Meu Abrigo, Minha Tempestade, Arundhati Roy (Bertrand)

 

Meu Abrigo, Minha Tempestade
    Meu Abrigo, Minha Tempestade é um livro autobiográfico que a a morte da mãe leva Arundhati Roy a escrever sobre si, e a refletir sobre a forma como a relação com a mãe a estruturou. Sempre me surpreendeu o número de livros dedicados aos pais em contraponto com o menor número dos dedicados às mães  dos autores. Cheguei mesmo a elaborar listas de uns e de outros e a inventar justificações para esta diferença. A que me pareceu mais próxima da realidade é a que resulta do facto de as mães normalmente ficarem ao pé dos filhos e não serem conhecidas para além da estreita fronteira da família e conhecidos. A vida delas ser feita de rotinas e proximidade. A ausência de mistério das mães.
    Este livro de Arundhati Roy de alguma forma valida a minha justificação, pese embora nunca ter vivido com o pai, é sobre a mãe, de quem se afastou, e que foi uma figura pública, que ela escreve. A mãe que abandonou o marido e ficou sozinha com os filhos, lutou pela revogação de uma lei sucessória que prejudicava as mulheres e que a privava de herança e abriu uma escola. Como a Autora refere, teve de se afastar da mãe para poder continuar a amá-la. Na relação ambígua que mantém com ela, descreve-a como uma chama ardente de coragem e rebeldia para as mulheres de Kottayam, especialmente para as suas alunas, ao contrário do que acontecia com a filha:
    "No que me dizia respeito, Mrs. Roy ensinou-me a pensar e depois enfurecia-se com os meus pensamentos. Ensinou-me a ser livre e enfurecia-se com a minha liberdade. Ensinou-me a escrever e ressentiu-se com a autora em que me tornei. " (pg. 95)
    Mais à frente, escreve:
   "Era este o poder que ela sempre tivera sobre mim. Conseguia despedaçar-me o coração e colá-lo, também. Num estalar de dedos!" (pg. 156). 
    Sintomático da relação entre as duas ocorre quando Arundhati vai conhecer a casa nova da mãe e descobre que não tinha espaço algum para a filha, embora tivesse para as pessoas que trabalhavam com ela e os seus alunos. Percebe então que a mãe estava completa sem ela, mas ela estava incompleta sem a mãe.
    De Arundhati Roy, li há muitos anos (tantos que nem registei a leitura no blogue) O Deus das Pequenas Coisas (Ver aqui a recensão da Sofia) e mais tarde O ministério da felicidade suprema. Gostei muito de ambos. Não procuro - nem sei - classificar um livro, mas gosto da forma como ela entrelaça a vida com as histórias que conta e como se mantém coerentemente ativista de diversas causas. O que também acontece neste livro. Para isso teve de encontrar a sua voz, o seu animal língua, como se lhe refere:
    "Uma língua que eu usasse, não uma língua que me usasse a mim. (...) Soube então que tinha caçado o meu animal-língua. Dissequei-o e bebi-lhe o sangue de tinta. Soube que, se conseguisse descrever o meu rio, se conseguisse descrever a chuva, se conseguisse descrever o sentir de uma forma que se pudesse ver, cheirar, tocar, então considerar-me-ia escritora." (pgs. 148 e 209)
      Inquestionavelmente conseguiu-o. É uma escritora. No meio da descrição da relação com a mãe, da sua vida enquanto estudante e, mais tarde, enquanto guionista, escritora e ativista, da vida e das lutas que acompanha e promove -  contra a violação das mulheres ou contra a construção de barragens - há uma escrita belíssima, a lembrar por vezes o realismo mágico de alguns escritores sul-americanos:
    "Estava uma noite límpida e bonita. Passámos por uma carroça puxada por um búfalo com uma lanterna presa atrás a servir de luz traseira. O condutor ia deitado de costas, a cantar para as estrelas, confiante de que o búfalo o levaria a casa. Lembro-me de sentir inveja dele. Lembro-me de pensar que, por mais que lutássemos, na Índia nenhuma mulher, de qualquer religião, classe, casta ou credo, se sentiria alguma vez suficientemente segura para cantar para as estrelas numa estrada deserta enquanto o seu búfalo a levava a casa." (pg. 208)  

    Como refiro a propósito da leitura de O ministério da felicidade suprema, percebi o grande desconhecimento que tenho relativamente à Índia ou, como se lhe refere Arundhati Roy, ao subcontinente indiano, contudo, apesar da distância que nos separa, também eu era adolescente quando o filme Jesus Christ Superstar estreou e sabia todas as músicas de cor. Um elo feito de música, bem como de livros e de autores de que fala.
 

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