fizesse por isso. (...) Pudera, as histórias raramente eram arrumadas nas prateleiras do esquecimento, vadiavam pelos becos por onde correm as ideias, mostrando-se a espaços, remoendo-lhe as entranhas e impedindo-o de atingir a tranquilidade de espírito que toca aos que têm as prateleiras do esquecimento a abarrotar. 

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domingo, 16 de setembro de 2018

Textos de guerrilha, Luiz Pacheco (ler, editora)

    Tenham sido as férias boas, tenham sido as férias más, no momento em que entramos no prédio, carregados de malas, abrimos a caixa do correio e nos caem contas em vez de cartas só nos apetece voltar para trás. Retroceder e fingir que não é connosco. Que ainda temos mais uns dias sem horas, sem transportes, sem aquela correria do dia a dia. Mas este ano, pelo menos este momento, foi diferente. Quando abri a caixa de correio, as contas estavam escondidas por um imenso envelope pardo onde descobri a letra inigualável da Cinda. Abro o envelope e encontro dentro os dois volumes dos Textos de Guerrilha, de Luiz Pacheco:

    E a boa disposição prosseguiu com a leitura destes volumes. Apesar do tempo passado, ou mesmo por causa do tempo que passou, as histórias e as personagens que as povoam têm imensa graça ou surpreendem-nos. Desde o Solnado, ao Cesariny, passando pelo Almada, pela Natália Correia, mas também por políticos como o Maldonado Gonelha, o Vasco Gonçalves ou o Ramalho Eanes. 
    E, nalguns casos, a crónica é de uma acidez (acutilante, polémica, como lhe diz o diretor de um magazine) que nem o tempo consegue mitigar, como quando fala de Miguel Torga, e de outros "escribas" do pós 25 de abril, ou de um deslumbramento como quando fala de "O que diz Molero" e "Levantados do chão". 
    Não são só os textos que nos fazem viajar no tempo, as edições também (o 1.º volume é de 1979, o 2.º de 1981), quer as capas, quer o lay out das páginas e as ilustrações. 
    Um bom regresso, ao passado e a mais um ano de trabalho.

domingo, 9 de setembro de 2018

Babilonia, Yasmina Reza (Quetzal)


  Conhecia esta autora apenas através do filme O Deus da Carnificina. No início das férias, comentava livros e autores com o meu irmão e apercebemo-nos que, embora os tivéssemos confundido inicialmente, estávamos a falar de autores diferentes. Enquanto ele falava de Yasmina Reza, eu falava de Yasmina Khadra e a conversa terminou com conselhos de leituras cruzadas. Poucos dias depois, quando visitava a Livraria de Santiago, em Óbidos, encontrei este livro que comprei e comecei a ler de seguida.
    O início do livro lembrou-me muito o livro Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Se em Mrs. Dalloway a ação decorre integralmente num dia, e à volta da preparação da festa que ocupa quase obsessivamente o pensamento de Clarissa Dalloway, também a primeira parte deste livro é ocupado com a preparação da festa da primavera, em casa de Elisabeth e Pierre, que nunca tinham feito nada do género, nem festa, nem convívio, muito menos de primavera. O que tinha começado por um pequeno jantar de amigos foi-se alargando a cerca de 40 pessoas.
    (...) Arrependi-me na hora. Naquela noite não preguei olho. Onde iria sentar aquela gente? Tínhamos sete cadeiras contando com o cadeirão marroquino. (...) Quanto aos copos...Durante a noite levantei-me para ir contar quantos copos tínhamos. Trinta e cinco mais ou menos díspares. Mais seis copos de champanhe de outro armário (...).

     O mais fascinante, contudo, é a fluência do pensamento da narradora,  Elisabeth, que vai passando de uma ideia a outra, desde a recente morte da mãe, aos vizinhos, a recordações da infância, ao receio quanto ao envelhecimento:

   (...) A mulher tem de ser jovial. Contrariamente ao homem, que pode entregar-se ao desânimo e à melancolia. A partir de uma certa idade, a mulher está condenada ao bom humor. Quando ficas de trombas aos vinte anos és sexy, aos sessenta és uma chata.

