Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Editorial Caminho

Pretextos, Helder Macedo (Caminho)

Imagem
            Gosto de ler crónicas, ao ritmo diário ou semanal com que são publicadas. Imagino o cronista na véspera de entregar uma crónica, a pensar sobre o que vai escrever, e pergunto-me se terá vários temas guardados para poder tratar quando lhe falta a imaginação ou o pretexto.      Imagino que nalguns casos – sobretudo nas crónicas diárias – o que parece ser um trabalho ligeiro possa ser mais pesado que muitos trabalhos duros. O branco do papel ou do écran a refletir a falta de ideias e a impor a lembrança do tempo que escasseia para a entregar.      Gosto também de ler compilações de crónicas, embora em muitos casos o tempo dilua o interesse da mesma e até a lembrança das personagens. Mas na maior parte dos casos permitem-nos o regresso até um passado próximo - ou mais distante - e a reminiscência de situações e personagens.      Nunca tinha lido as crónicas que o Autor, Held...

Ventos do Apocalipse, Paulina Chiziane (Caminho)

Imagem
    Li Ventos do Apocalipse numa edição recente que ostenta na capa a indicação que a Autora foi Prémio Camões 2021, mas a 1.ª edição é de 1993, um ano depois do fim da guerra civil de Moçambique, e é fruto dessa vivência terrível. Transmite bem o horror que representa a guerra, sobretudo a civil, na vida das pessoas.    Ventos do Apocalipse começa com um prólogo seguindo-se três pequenas histórias. Terríveis todas. «O marido cruel», «Mata que amanhã faremos outro» e «A ambição de Massupai». Histórias de fome, medo, morte, crueldade e ambição. Mas isto são histórias contadas à volta da fogueira, por um avô, a quem pedem histórias bonitas. Porque « O povo não tem biblioteca e nem escreve. A sua história, os seus segredos residem na massa cinzenta dos antigos, cada cabeça é um capítulo, um livro, uma enciclopédia, uma biblioteca.»    KARINGANA WA KARINGANA (expressão que não consta do glossário e que significa Era uma vez) é então que começa a história, ...

Um Cão no Meio do Caminho, Isabela Figueiredo (Caminho)

Imagem
   De Isabela Figueiredo li os dois livros anteriores, Caderno de Memórias Coloniais e a Gorda que apreciei muitíssimo. Surpreendeu-me o à vontade com que em ambos Isabela Figueiredo se expõe, porque é impossível não entender as protagonistas como alter egos da Autora. Li-os também como crónicas de época, até porque ao longo da leitura encontramos marcos que nos permitem ligar a períodos da nossa história coletiva e da nossa vida privada. Com uma escrita escorreita, rápida, que nos leva a acelerar a leitura.     Um Cão no Meio do Caminho prende-nos logo nas primeiras páginas: um homem e uma mulher, vizinhos, solitários, contam a vida um ao outro, sobretudo o que os conduziu à solidão, e nesse processo criam laços que vão terminar por os ligar. Contudo, ao contrário dos outros romances, não me identifiquei com as personagens, nem com as histórias de ambos que, confesso, me pareceram pouco consistentes. Há até algumas incoerências, como quando Beatriz, a vizinha, con...

Em Busca, Naguib Mahfouz (Caminho)

Imagem
    Há dois anos li Khan al-Khalili e fiquei cheia de vontade de ler outros livros do autor, Naguib Mahfouz, que, em 1988, se tornou o primeiro escritor de língua árabe a receber o Prémio Nobel de Literatura.      Ao contrário do que pensei, Em Busca foi publicado cerca de 20 anos depois de  Khan al-Khalili  que me pareceu uma obra mais madura, talvez pela complexidade da narrativa. Em Busca começa com a morte da mãe de Saber, um homem jovem, que fica então « só, sem amigos, nem trabalho ou família [...] sem nada a não ser uma esperança quimérica. » Antes de morrer inesperadamente, a mãe, que tinha passado cinco anos na prisão, confessa que lhe mentiu e que o pai de Saber não morreu. Como lhe diz ainda a mãe, ele tem de procurar o pai, porque senão a única alternativa que lhe resta é « tornar-se um proxeneta, um vigarista, um chulo ou um assassino. »     Saber começa por procurar o pai em Alexandria e depois parte para o Cairo, instalando-...

