O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy (Edições ASA II)

    Tudo neste livro é belo, desde a capa, à escrita, à história triste que nos traz. Antes de qualquer outra coisa, fui cativada pela escrita, tão diferente mas tão bonita, tão viva e rica nos seus detalhes, descrições e comparações. Depois, abandonei-me às personagens, cuja história fui tentando reconstruir à medida que o novelo de memórias era desfiado, misturando presente com passado, com histórias paralelas.
    Não concordo com a sinopse da contracapa. Não entendo este romance como «a história de três gerações de uma família da região de Kerala, no Sul da Índia, que se dispersa por todo o mundo e se reencontra na sua terra natal.» Para mim, é a história dos «gémeos biovulares», Rahel e Estha, que voltam com a mãe, Ammu, para a sua terra natal, sim, após o divórcio desta, situação que os torna indesejados na casa da família. E é, acima de tudo, a história de como num quente verão em que a sua prima, Sophie Mol, vinda de Inglaterra, morre, e dos acontecimentos que antecedem e que se seguem a essa tragédia, mudando para sempre as suas vidas e as de toda a família. 
    Sabemos desde as primeiras páginas que o enredo nos leva nessa direção, mas esse enredo é construído como um puzzle cujas peças vamos encontrando e construindo, por vezes unindo por completo uma secção inteira para, logo em seguida, sermos levados para o outro canto da imagem. Um livro que apetece recomeçar ao acabar, para conseguir, agora que todas as peças estão à mostra, ver a imagem inteira, com todos os seus pequenos detalhes.

    «As Grandes Histórias são aquelas que já ouvimos  e queremos voltar a ouvir. Aquelas onde podemos entrar e morar confortavelmente. Que não nos enganam com calafrios e finais acrobáticos. Que não nos surpreendem com o imprevisto. Que são tão familiares como a casa onde moramos. Ou o cheiro da pele de um amante. Sabemos como acabam, porém ouvimo-las como se não soubéssemos. Tal como, embora sabendo que um dia havemos de morrer, vivemos como se não o soubéssemos. Nas Grandes Histórias sabemos quem vive, quem morre, quem encontra o amor e quem não encontra. E, contudo, queremos saber de novo.»

     É também uma história sobre o impacto das normas e da discriminação social, como não poderia deixar de ser, pela mão da escritora e ativista Arundhati Roy.

    «O pai de Velutha, Vellya Paapen, era uma Paravá do Velho Mundo. Conhecera os Dias de Rastejar às Arrecuas e a sua gratidão a Mammachi e à sua família, por tudo o que tinham feito por ele, era imensa e profunda como um rio numa cheia. (...)
    Vellya Paapen temia pelo seu filho mais novo. Não sabia dizer o que os assustava nele. (...) Não era aquilo que ele fazia, mas o modo como o fazia.
    Talvez fosse apenas uma ausência de hesitação. Uma segurança não autorizada. (...)
   Embora fossem qualidades (...) desejáveis num Tocável, (...) num Paravá elas poderiam (iriam e, de facto, deveriam) ser entendidas como insolência.
    (...)
  Para manter os outros satisfeitos, e sabendo que mais ninguém o contrataria como carpiteiro, Mammaci pagava a Velutha menos do que pagaria a um carpinteiro Tocável, mas mais do que pagaria a um Paravá.»

    Gostaria ainda de celebrar esta tradução e edição. Para manter a beleza deste texto, mesmo na sua versão traduzida do inglês, diria que é necessário um dom especial. Parabéns por isso à tradutora Teresa Casal.

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