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Assassinato no Comité Central, Manuel Vásquez Montalbán (Quetzal)

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      Como já vem sendo habitual, em agosto tirei uns dias de férias para os gozar com os meus netos. O destino foi Peniche e as maravilhosas praias do Baleal, da Consolação e São Bernardo. Ignorava que a semana seria marcada pelo ainda furacão Erin, que fez hastear as bandeiras vermelhas e o mar galgar metros de praia. Mas mesmo assim, conseguimos aproveitar na maré baixa as pequenas piscinas que ficavam entre as rochas.     Antes de partirmos, quando fazia as malas, decidi substituir o livro Regressos quase perfeitos, memórias da guerra em Angola , que estava a ler, por este, Assassinato no Comité Central, que me parecia ajustar-se melhor à praia e aos curtos períodos de leitura que os miúdos me iriam permitir. Mas regressei com poucas páginas lidas. Logo no primeiro dia, depois do almoço, decidi oferecer-me uns minutos de leitura, enquanto o mais velho, que tem 5 anos, via desenhos animados, e a mais pequena, com 2 anos, se dedicava a pintar – na verdade, a ...

Dedico-lhe o meu silêncio, Mario Vargas Llosa (Quetzal)

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      Talvez todos os escritores sejam irregulares na escrita ou talvez sejam os leitores que oscilam na apreciação da sua obra, gostando de alguns livros e depreciando outros sem que haja uma verdadeira razão para tal. É o que sinto com a leitura de Mario Vargas Llosa: alguns livros, como A Festa do Chibo ou O Sonho do Celta ou ainda A Guerra do Fim do Mundo , são extraordinários, outros dececionaram-me, apesar de reconhecer em todos a qualidade da escrita. Dedico-lhe o Meu Silêncio fica a meio caminho entre uns e outros.     Toño Azpilcueta, o protagonista, acredita que é o melhor conhecedor e escritor de música e das danças populares peruanas. Um dia recebe um convite para ir ouvir tocar Lalo Molfino, apresentado como sendo o melhor guitarrista do Peru e talvez do mundo. E de facto, ouvi-lo tocar foi uma experiência única: «Tinha a sensação de que aquela música o trespassava, entrava no seu corpo e corria pelas suas veias juntamente com o seu sangue.»...

A zona de interesse, Martin Amis (Quetzal)

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         Depois de ter visto o filme A zona de interesse, de Jonathan Glazer, fiquei com curiosidade de ler o livro com o mesmo título, de Martin Amis, em que se baseou.      Tive a sorte da minha filha mo oferecer no passado Dia da Mãe. Confesso que enquanto lia, tive necessidade de me lembrar do filme, porque o livro é bastante mais complexo ou, sendo mais exata, são histórias distintas. A coincidência entre ambos – o livro e o filme – tem a ver com a localização da residência do Comandante Doll e respetiva família junto de um campo de concentração, durante a II Guerra Mundial. No filme, a mensagem principal – pelo menos foi o que retive – é a absoluta estranheza de uma vivência familiar trivial junto de um campo da morte. Um jardim repleto de flores onde brincam crianças enquanto ao lado, no campo da concentração, a chaminé vomita um fumo negro e espesso e se vislumbram figuras humanas esquálidas. No fundo, é a destruição da idei...

As Irmãs Soong, Jung Chang (Quetzal)

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    Desta autora, Jung Chang, li Cisnes Selvagens, provavelmente no ano em que foi editado em Portugal, em 2009. É um livro inolvidável. Aprendemos a história da China através da vida e dos olhos de três mulheres de três gerações, a avó, a mãe e ela própria, Jung Chang. Não li entretanto outros livros dela que foram traduzidos e editados em Portugal, mas não resisti a incluir este na lista de prendas do Pai Natal, que sabiamente correspondeu.     Também neste livro se trata da história de três mulheres, as irmãs Soong - as três irmãs de Xangai -. A mais velha, Ei-ling, tornou-se uma mulher riquíssima e ao longo da vida foi manipulando as pessoas, em especial a irmã mais nova, sempre em defesa da família. A segunda, Ching-ling, casou-se com Sun Yat Sen e teve depois lugar de proeminência durante o regime de Mao. A terceira, a irmã mais nova, May-ling casou com Chiang Kai-shek, nacionalista e que terminou por ser derrotado por Mao, passando a viver e a controla...