Niketche, Paulina Chiziane (Caminho)

Imagem
     Niketche foi amor às primeiras palavras, às primeiras páginas. E como todos os livros pelos quais nos apaixonamos, dividi-me entre lê-lo avidamente ou mais lentamente, fazendo durar o prazer. Niketche, como define o glossário no final do livro, é uma dança de amor da Zambézia e Nampula. Mas antes de lá chegarmos, já sabemos pela leitura do livro que "é a dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva, dança da criação. Uma dança que mexe, que aquece. Que imobiliza o corpo e faz a alma voar. (...) Quando a dança termina, podem ouvir-se entre os assistentes suspiros de quem desperta de um sonho bom."     Niketche, o livro, o romance, conta-nos uma história de poligamia, mas fala-nos sobretudo das mulheres de Moçambique, do sul, do centro e do norte, e como são física e culturalmente distintas. Mulheres casadas, solteiras, viúvas, novas e velhas. E não conseguimos deixar de nos espantar com a evolução da história que nos é contada, da transformação...

Caderno de Memórias Coloniais, Isabela Figueiredo (Caminho)

Imagem
  O Caderno de Memórias Coloniais foi editado em 2009. Esta é a 8.ª edição (maio de 2018), o que é indiciador do interesse que suscitou. Ao lê-lo, senti o mesmo que tinha sentido quando li A Gorda,   a surpresa perante o desassombro com que a Autora fala dela própria, do corpo, dos seus desejos e sentimentos, num registo assumidamente autobiográfico. E da forma pouco habitual como fala do pai, da sexualidade paterna ( Ele sentia prazer em viver e gostava de comer, beber e foder. ..), bem como da sexualidade dos adultos, em especial das mulheres:     « Uma branca não admitia que gostasse de foder, mesmo que gostasse. E não admitir era uma garantia de seriedade para o marido, para a imaculada sociedade toda. As negras fodiam, essas sim, com todos e mais alguns, com os negros e os maridos das brancas, por gorjeta, certamente, por comida ou por medo. E algumas talvez gostassem, e guinchassem, porque as negras eram animais e podiam guinchar. Mas, sobretudo, porque as negr...

A Gorda, Isabela Figueiredo (Caminho)

Imagem
         Quando comecei a ler este livro, A Gorda, tive a sensação que temos quando abrimos uma revista já com alguns anos, ou um álbum de fotografias de um amigo e descobrimos imagens que reconhecemos de quando éramos crianças ou jovens. A identificação que nos leva a dizer que tivemos uma camisola exatamente igual à da imagem ou um corte de cabelo parecido. Ou que também estivemos ali, naquele lugar que é agora o cenário de uma fotografia amarelecida. E essa identificação é parte do interesse que a leitura desta história suscita, reforçado ainda pela indicação dos lugares, das terras em que Maria Luísa, a protagonista, vive, estuda e, mais tarde, trabalha ou passa férias, o que me parece cada vez menos comum nos livros publicados entre nós.     Também me pareceu curiosa a estrutura, baseada nas divisões da casa (Porta de entrada, Quarto de solteira, Sala de estar, Quarto dos papás, Cozinha, Sala de jantar, Casa de banho e Hall) ...

O Dono do Segredo, Antonio Muñoz Molina (Caminho)

Imagem
     O Dono do Segredo é um livro delicioso. Lê-se de uma assentada, com o prazer acrescido da proximidade porque não só se passa na vizinha Espanha, num passado recente, mas também porque nós, o nosso país, faz parte da história. Aliás, o livro inicia-se com uma carta aos leitores portugueses escrita pelo autor, Antonio Muñoz Molina, aquando da edição portuguesa, e na qual refere:     "(...) Se eu não tivesse escrito este livro não saberia agora, ou não me recordaria, da importância que teve para mim, há mais de vinte anos, a notícia da Revolução de Abril, e do modo como as ideias mais sentimentais da minha adolescência sobre a liberdade perduram em mim associadas, e para sempre, a Portugal, às fotografias de carros de combate rodeados por multidões fervorosas, de soldados jovens com os punhos erguidos e cravos nas bocas das espingardas. (...) Em Setembro de 1973 Santiago do Chile tinha sido a nossa capital da dor; em Abril de 74 Lisboa converteu-s...

