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Acabámos de ler:

Um Castelo em Ipanema, Martha Batalha (Porto Editora)

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      Li o primeiro livro desta Autora, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão , de que gostei muito. Vi, antes de ler o livro, o filme A Vida Invisível , realizado por Karim Aïnouz e que ganhou Prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes. O filme - que não segue exatamente o livro – é de uma enorme beleza e de uma grande tristeza. Nalguns aspetos a imagem consegue impressionar mais que a palavra.     Achei curioso o título do filme, que deixa cair o nome da protagonista, passando a falar apenas da vida invisível, ficando em aberto quem vive esta vida invisível. Mas o título podia ser no plural, As Vidas Invisíveis , porque na realidade não é apenas Eurídice que tem uma vida invisível, a sua irmã, a mãe, as outras mulheres, têm na sua maioria vidas invisíveis e, mais que isso, decididas pelos homens - o pai ou o marido. A ação decorre nos anos 50, no Brasil, mas podia ser em qualquer outro país. Talvez não por acaso, os pais de Eurídice são portugueses (« Seu Manuel enlouqueceu um pou

Uma Mulher Desnecessária, Rabih Alameddine (Porto Editora)

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    Sou leitora assídua da crónica do Miguel Esteves Cardoso no Público. Na crónica do passado dia 27 de agosto, com o título O que eu aprendi, escreve logo no início o seguinte:     « Aprendi que as mulheres são muito mais parecidas com os homens do que eu pensava - e eu sempre pensei que eram muito parecidas. »      Concordo plenamente com esta afirmação e, se dúvidas tivesse, teriam sido dissipadas depois da leitura do livro Uma Mulher Desnecessária. Este ano, decidi ler livros escritos por mulheres, não por considerar que há uma escrita feminina e uma escrita masculina ou que na sua essência homens e mulheres escrevem diferentemente ou sobre temas distintos, mas apenas para privilegiar escritoras mulheres na minha seleção de leituras, contornando a sua menor projeção por parte de editoras, críticos e leitores. Das escritoras que li, de várias nacionalidades e continentes, não encontrei um denominador comum naquilo que escrevem, a não ser o facto de, em regra, as suas história

Os Memoráveis, Lídia Jorge (D. Quixote)

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    Os Memoráveis traz na primeira página um poema de Alexandre O'Neill e depois uma citação extraordinária saída dos Murais de Lisboa: « Desculpem não nos encontrarmos nestas ruas. Só nasceremos amanhã. »      E não poderia ser mais adequada à narrativa, porque, para além da protagonista, Ana Maria Machado, ter nascido depois do 25 de abril, penso que Lídia Jorge escreveu Os Memoráveis a pensar nas gerações mais jovens que também não o viveram. Quando o livro se inicia, em novembro de 2003, Ana Maria está numa receção em Maryland, em casa do antigo embaixador em Portugal (Frank Carlucci?) quando é desafiada a preparar uma reportagem sobre o 25 de abril, para um programa chamado A História em Vigília ou A História Acordada (« Ela deveria ir lá, quanto antes, recolher o resto da metralha de flores que ainda existe entalada entre as pedras da calçada de Lisboa », pg. 14). Esse programa incluiria reportagens noutras capitais, como Budapeste, Praga, Berlim e Bucareste.     Jornalis

Niketche, Paulina Chiziane (Caminho)

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     Niketche foi amor às primeiras palavras, às primeiras páginas. E como todos os livros pelos quais nos apaixonamos, dividi-me entre lê-lo avidamente ou mais lentamente, fazendo durar o prazer. Niketche, como define o glossário no final do livro, é uma dança de amor da Zambézia e Nampula. Mas antes de lá chegarmos, já sabemos pela leitura do livro que "é a dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva, dança da criação. Uma dança que mexe, que aquece. Que imobiliza o corpo e faz a alma voar. (...) Quando a dança termina, podem ouvir-se entre os assistentes suspiros de quem desperta de um sonho bom."     Niketche, o livro, o romance, conta-nos uma história de poligamia, mas fala-nos sobretudo das mulheres de Moçambique, do sul, do centro e do norte, e como são física e culturalmente distintas. Mulheres casadas, solteiras, viúvas, novas e velhas. E não conseguimos deixar de nos espantar com a evolução da história que nos é contada, da transformação das infidelidades num c