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Olhai os lírios do campo, Erico Veríssimo (Livros do Brasil)

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    Tenho este livro há muito tempo. Não me recordo se o herdei ou se o comprei em segunda mão. Editado em 1938, é o primeiro volume da Coleção Livros do Brasil. As páginas amarelecidas exalam o cheiro típico dos livros velhos. A capa está marcada  pelo uso e pelo que aparentam ser marcas de água e de leitura.     Não sei porque ainda não o tinha lido, até porque o título, uma passagem da Bíblia, é muito bonito. Olhai os lírios do campo é romance quase religioso ou pelo menos escrito por um crente em Deus.      O livro divide-se em duas partes e a primeira lê-se numa voragem. Amante como sou de livros policiais, ao começar a ler, pensei que Erico Veríssimo tinha encontrado a fórmula perfeita para manter o leitor em suspense. Logo no primeiros parágrafos ficamos a saber que Olívia, internada num hospital, irá morrer em breve e pediu para ver o Dr. Eugénio. Nada mais sabemos sobre um e outro. Os capítulos seguintes, até à segunda part...

Os Anos, Annie Ernaux (Livros do Brasil)

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   Os Livros do Brasil fazem parte da minha juventude. Foi com esta editora e coleção (Livros do Brasil - Dois mundos) que conheci e li alguns autores que continuam a ser os meus preferidos: John Steinbeck, Ernst Hemingway, Albert Camus, Pearl S. Buck, Franz Kafka, entre tantos outros. Gosto da quase imutabilidade das capas e do destaque dado ao autor em detrimento do título.     Neste caso, não conhecia a autora, Annie Ernaux, mas o livro foi-me emprestado por uma amiga que já me tinha falado dele durante as caminhadas que, por vezes, fazemos ao final do dia. Seria incapaz de catalogá-lo ou rotulá-lo naquelas categorias precisas com que críticos e estudiosos arrumam os livros. A autora fala numa autobiografia impessoal (pg. 194), porque “ O importante, para ela, é a possibilidade de captar a duração que constitui a sua passagem pela Terra numa determinada época. Esse tempo que a atravessou, esse mundo que ela registou apenas por viver.”     Apesar d...

a Peste, Albert Camus (Edição Livros do Brasil)

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   "(...) Houve no mundo tantas pestes como guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas."         Há anos passei por uma fase Camus. Li todos os livros dele que encontrei, bem como análises e recensões sobre a sua obra.      Quando a pandemia se instalou só me lembrava deste livro, A Peste. Mal comecei a lê-lo, surpreendeu-me a atualidade e a exatidão do mesmo. Não sei como poderei definir de outra forma, mas se é inevitável que numa situação de epidemia/pandemia as autoridades sanitárias reajam de uma determinada forma, isolamento das pessoas doentes e das áreas contaminadas, afetação de espaços públicos para albergar os doentes, não deixa de surpreender que, quase passo a passo, a reação das pessoas seja também similar, mal grado a distância do tempo e do espaço. A Peste decorre em Orão, na Argélia, após a segunda guerra mundial.     "(...) Com efe...

A Peste, de Albert Camus, e a situação atual

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    Já se tornou um lugar comum a propósito da situação que vivemos citar este livro de Albert Camus. Tenho estado a relê-lo, sem seguir a disciplina imposta pela ordem das página. Abro-o ao acaso, entre outras leituras ou outras afazeres, e fico sempre impressionada pela sua atualidade. Premonitório? Tanto quanto sei, não vivenciou durante a sua vida qualquer situação similar. A Peste foi publicada pela primeira vez em 1947. Não resisto a publicar um excerto a que provavelmente se seguirão outros:     Mas mesmo nisso, contudo, a reação do público não foi imediata. Com efeito, o anúncio de que a terceira semana de peste contara trezentos e dois mortos não falava à imaginação. Por um lado, talvez nem todos tivessem morrido de peste. Por outro lado, ninguém na cidade sabia quantas pessoas morriam habitualmente por semana. A cidade tinha duzentos mil habitantes. Ignorava-se e esta proporção de mortes era normal. É mesmo o género de precisões com que nunca nos...

Viagens com o Charley, John Steinbeck (Livros do Brasil)

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  Este livro foi sugerido pela Catarina para um trabalho da disciplina Escrita de viagem e adorei lê-lo. Há muito que não lia um livro do Steinbeck, mas a escrita dele, rápida, despretensiosa e ao mesmo tempo tão rica, prende-nos desde o princípio.     De acordo com a contracapa, « a bordo de uma camioneta a que chamou Rocinante, tendo apenas como companhia o cão-d'água Charley, partiu numa viagem de mais de três meses do Maine à Califórnia », e a causa e o  objeto da viagem são mencionados logo no início:     « Por conseguinte, descobri que não conheço o meu próprio país [...]. Não ouvira falar da América, não cheirara a sua erva, as suas árvores e as sua imundície, não vira as suas colinas nem as suas águas, a sua cor e a qualidade da lu z.»     Contudo, há uma segunda razão, que resulta do facto de ele ter estado doente no inverno anterior, com uma doença que descreve como uma advertência da aproximação da velhice, daí a decisã...

