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Acabámos de ler:

Sem destino, Imre Kertész (Editorial Presença)

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    Nas minhas estantes convivem livros da minha juventude, livros que fui comprando ao longo dos anos ou que me foram oferecidos, livros emprestados – e que prometo devolver – e livros que trouxe de casa dos meus sogros e dos meus pais, quando tivemos que as desmanchar. E juntamente com esses, vieram livros de casa dos meus avós, cuja origem descubro ou relembro quando vejo uma assinatura ou uma dedicatória nas primeiras páginas. Mas é sempre com imensa nostalgia que encontro na primeira página de um livro, no canto superior direito, a lápis, uma letra e um número. Sei logo que esse livro veio de casa dos meus pais e que a sua arrumação obedecia a uma lógica em que identificávamos a estante pela letra, por ordem alfabética, da esquerda para a direita, e depois a prateleira, contando de baixo para cima. «Sem destino» tem escrito E-3 e ao ler estas coordenadas sei imediatamente onde estava arrumado.     Confesso que foi uma surpresa este livro. Depois de o ler de...

O Louco de Deus no Fim do Mundo, Javier Cercas (Porto Editora)

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     Logo no início do livro ficamos a saber de que trata O Louco de Deus no Fim do Mundo:    "Sou ateu. Sou anticlerical. Sou um laicista militante, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou, viajando em direção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na Terra, disposto a interrogá-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo."     Identifiquei-me completamente com a descrição dele próprio: também sou ateia, anticlerical, sobretudo, uma laicista militante, uma racionalista obstinada, uma ímpia inveterada. Mas se tivesse oportunidade seguiria o louco de Deus até ao fim do mundo para lhe fazer uma pergunta idêntica. Afinal, apesar de na aparência ser uma pergunta simples, feita para tranquilizar a mãe, tr...

Tamem digo, uma história de migrações, Jorge Pinto, ilustrações de Júlia da Costa

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     Mais um livro que me foi emprestado e que me surpreendeu. Uma homenagem à avó, que emigrou para França, ainda nova,  onde viveu em condições similares às que vemos agora em muitos bairros onde vivem os nossos imigrantes, e que quando regressou à sua aldeia natal, no norte, abriu um café/restaurante.      Ler este livro é quase como falar com o autor, o neto da avó Carmo. Começa por explicar como depois de várias tentativas frustradas, foi abandonando projetos e ideias e quase desistiu até descobrir os trabalhos de Lamia Ziadé (que apenas conheço através de algumas imagens e recensões na net). Decidiu então juntar imagens ao texto e "uns toques de história e política".     Pegamos em Tamem digo e só o pousamos quando acabamos de o ler.  Divertimo-nos e comovemo-nos ao lê-lo enquanto fazemos uma viagem no tempo, e encontramos pequenas coisas que fizeram parte do quotidiano daquela época, desde a decoração do café - e sobretudo os mosa...

Os nomes de Feliza, Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara)

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    E mprestaram-me este livro de que não sabia a história. Não conhecia, nem sequer tinha ouvido falar de Feliza Bursztyn, uma escultora, filha de um casal judeu expatriado na Colômbia e que morreria com pouco mais de 40 anos, em Paris, onde estava exilada.     Feliza - que os pais batizaram Felicia, depois de ponderarem chamar-lhe Feigele, que em iídiche quer dizer passarinho - escolheu este nome, na adolescência, porque "era rebelde, é verdade, mas também feliz." Foi isto que a mãe escreveu sobre o nome da filha após a sua morte.     Feliza morre inesperadamente, em 1982, num restaurante em Paris, onde estava acompanhada pelo marido e mais quatro pessoas, uma das quais era Gabriel García Márquez que, poucos dias depois, publicou um artigo no qual dizia que ela tinha morrido de tristeza. Por causa destas palavras, Juan Gabriel Vásquez investiga a sua vida e explica a Pablo, o viúvo de Feliza:      "Porque morreu de tristeza (...) É is...