   A passagem  do tempo é igualmente um tema quase obsessivamente presente:

  (...) Tu também avanças na idade como todos aqueles que conheces, e senti que fazia parte de uma multidão errante, de mãos dadas, avançando na idade para o desconhecido.

    Quase nos sentimos dentro da cabeça dela, na vertigem dos pensamentos que a ocupam, sem qualquer ordem, e que ela vai transpondo para o papel da mesma forma. No meio dos preparativos para a festa e das suas reminiscências, vai falando dos convidados que virão à festa, sobretudo dos vizinhos, o casal Manoscrivi.
     E é com este casal, diferente dos outros convidados presentes, que as coisas se descontrolam já depois de terem saído da festa. Quase como se uma faísca, quase imperceptível aos olhos dos outros, conseguisse atear um fogo. Saímos da cabeça da Elisabeth para acompanhar o que se passa e as decisões que são tomadas face aos acontecimentos.
     Embora não tenha lido O Deus da carnificina - só vi o filme - senti que havia alguma similitude: um encontro entre pessoas que se inicia cordatamente mas que, a dada altura, quase inexplicavelmente, as coisas descontrolam-se. Pessoas normais, os nosso vizinhos, amigos, colegas, nós mesmo, podemos perder o controlo de uma forma irreversível. Um pouco assustador.

    Uma palavra final para a edição que é muito cuidada e lindíssima. No debate livros em papel versus livro eletrónico, esta edição da Quetzal é claramente um argumento favorável aos primeiros, desde a capa à letra, às badanas, à nota final sobre a autora e a tradutora. Até ao pormenor do copo abandonado,  deitado que aparece no princípio do livro e na contracapa.

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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Fahrenheit 451, Ray Bradbury (Saída de emergência)

  É raro ler livros de ficção científica. Não por qualquer preconceito relativamente a este tipo de livros, até porque sou uma aficcionada de livros policiais, considerado por muitos também um género menor de literatura, mas porque, em regra, não aprecio o ambiente em que decorrem. 
  Comecei, contudo, a encontrar referências a este livro, Fahrenheit 451, em referências feitas noutros livros ou por pessoas que o tinham lido e, ainda, na designação de uma revista brasileira sobre livros, que adotou o nome do livro, Fahrenheit 451.
    Provavelmente tudo o que direi sobre o livro já foi dito e lido, a começar pelo título: Fahrenheit 451, corresponde a 233o Celsius, e é a temperatura a que ardem os livros. Guy Montag, o protagonista, é bombeiro e o seu trabalho é queimar livros - todos os livros -, as casas onde se encontram e até, se se recusarem a sair, os respetivos habitantes. O livro começa desta forma:
    "Era um prazer pôr fogo às coisas. Era um prazer especial vê-las a serem devoradas, enegrecidas e transformadas."
    Um dia, quando regressa a casa, encontra uma rapariga, que mora na vizinhança, Clarisse Mc Clellan, que lhe faz várias perguntas ("Alguma vez leu os livros que queimou?" ou "É feliz?") e diz coisas que o surpreendem. Quando chega a casa a mulher tinha tomado vários comprimidos para dormir e ele teve que chamar o serviço de urgência. São estes dois eventos que o levam a questionar tudo, começando desde logo por esconder um livro que deveria queimar.
    