Uma Abelha na Chuva, Carlos de Oliveira (Editorial Caminho)

Imagem
     Uma abelha na chuva é um livro marcante, pela história, pelas personagens, pelas paisagens, pelo suspense, até. É um romance clássico, em ambiente neorealista.     E é também um retrato impiedoso de um país atrasado, rural, socialmente estratificado e puritano. A história acontece num curto período de tempo, cerca de três dias, e decorre na zona centro do país. Apesar das diversas personagens que povoam o livro, ocupam espaço central o casal Álvaro Rodrigues Silvestre e a mulher, D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, Jacinto, o cocheiro deles e Clara, filha do oleiro cego, o Mestre António.     Desde o nascimento da filha, o oleiro  embalava o sonho de sair da pobreza pela mão dela, através do casamento, razão pela qual não aceita o relacionamento desta com o cocheiro. É Álvaro Silvestre quem os denuncia, despeitado pelo que ouvira o cocheiro contar da sua mulher e porque « o ânimo impiedoso irrompia da sombr...

Timão de Atenas e Rei Lear, William Shakespeare (Relógio D'Água e Caminho)

Imagem
      A leitura da obra Timão de Atenas foi feita para a disciplina da Escrita para Teatro. Confesso que não conhecia esta obra de Shakespeare, considerada uma peça menor, pelo que fiquei surpreendida ao descobrir que já tinha sido levada a cena muitas vezes, mesmo em Portugal,  que H. Purcell  compôs uma ópera  e que Duke Ellington compôs igualmente a música Timon of Athens . Confesso também que não gostei particularmente de ler esta peça. Para além de me parecer uma obra fragmentada, dividida em duas partes, a história é pouco interessante. Mesmo o exercício de procura de um significado menos evidente ou menos óbvio para a peça e, sobretudo, para o próprio Timão, não tornou a peça mais apelativa.     Quando concluí a leitura, e por me parecer que a questão podia não residir na obra em si, mas na minha falta de hábito de leitura de peças de teatro, para mais de época, decidi ler o Rei Lear.      E, neste ...

Este tempo, crónicas, Maria Judite de Carvalho (Caminho)

Imagem
     Mais um livro de crónicas. Uma antologia de crónicas de Maria Judite de Carvalho organizada e prefaciada por Ruth Navas e José Manuel Esteves e editada em 1991. As crónicas foram publicadas em diversos jornais e revistas entre 1968 e o princípio dos anos 80. Ao contrário do que estava à espera, as crónicas mantém-se atuais na sua grande maioria, quer quanto aos temas, quer quanto à abordagem feita. Acresce ainda uma escrita perfeita, cuidada, poética por vezes.    Nestas crónicas, Maria Judite de Carvalho escreve sobre diversos temas, como o turismo, a publicidade, a língua portuguesa, a televisão e os computadores. Muitas das crónicas são sobre Lisboa:   « Às vezes acontece passarmos por uma rua onde não passávamos há um, há dois anos, e onde havia um bonito prédio antigo, com loja, com gato à janela, com varanda florida, e já não há prédio, só remendo gritante, violento, deserto à noite .» (O Jornal, 16-3-84)     « Por isso fico t...

O fiel defunto, Germano Almeida (Caminho)

Imagem
     Encontrei este livro por acaso. Um dia quase à meia-noite, esperava pelo João no aeroporto e entrei na loja (tabacaria?) que vende revistas, jornais e também alguns livros. Quando aguardo a chegada de alguém no aeroporto, passo quase sempre por lá e folheio sobretudo os jornais e revistas. Mas, desta vez, este livro chamou-me a atenção, pelo autor, pelo título e também pela sobriedade da capa. Há muito que não leio um livro do Germano de Almeida. Li as primeiras páginas deste e, felizmente, não li a última.          Já me aconteceu ler as primeiras páginas de um livro e depois a última. Saber como um livro acaba não me dissuade de o ler. Mesmo se se tratar de um livro policial, porque não tento adivinhar quem matou, quem roubou, enfim, quem tem a culpa. O que me seduz na leitura é o percurso que é feito, as personagens, as relações que estabelecem entre elas, ou seja, o que está entre o princípio e o fim do livro, sendo que estas pa...