Babilónia, Yasmina Reza (Quetzal)

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  Conhecia esta autora apenas através do filme O Deus da Carnificina. No início das férias, comentava livros e autores com o meu irmão e apercebemo-nos que, embora os tivéssemos confundido inicialmente, estávamos a falar de autores diferentes. Enquanto ele falava de Yasmina Reza, eu falava de Yasmina Khadra e a conversa terminou com conselhos de leituras cruzadas. Poucos dias depois, quando visitava a Livraria de Santiago, em Óbidos , encontrei este livro que comprei e comecei a ler de seguida.     O início do livro lembrou-me muito o livro Mrs. Dalloway , de Virginia Woolf. Se em Mrs. Dalloway a ação decorre integralmente num dia, e à volta da preparação da festa que ocupa quase obsessivamente o pensamento de Clarissa Dalloway, também a primeira parte deste livro é ocupado com a preparação da festa da primavera, em casa de Elisabeth e Pierre, que nunca tinham feito nada do género, nem festa, nem convívio, muito menos de primavera. O que tinha começado por um peq...

Somos o esquecimento que seremos, Héctor Abad Faciolince (Quetzal)

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    O João trouxe este livro quando foi à Colômbia. Foi-lhe recomendado o autor, Héctor Abad Faciolince, e este livro em especial, que ele comprou na versão original , El olvido que seremos, mas que não consegui ler. Cativada pelo pouco que tinha lido, decidi comprar o livro em português Somos o esquecimento que seremos.     Sabemos logo ao iniciar o livro que se trata de uma homenagem ao pai do autor:     É um dos paradoxos mais tristes da minha vida: quase tudo o que escrevi foi escrito para alguém que não me pode ler, e mesmo este livro não é mais do que uma carta a uma sombra.            E duas folhas depois, nova dedicatória, desta feita uma citação de Yehuda Amijai:     E, por amor à memória, trago sobre o meu rosto o rosto do meu pai.     O livro está dividido em vários capítulos e partes e, através de uma quase autobiografia, o autor vai contando a his...

Receitas de Amor para Mulheres Tristes, Héctor Abad Faciolince (Quetzal)

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         Não sei como definiria este livro se tivesse de o fazer. É quase uma brincadeira, um jogo que o autor faz, misturando emoções e receitas que tanto podem ser receitas de cozinha, como esconjuros, feitiços, conselhos, consolos. Mas são uma graça que, sob a forma de prosa são, algumas vezes, verdadeiros poemas - talvez para essa leitura tenha contribuido a tradução de Pedro Tamen.      E se estas receitas se destinam a mulheres tristes, Héctor começa logo por realçar a importância de estar triste, retomando esta ideia ao longo do livro (o que é importante, pois com frequência encontramos esta rejeição da tristeza, nossa e dos outros):     " A verdade é que, muitas vezes, não há nada mais sensato que estar triste; todos os dias acontecem coisas, aos outros e a nós que não têm remédio, ou melhor, que têm esse antigo e único remédio de nos sentirmos tristes."     E a que se destinam as receita...

Portugal, A Flor e a Foice; J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

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         Portugal A Flor e a Foice foi escrito entre abril de 1974 e outubro de 1975, em cima dos acontecimentos, mas com a distância inerente  ao facto do autor ser um "estrangeirado". Não se limita, no entanto, ao período da revolução, vai mais fundo, desfazendo a História de Portugal que aprendeu na escola e que, tantos anos volvidos, em certa medida, ainda consta dos nossos compêndios. E que provavelmente não será um exclusivo português. Aliás, J. Rentes de Carvalho reconhece-o quando escreve "Hoje como ontem, os cronistas purgam a realidade, enfeitam-na com guirlandas de boas intenções e ideais, ao mesmo tempo que os fotógrafos das cortes e das presidências se põem de cócoras em busca do ângulo mais favorável".     Devo confessar que me diverti a ler estas passagens, que desconhecia ou de que me esquecera, sobre a nossa história e heróis a que não escapou a descrição de D. Sebastião com " o lado direito maior que o esquerdo ...

Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

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   Andava cheia de vontade de ler um livro deste autor cujo nome entrevi pela primeira vez espreitando a capa do livro que um passageiro do comboio lia, alheado de tudo o resto. Depois li várias referências à sua vida e obra o que aumentou a curiosidade e quando encontrei este livro numa livraria, confesso que não resisti ao  titulo "Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia".    É um livro que reúne um conjunto de contos. E já agora, quando é que os nossos editores começam a incluir a indicação que se trata de um livro de contos, seja na capa, na contracapa ou nas badanas dos livros?    Tenho de confessar que tenho alguma ambiguidade quanto aos livros de contos, por um lado é bom no dia a dia termos pequenos contos para ler, mas por outro lado, há sempre algum desapontamento quando ao fim de algumas páginas somos obrigados a abandonar precocemente as suas personagens.     O facto de desconhecer que se tratava de um livro de contos le...

Extremamente alto e incrivelmente perto, Jonathan Safran Foer (Quetzal Editores)

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    Li há uns anos este livro, que, segundo me lembro, também me foi recomendado pela Nélia.     Quando saiu o filme fiquei sobretudo curiosa: como seria possível transformar este livro num filme? Receei que o realizador utilizasse os elementos óbvios da narrativa, numa forma demasiado linear: a morte do pai no 11 de Setembro, o isolamento do filho, a dificuldade de comunicação entre mãe e filho...    Mas o filme é um deslumbramento, respeita a narrativa mas recria-a e reconta-a através da magia da imagem. Tenho pena de ter perdido o filme num grande écran e no silêncio de uma sala de cinema (ainda há algumas salas silenciosas, sem pipocas...) mas mesmo no écran reduzido do televisor é um deslumbramento. A procura da fechadura onde caberá a chave que Oskar pensa que o pai lhe deixou, leva-nos numa viagem pelas pessoas e pelas ruas de Nova Iorque ao encontro da familia que lhe resta. Fica aqui o trailer : *** Quero ler este livr...

A Fita Vermelha, Carmen Posadas (Círculo de Leitores - Quetzal)

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    A Fita Vermelha é um livro arrebatador. Escrito na primeira pessoa, por Teresa Cabarrús, a pedido da sua filha mais nova que o conclui, leva-nos pelas ruas de Paris e Bordeús durante os anos da Revolução Francesa.    Teresa, de origem espanhola, vai para França para encontrar marido. Ainda nova (adolescente pelos padrões actuais), casada e já mãe, vive a violência após a tomada da Bastilha e foge para Bordéus. Pouco depois, Bordéus, como outras cidades da província, recebem emissários de Paris, decididos a pôr termos aos contra revolucionários. Teresa tem um papel activo logo em Bordéus, salvando muitas pessoas da guilhotina. Mais tarde, regressada a Paris, é encarcerada e prepara-se para a guilhotina quando é salva pelo amante Tallien que, para a salvar e instigada por ela, consegue condenar Robespierre à morte.     É na prisão que conhece Rosa que passou à história como Josefina, mulher de Napoleão.    A proximidade do poder...

O sonho do Celta, Mario Vargas Llosa (Quetzal)

"O sonho do Celta" relata a história de Roger Casement, nascido no final do século XIX, de pai inglês e mãe irlandesa. Cônsul britânico primeiro no Congo, depois na Amazónia peruana, em ambos os locais denuncia as atrocidades cometidas contra os indígenas na exploração da borracha. O livro decorre entre os últimos dias que passa na prisão, antes de ser executado e à espera de uma possível comutação da pena, e a vida no Congo e em Putumayo (Peru), o regresso a Inglaterra e o seu reencontro com as raízes culturais e religiosas irlandesas. É nessa altura que defende que qualquer acção pela independência da Irlanda teria de ser articulada com a Alemanha que se encontrava então em guerra (I Guerra Mundial) com a Inglaterra. É preso quando desembarca em Inglaterra e o prestígio que tinha (o seu relatório sobre as atrocidades cometidas no Peru foi publicado pelo parlamento britânico e foi-lhe atribuído o título de Cavaleiro) não o salvou da execução. Para isto contribuiu quer o fac...