    Costumo ler o prefácio depois de ler o livro, eventualmente antes do posfácio, se o tiver. Foi por isso com surpresa que li no prefácio, de Jaime Nogueira Pinto, que Fahrenheit 451 foi editado pela primeira vez nos EUA, em 1953, e quando saiu,  foi lido como um manifesto contra a censura, como um panfleto contra todas as inquisições.  Na leitura do livro, o que me surpreendeu mais, porém, foi a ausência de poder instituído. Não há menção a governo ou a sistema político, mas apenas um sistema que é quase unanimemente aceite e por isso muito mais perigoso. Há também menção a uma guerra iminente que, até eclodir, é praticamente ignorada. Em termos de clarividência ou de antecipação do futuro,  não deixa de impressionar o papel que ele reserva à televisão e aos programas de entretenimento, anestesiando os espetadores que confundem o que vêem com a vida real. E o contraponto é dado pelos livros, pelo poder que exercem sobre as pessoas, e pelas pessoas que incorporam livros:
    "(...) Vagabundos por fora, bibliotecas por dentro. Não foi algo planificado rigorosamente. Cada homem tinha um livro que queria memorizar e fê-lo. Depois, durante um período de mais ou menos vinte anos, fomo-nos encontrando nas nossas viagens e a rede de contactos foi-se formando aos poucos, até pensarmos na solução. A coisa mais importante que tivemos de enfiar nas nossas cabeças foi que nós não éramos importantes, e que não devíamos ser pedantes, não devíamos sentir-nos superiores a ninguém. Não passamos de sobrecapas de livros, sem outra particular importância. (...) Mas é isso que a humanidade tem de maravilhoso: por mais desencorajantes e terríveis que sejam as circunstâncias, nunca deixa de voltar a tentar, porque sabe que há coisas que são importantes e merecedoras do risco da tentativa."

    Uma nota final, tendo o autor desta obra a capacidade de, nalguns aspetos, antecipar o futuro, não deixa de surpreender que retrate a família como ela era nos anos 50, nos EUA, e não preveja que a mulher tenha no futuro um papel distinto daquele que tinha então. A mulher de Guy Montag é doméstica, passa a vida a ver televisão e toma medicamentos para dormir, bem como as amigas. No que se diferenciam das mulheres daquela época, é no número de divórcios/casamentos e na decisão de não terem filhos. Entre os vagabundos que memorizam livros não há mulheres, como também não são mencionados livros escritos por mulheres. Um livro quase todo masculino em que apenas se diferencia o papel de Clarisse McClellan.

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sábado, 25 de agosto de 2018

Para onde vão os gatos quando morrem?, Luís Cardoso (Sextante Editora)

    Há qualquer coisa de mágico quando lemos um livro no lugar em que a história acontece. Foi o que aconteceu com este livro, cuja leitura iniciei na ilha de Ataúro. Existem lugares que já foram cenário de vários livros e filmes, e é fácil para o leitor visualizá-los, mas há outros que só raramente são mencionados ou usados como pano de fundo de uma história. Nestes casos lê-los, enquanto sentimos o vento e vemos a paisagem que é descrita, ou ouvimos algumas palavras em tétum que são ditas, torna a leitura especial (até a menção repetida aos tokés, que ouvíamos diariamente, sendo que no glossário é referido que se trata de um Lagarto Pactydatilus gottutus que emite um som que se assemelha a toké).
    Não aconteceu por acaso. Como já fiz anteriormente, antes de partir de férias para Timor-Leste, fui à Livraria Palavra de Viajante e pedi livros recentes de autores timorenses ou que decorressem em Timor. Com a competência e simpatia de sempre, sugeriram-me dois livros, Dili, a cidade que não era, de Dom Carlos Filipe Ximenes Belo, e Para onde vão os gatos quando morrem, de Luís Cardoso.
    O primeiro, li-o antes de partir. Trata-se de uma resenha histórica sobre a cidade de Dili ou, como é referido na conclusão, Em poucas páginas fizemos uma rápida viagem pelos 150 anos da história da cidade. Um bom roteiro para mais que conhecer, perceber esta cidade.
    O segundo comecei a ler na ilha de Ataúro. Sentada, ao sol, e com uma vista que se estendia até ao mar. Trata-se do primeiro livro que leio deste autor. O livro está dividido por dias e vai, de forma sequencial, até ao vigésimo dia. Como refere Frei Bento Domingues no Prefácio, este romance é escrito como uma parábola bíblica. Acompanha-o A Criação do Mundo, de Miguel Torga, outra parábola bíblica quase laicizada. 
    Tal como na Bíblia, os parágrafos (versículos) são numerados. A impressão que tive quando acabei de o ler foi que se tratava de dois livros distintos, porém, sequenciais. Ernesto, o protagonista, é uma criança a viver com o pai, chefe de posto colocado em Ataúro, e não se lembra de nada relacionado com a mãe: Havia um manto de silêncio em torno deste trágico acontecimento que deixou o meu pai viúvo e triste, enterrado numa cadeira de lona, entre cigarros, livros e conhaque, que o faziam sonhar com um certo paraíso inaugural que ficava lá para os lados de tasi-balu.
    Até que um dia o pai o manda esperar uma pessoa que chegaria de barco, e essa pessoa é Beatriz.
    Beatriz não vem apenas para acompanhar Ernesto, ao contrário do que parecia inicialmente. Contudo, até ao sexto dia, Ernesto vive protegido pelo pai, por Beatriz e por Silêncio, que o acompanha para todo o lado. Mas no sétimo dia, quando chega a casa, percebe que, na sua ausência algo terrível se passou e decide procurar Beatriz por toda a ilha. E nessa procura desesperada cai e fica como se fosse no limbo, o sítio para onde os gatos vão quando morrem. E depois a história ganha uma velocidade que não tinha antes, e assistimos a Ernesto a vivenciar o 25 de abril, a declaração de independência, a ocupação indonésia e finalmente a independência. Sai de Ataúro, depois de Timor, vive em Paris e também em Portugal, para finalmente regressar a Timor. (Coincidentemente, Ernesto chega a encontrar-se com Luís Cardoso, na estação de Paço de Arcos e seguem os dois pelo longo passeio marítimo até Carcavelos.)
    Apesar dos ritmos distintos, gostei muito de ler este livro e da mistura entre realidade, tradição e imaginação, como se a vida precisasse destes ingredientes para ser contada.   