A Confissão da Leoa, Mia Couto (Editorial Caminho)

Imagem
          O livro começa assim:     Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem  ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentado. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.       Um início extraordinário que o resto do livro não desmerece. Difícil foi parar de roubar frases, de as saborear. F...

Levantado do chão, José Saramago (Editorial Caminho)

Imagem
  Tenho para ler, pousados no baú do meu quarto, vários livros recentemente editados. As livrarias, as revistas, os jornais destacam sempre os livros acabados de publicar. Mesmo os prémios destinam-se a livros publicados no ano, deixando de fora todos os livros já com alguma pátina. Com exceção dos livros e autores premiados  ou que integram os programas escolares, os outros dificilmente conseguirão sobreviver alguns anos, escondidos pelos mais recentes nos escaparates das livrarias. Por isso faço um esforço para ir lendo, de quando em vez, ou mesmo relendo livros com alguma idade.     Levantado do chão, já teve muitas edições posteriores, mas esta que li, embora seja a 2ª edição, é de 1980, ano em que foi publicado. Já o tinha lido provavelmente na altura da edição, mas gostei muito de relê-lo. É um livro extraordinário que narra a vida difícil dos assalariados no Alentejo. A fome, a miséria, o desemprego, mas também a paixão, o amor e a solidariedade passam p...

Sete Teses sobre o Aborto, Miguel Oliveira da Silva (Caminho)

Imagem
    O Dr. Miguel Oliveira da Silva é médico obstetra e foi meu professor durante os anos que frequentei o curso de Medicina na Universidade de Lisboa. Foi também presidente do CNECV. Sempre gostei de o ouvir falar e, quando descobri este livrinho em casa dos meus pais, fiquei com curiosidade de o ler. Não temos, neste blogue, o hábito de fazer críticas de livros que fujam ao género Romance, mas há sempre uma primeira vez para tudo.     Este livro foi escrito com intuito de fazer uma reflexão sobre o tema a fim de esclarecer algumas questões antes do referendo de 2007 para a despenalização do aborto até às 10 semanas. Na altura não o li mas o tema continua (e continuará) a ser atual e alvo de debate e controvérsia, pelo que me pareceu interessante conhecer a perspetiva de um médico obstetra quanto ao assunto.     A haver referendo, julgo indispensável que os partidos políticos e movimentos cívicos que nele participem deixem bem claro o q...

Mulheres de Cinza, Mia Couto (Editorial Caminho)

Imagem
   "Mulheres de Cinza" é o Livro Um de uma trilogia moçambicana "As areias do Imperador". Fui com uma amiga ao lançamento na FNAC, em Lisboa. A poucos dias do aniversário do meu pai, fui decidida a comprar um exemplar para ele e outro para mim, autografados. A sala em que decorria o lançamento era pequena para acolher tanta gente, mesmo o écran, colocado no exterior da sala, de pouco servia, porque o vozear dos presentes impedia que ouvíssemos os intervenientes. Voltámos quando o lançamento já terminara e se formara uma fila enorme para conseguir o autógrafo do autor. Fizemos as contas distribuindo minutos pelas pessoas que se encontravam à nossa frente, receando que a espera se prolongasse por horas, mas o Mia Couto, acompanhado pelo seu editor, trocava algumas palavras com os leitores e rapidamente assinava e devolvia o livro. Saímos. Cada uma com os seus exemplares assinados.          O meu pai, no dia de anos, 3 de novembro, re...

