O fim do mundo não terá acontecido, Patrik Ouredník (Antígona)

 

O fim do mundo não terá acontecido
    Não sei muito bem como definir este livro. É surpreendente e, ao mesmo tempo, divertido. E faz-nos pensar.
    Gaspard, o protagonista, nasceu dez anos depois do fim da II Guerra Mundial, no dia do décimo aniversário dos bombardeamentos de Dresden. Depois de concluir os estudos universitários, passa cerca de três anos nos Estados Unidos, onde conhece a sobrinha do futuro presidente, que descreve como o presidente americano mais estúpido da história do país. Regressa a França e trabalha como tradutor até ser convidado para conselheiro do presidente americano.

    O narrador, que quer escrever um livro sobre o fim do mundo, conheceu o Gaspard o suficiente para "recompor algumas sequências da vida gaspardiana". Gaspard teme ser descendente de Hitler, porque o seu pai estava convencido de ser o resultado de uma noite de amor  entre a sua mãe e um cabo alemão chamado Adolf Hitler. E por isso pesquisa e chega a fazer testes ADN para ver se tinha alguma ligação com dois elementos da família de Hitler. A conclusão é que não há qualquer relação entre eles.

    Relembra vários episódios da II Guerra Mundial, incluindo a afirmação de Chamberlain quando aterrou em Londres depois de assinar os acordos de Munique: "Trago para o meu país a paz para muitas gerações."

    "Nessa época [dos acordos de Munique] reconhecia-se uma democracia pelo facto de as pessoas que nela viviam considerarem poder influir  na evolução da sociedade e de só raramente estarem de acordo entre si, diferentemente dos regimes autoritários, em que as pessoas tinham o sentimento de não poder influir  fosse no que fosse e concordavam, a bem dizer, a respeito de tudo.

    Porém, pouco a pouco, também nas democracias as pessoas se puseram a pensar as mesmas coisas, democraticamente. Deste modo, a única diferença em relação aos regimes totalitários era que os indivíduos continuavam convencidos de que tinham pensamentos próprios e originais, opiniões autênticas." (pg. 61)

    Dá-nos número e estatísticas, como o número de  mortos causados por 6 ditadores (Hitler, Estaline, Mao Tsé-Tung, Hirohito, Enver e Pol Pot) lugares comuns e outros muito menos comuns, fobias, o que comem os vegetarianos, os não vegetarianos e os Chineses. Escreve sobre a indelicadeza no mundo global, as alterações climáticas, o Viagra e o Prozac e os efeitos indesejáveis de um e outro. E recorrentemente volta ao Gaspard, à sua pesquisa genealógica, e às conversas sobre o fim do mundo.

    E é desta forma que acaba o livro, num pequeno capítulo com o título Confusão:

    "- Canso-me a repetir-lho. Você confunde o fim do mundo com o fim de um mundo.

    - Ah? Há uma diferença?

    - Não se faça mais parvo do que é.

    -  É que ....

    - O fim do mundo é não haver mais nada depois. O fim de um mundo é a aurora de um mundo novo. Isto mexe, avança, compreende? Tudo avança.

    - Para quê?

    - Como assim, para quê?"   

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