O livro de San Michele, Axel Munthe (Livros do Brasil)

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     Como tinha previsto, durante as férias, ir ao Mont-Saint-Michel, na Bretanha francesa, decidi ler este livro de que me recordo desde sempre nas estantes dos meus pais, e de os ouvir falar dele com admiração. Sempre pensei que o livro teria algo que ver com a abadia que foi erigida no Mont-Saint-Michel ou com a sua história.     Não é a primeira vez que o título de um livro me engana. O caso mais engraçado de que me recordo é o de um livro, também dos meus pais, que estava numa estante no corredor da casa deles, numa das prateleiras mais altas e cuja lombada ostentava o título Parto sem dor . Noutra prateleira estava o livro de Ferreira de Castro, Emigrantes . Depois de ler este último e fascinada com o livro e com o tema decidi avançar para o Parto sem dor , convicta de que se tratava da mensagem de despedida de um emigrante. Não era. Era um livro sobre o parto sem dor o que de imediato compreendi pelas imagens. Em minha defesa, recordo a belíss...

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley (Editora Livros do Brasil)

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    Publicado pela primeira vez em 1932, o Admirável Novo Mundo retrata uma sociedade futurista cujo único princípio fundamental é a felicidade. Nesta sociedade, não se conhecem os conceitos de mãe, pai, família, Deus ou amor.      Cada invíduo foi um bebé-proveta e, de acordo com a a posição que ocupará na sociedade, assim é adequadamente condicionado, quer genética, quer psicologicamente, não só para se adequar ao seu lugar, como para ser feliz nele.      E é aí (...) que está o segredo da felicidade e da virtude: gostar daquilo que se é obrigado a fazer. Tal é o fim de todo o condicionamento: fazer as pessoas apreciar o destino social a que não podem escapar.   Nesta sociedade, é fomentado o convívio constante e desencorajada a monogamia; é a sociedade do soma , uma substância química que permite aplacar quaisquer princípios de um qualquer sentimento mais violento - tristeza, paixão, solidão, medo...- e toda a gen...

A Revoltada, Doris Lessing (Livros do Brasil)

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    Nunca tinha lido nada da Doris Lessing, o que considero uma falha, por ser Prémio Nobel da Literatura (claro que ainda me falta ler muitos mais), e quando vi, na estante dos meus avós, o segundo e terceiro volumes da sua coleção "Filhos da Violência" fiz minha a missão de encontrar o primeiro volume - A Revoltada. Já não é editado, pelo que tive de o comprar em segunda mão, pela internet.     Não sei muito bem o que dizer sobre este livro. Já me tinha perguntado - e até recentemente - como seria escreve e er um livro sobre uma vida perfeitamente normal, isto é, sem grande peripécias do protagonista, ou romances avassaladores, ou intrigas por destrinçar ou as aventuras que fizeram história. Como seria descrver o percurso de vida de alguém anónimo, de uma persinagem neutra que vai seguindo a sua vida ao rumo da maré que a arrasta. É um bocadinho asim que me sinto em relação a este volume, mas não num mau sentido. CLaro que o romance está muito marcad...

O Estrangeiro, Albert Camus (Ed. Livros do Brasil)

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    Andava há muito com vontade de reler este livro. Recordo-me de o ter lido, em simultâneo com outros livros de Albert Camus, tendo este e o Mito de Sísifo marcado-me profundamente. Inolvidável o começo: Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem .     Ao longo da leitura, fui associando Mersault, o personagem principal, a Bartlleby de Melville. Vamos sentindo a mesma inquietação, porque não percebemos as atitudes, as motivações e o percurso de ambos. E os livros são o local certo para acompanharmos personagens por fora e por dentro, para percebermos o que sentem, como sentem, ao mesmo tempo que os acompanhamos nas suas atitudes e ações. Aqui, como em Bartleby, o desassossego resulta do facto de não nos ser dada qualquer chave para o que se passa, embora no caso de O Estrangeiro, com alguma regularidade, o personagem reconheça que é feliz.     O livro está dividido em duas partes, a primeira inicia-se com a morte da mãe e acab...

Preconceito Racial, Pearl S. Buck (Editora Livros do Brasil)

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    Um romance com a clara assinatura de Pearl Buck mas que deixa bastante a desejar. Foi o primeiro livro dela sobre a Índia que li e gostei mais de todos os que já li sobre a China.     "Preconceito Racial" na tradução portuguesa tem, como título original, "Come, my beloved" ("Vem, meu amor") e, para mim, nenhum dos títulos corresponde ao livro, ainda que compreenda o título português.    De facto, o título original soa-me estranho.     A narrativa é feita ao longo de três gerações de homens americanos, os MacArd, que procuram a realização da sua fé cristã e, com ela, o bem da Índia. Em cada geração, o filho desafia o pai e dá mais um passo na sua proximidade com esse país, sempre acreditando que o cristianismo é a solução para ele. Tendo início em pleno domínio Britânico, passa por Gandhi e pela libertção da Índia.     Por fim, é pedido um derradeiro sacrifício ao último protagonista - que ele não está disposto...

Mrs. Craddock, Somerset Maugham (Livros do Brasil)

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    Passo com frequência numa pequena livraria (alfarrabista?) na Calçada do Combro. Sentado, perto da porta, está um velhote. Presumo que seja o dono. Percebe-se logo que gosta e conhece os livros. É o meu santo das causas perdidas: sempre que procuro um livro e não consigo encontrar, passo por lá. Embora, em regra, não o tenha, dá-me pistas onde procurar.     Na última vez que passei por lá, tinha uma pilha de livros de Somerset Maugham na mesinha ao pé da qual estava sentado. Não resisti e comecei a folheá-los. Perguntou-me logo se já tinha lido algum livro dele.     Fez-me olhar para os discretos desenhos que ilustram a capa (e a sobrecapa) dos livros desta coleção (e daquela época, embora não encontre qualquer referência ao ano desta edição).     Não resisti a Mrs. Craddock ,e ainda bem. Começa com um prefácio do próprio autor em que explica que o livro foi escrito no final do século XIX. Foi considerado muito ous...