Tudo tem o seu tempo, Ana Maria Magalhães (Caminho)

Imagem
     Uma amiga comum ofereceu-me este livro, ainda por cima com uma simpática dedicatória da autora, que tive oportunidade de conhecer brevemente há alguns anos.      Assina agora o primeiro volume desta autobiografia que decide iniciar quando se descobre doente e avó ( Um dia, porém, veio-me à ideia que, se realmente morresse, deixar uma autobiografia era a única maneira de criar laços entre nós as duas. Não a conhecia eu a ela, mas conhecer-me-ia ela a mim, e desse modo se estabelecia o diálogo.)     Tenho para mim que a convicção generalizada e comum de que a minha vida dava um filme - ou um livro - depende mais de quem a conta do que da vida que é contada. E neste caso a autora, mais conhecida como autora infanto-juvenil, sabe contar e prender os leitores, começando logo pelo título feliz " Tudo tem o seu tempo". Teve também a sorte de ter nascido numa família grande e generosa que lhe forneceu pessoas, paisagens e ex...

A Jangada de Pedra, José Saramago (Caminho)

Imagem
    No seguimento da leitura de autores com Prémio Nobel, não poderia deixar de ler Saramago. O meu único contacto com o autor português tinha sido a leitura (obrigatória) do Memorial do Convento. Na altura, em parte pela obrigatoriedade e limite de tempo, não apreciei particularmente a obra, com exceção das passagens de Baltazar e Blimunda.      Quando comecei a ler A Jangada de Pedra, fiquei boquiaberta. Durante as primeiras páginas, não conseguia parar de pensar que o homem era um génio da escrita! A maneira como brinca com as palavras, como usa e abusa da ironia e do tom jocoso, as frases de um paragrafo lidas de um fôlego só... Foi verdadeiramente uma experiência de ler simplesmente pelo bem escrever. E deu-me um grande gosto. Tenho muitas páginas com o canto dobrado, de passagens que gostei particularmente.     A narrativa começa com Joana Carda a riscar o chão com uma vara de negrilho, no norte de Portugal. Nesse mesmo momento, todos...

O pintor debaixo do lava-loiças, Afonso Cruz (Caminho)

Imagem
    Existiu mesmo um pintor debaixo do lava-loiças, na casa dos avós do escritor e foi esse o ponto de partida para esta história ficcionada e deslumbrante. Quando comecei a ler, veio-me à ideia Gonçalo M. Tavares, pela escolha da localização da história, mas à medida que fui lendo, tornou-se incontornável a associação ao Principezinho de Saint-Exupery. É-lhe aliás feita referência no título Em 1940 um aviador que pousou em Lisboa haveria de escrever: o essencial não se vê e, de alguma maneira, a descrição que faz da cidade quando o protagonista chega a Lisboa é coincidente com a constante de textos deste autor.    Ao contrário do principezinho, o protagonista desta história está atado à terra e vive os momentos dramáticos da 1ª Guerra Mundial nas tricheiras e o início da 2ª Guerra Mundial, passando por Bratislava, EUA e Portugal.    As personagens, descritas com traços largos, prendem-nos à leitura: a deslumbrante Frantiska, que enuncia regras qu...

E se Obama fosse africano? e outras interinvenções, Mia Couto (Editorial Caminho)o)

Imagem
   Mais um livro do Mia Couto, desta feita uma compilação de intervenções com o curioso título de uma delas " e se Obama fosse africano? ".     Não direi o que aconteceria se Obama fosse africano, mas quer esta intervenção, que dá o nome ao livro, quer as outras, são reflexões atuais e espantosas sobre o mundo de hoje, particularmente centradas em África, Moçambique e os moçambicanos. Espantosa a crónica " Os sete sapatos sujos" .    E se de facto a maioria das crónicas nos fazem reflectir sobre a pobreza, a cultura, a língua, a violência contra as mulheres, outras, ou partes de outras, são absolutamente hilariantes, como " o sim do não ". Segundo o autor, em determinadas zonas rurais, perante uma questão que solicite uma resposta dicotómica sim/não, é sempre dito sim. E assim a resposta dada a um inquérito conduzido pela televisão moçambicana que perguntava " Sente que a sua vida está a melhorar?" um cidadão respondeu " Está a melh...