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Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro, Susana Moreira Marques (Companhia das Letras)

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    Tenho As Mulheres do meu País , numa edição fac simile , da Caminho, de 2002, que me foi oferecido pela minha mãe, mas lembro-me deste livro desde sempre, em casa dos meus pais.     Confesso  que ainda acalento a esperança de um dia (quando me reformar?) fazer o mesmo percurso que levou Maria Lamas a percorrer o país para conhecer, « em todos os seus aspetos, a vida da mulher portuguesa»  (nota inicial d'A s Mulheres do meu País) : a camponesa, a mulher do mar, a operária, a empregada e a doméstica. Foi isso que fez Susana Moreira Marques, juntamente com Marta Pessoa, que quis filmar o livro e fazer uma viagem semelhante. O filme - que não vi (onde o poderei encontrar?) - tem também um título lindíssimo: Um nome para o que sou . Desta viagem e da pesquisa que efetuou para fazer o texto para o filme nasceu também este livro.     Fico feliz por não o classificar. Em regra, não o sei fazer, mas este é um livro inclassificável, que não pode ...

O Avesso da Pele, Jefferson Tenório (Companhia das Letras)

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     Criei o hábito de publicar a recensão de cada livro que leio, aqui e na Goodreads , onde também me é pedido que avalie o livro atribuindo estrelas. 5 estrelas é o máximo que podemos atribuir. Verifico que nos 133 livros que avaliei, nunca dei 5 estrelas. Provavelmente porque fui guardando este número máximo de estrelas para um livro que superasse as minhas expetativas, que fosse simultaneamente apaixonante e me confrontasse. Que contasse uma história, mas que a contasse de forma a me obrigar a mergulhar nela. Que quisesse ler depressa, impaciente para saber o que acontecia depois, mas também quisesse ler lentamente, para saborear cada palavra, cada frase, cada parágrafo, cada página. Que voltasse atrás para poder reler com calma e já sem avidez o capítulo anterior. E foi isto tudo que encontrei n' O Avesso da Pele e por isso irei atribuir-lhe 5 estrelas.     Não sei se quer como definir este romance ou como descrevê-lo. Confrontado com a morte ine...

Quarentena - Uma História de Amor, José Gardeazabal (Companhia das Letras)

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    Começo por fazer uma confissão: como não posso continuar a acumular livros, compro alguns que quero muito ler, e que ofereço, pedindo depois que mos emprestem. Foi o caso deste. Comprei-o depois de ter lido a contracapa, ofereci-o a uma grande amiga que, depois de o ler, mo emprestou. Penso que é preferível a lê-los primeiro e oferecê-los depois, o que também já fiz, confesso .     A premissa de partida é fantástica:     « Um casal, decidido a separar-se e de malas feitas, é obrigado pelas autoridades de saúde a uma quarentena. (…) Uma história de amor em 40 dias.»     Como ambos confessam não estão apaixonados por outra pessoa, só não estão apaixonados um pelo outro. Se é difícil conviver dentro de quatro paredes durante dias seguidos, não imagino como será fazê-lo depois da decisão de separação (que presumo seja iminente e não eminente, como está logo no início). E mais difícil ainda será escrever sobre a situação que ou...

Princípio de Karenina, Afonso Cruz (Companhia das Letras)

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        Soube-me muito bem ler esta novela, Princípio de Karenina. Um livro simultaneamente leve e difícil. Em muitos momentos, poesia em forma de prosa:     « Havia breves e raros momentos em que a nossa casa sorria, quando de manhã a criada da Mealhada abria as janelas, para arejar a casa, e as cortinas esvoaçavam. Ou quando eu me reclinava nos acordes, como se fossem divãs, que a minha mãe tocava ao piano . [...]     Todas as noites, a minha mãe, ao inclinar-se sobre mim, parecia despedir-se. Acho que ela sentia mesmo isso, que por cada dia que passava havia uma parte de mim ou dela que ia embora.»     Conforme explica no final, este livro nasceu de uma viagem ao Camboja e ao Vietname, organizada pelo Centro Nacional de Cultura, em 2017, cujo objetivo seria encontrar vestígios de nós próprios pelo mundo, em lugares tão distantes como a Conchinchina. Conchinchina foi o nome dado pelos portugueses a uma região ...