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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Tudo é Possível, Elizabeth Strout (Alfaguara)


    Foi com satisfação que, pouco depois de ler O Meu Nome é Lucy Barton, fiquei a saber que seria publicado um segundo livro. Quando terminei de ler o primeiro livro, senti-me perdida, porque queria continuar ali, naquele mundo de Lucy e da mãe e conhecer mais sobre elas e sobre as personagens sobre as quais falavam, evitando falar de si mesmas.
    Este segundo livro, Tudo é Possível, explora precisamente isso: cada capítulo é como se fosse um conto individual, seguindo uma personagem em específico de entre aqueles que, num momento ou noutro, passaram pela vida de Lucy. Entretanto, além de Lucy, existe sempre alguma ligação entre as histórias, porque as personagens se conhecem ou cruzam de alguma forma, o que é interessante. Tive, portanto, parte do meu desejo satisfeito. Pude conhecer melhor estas personagens, aparentemente aleatórias nas aventuras que a mãe de Lucy lhe ia contando.

    Ouve! A mãe de Lucy Barton era horrível com ela, e o pai... oh, meu Deus, o pai dela... Mas a Lucy gostava deles, gostava da mãe e a mãe gostava dela! Somos todos uma trapalhada, Angelina, tentamos fazer o melhor que podemos, amamos de um modo imperfeito, Angelina, mas não faz mal.

    Já quanto a conhecer melhor Lucy e a sua história, a sua infância e percurso até à vida adulta, pouco é desvendado. Nesse aspeto, confesso que fiquei um pouco desiludida.
   É um livro que se lê bem, sem ser tão brando como o primeiro. Pelo contrário, tem passagens bastante duras. Mas é um livro bonito. Um livro sobre a vida e tudo o que pode surgir-nos no caminho e como aprendemos a gerir as amarguras e deceções, mas também as alegrias. Como vivemos.

    Digam o que disserem, nunca nos habituamos à dor. Mas, agora, pela primeira vez, ocorria-lhe - seria mesmo a primeira vez que lhe ocorria? - que havia algo muito mais aterrador: pessoas que já não sentiam dor alguma. Já o tinha visto noutros homens - a desolação dos seus olhos, a ausência que os definia.

    Aconselho a leitura!


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