Luanda, Lisboa, Paraíso, Djaimilia Pereira de Almeida (Companhia das Letras)

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  Custa-me sempre recuperar de um bom livro. De um mau livro ou pelo menos de um de que não goste, recupero facilmente. Nalguns casos abandono-o a meio, mas mesmo que chegue ao fim, quando viro a última página, já o começo a esquecer e só desejo começar um novo. Mas quando chego ao fim de um livro de que gostei, sou tentada por vezes a reler algumas partes e demoro, indecisa, a encontrar nova leitura, como se aquele outro não me abandonasse imediatamente.     É o que está a acontecer com este Luanda, Lisboa, Paraíso. Comprei-o recentemente no Festival Literário Língua Mátria e logo que folheei as primeiras páginas apaixonei-me pela escrita. Poesia disfarçada de prosa:       " (...) Seria mentira dizer que as últimas vezes são os nossos anjos-da-guarda." (pg. 29)     "(...) As suas mãos haviam-se feito brancas e assim seriam quando morresse. A obra e não o nascimento tinham-no tornado da cor do pai, que nunca mais tinha...

A Boneca de Kokoschka, Afonso Cruz (Companhia das Letras)

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   Mais uma vez, apaixonei-me pela escrita de Afonso Cruz na primeira página - e, ao longo de todo o romance, lá fui dobrando os cantos das páginas onde encontrava passagens particularmente bonitas. Funciono assim. Leio com muito prazer frases bonitas, pela simples beleza delas e mesmo que, por si só, não constituam um acrescento à história que está a ser contada.    «Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. (...) E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora, como as pessoas imaginam. Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem (...), desviavam os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. (...) A gaiola estava dentro deles. A outra (...) era apenas uma metáfora. Bonifaz Vogel vivia no meio de metáforas.»     Neste livro, que são dois (um livro dentro de um livro), e que se passa em três partes, a história é, na verdade um novelo que só se destrinça na última ...

Paraísos Artificiais, Paulo Henriques Britto (Companhia das Letras)

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    Foi este o livrinho que me foi recomendado pela simpática rapariga do pequeno stand de livros do Centro Comercial de Alvalade, que já mencionei . Falou-me do autor, brasileiro, que escreve maioritariamente poemas mas que, aqui, se aventura em prosa. E, como ela me prometera, a escrita é maravilhosa. Fiquei amarrada logo na introdução.     ... você está constantemente largando camadas sucessivas de seu ser, desintegrando-se a cada instante de sua existência no espaço; e é por isso que você não é eterno, não pode ser eterno, pelo mesmo motivo que um lápis ou uma borracha não podem ser eternos.     Mas há uma maneira simples de alterar essa situação - quer dizer, não alterá-la objetivamente, o que seria impossível, e sim modificar o modo como você a vivencia (e como você só sabe das situações o que vivencia delas, para todos os fins práticos modificar sua percepção de uma situação é a mesma posa que modificar a situação em si): basta sentar-se na ...

O Luto de Elias Gro, João Tordo (Companhia das Letras)

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    Foi estranho para mim ler este livro, uma vez que, como penso já ter mencionado em entradas anteriores, fiz um curso de escrita com o João Tordo. Do pouco que pude conhecer dele, confesso que, em alguns momentos, me senti uma intrusa a espreitar sem autorização uma fase - muito dolorosa - da sua vida. Isto porque me foi impossível dissociar-me desse conhecimento, ou seja, enquanto lia era como se a história me estivesse a ser narrada pelo próprio autor e, não poucas vezes, dei por mim a perguntar-me onde terminava a realidade e começava a ficção.     Usando como cenário uma ilha algures no Atlântico, onde se fala francês, o escritor veste-se de um narrador presente que, para todos os efeitos, decidiu deixar de viver. Nessa ilha, num farol há muito desabitado, tenta refugiar-se dos seus fantasmas por intermédio da bebida e da inércia. Mas não é bem sucedido porque, mesmo sem o querer, acaba por se envolver com os habitantes da ilha, particularmente com Elias Gr...

Flores, Afonso Cruz (Companhia das Letras)

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   Na mesma "Festa do Livro" onde fui ouvir falar José Luís Peixoto sobre a sua peça " Estrangeiras ", adquiri este romance de Afonso Cruz.      Não conhecia nada do autor a não ser que a minha mãe já lera " O Pintor debaixo do Lava-loiças " e gostara muito. A mim, foi o excerto escolhido para figurar na contracapa que me cativou; e de tal maneira que, ao contrário do que sempre faço, nem precisei de ler o resumo da história.      Na altura em que comprei o livro estava a ler outro - e eu sou o tipo de leitora que não lê mais do que um livro de cada vez. Malgrado meu (ou, neste caso, bom) não o levara comigo por pensar que não teria oportunidade de o ler. Assim, quando tive de ficar a aguardar pela conversa, comecei a espreitar este romance novo. E fiquei imediatamente agarrada a ele. A escrita é lindíssima. Quatro folhas volvidas e começaram as dobras nos cantos, para assinalar passagens particularmente bonitas (« (....) quando penso nisso...