quarta-feira, 25 de abril de 2018

O ministério da felicidade suprema, Arundhati Roy (Asa)

 
    Não sei o que dizer sobre este livro. Comecei a lê-lo e fiquei imediatamente presa pela história, pelas personagens, pelos seus percursos. Cada vez que pegava nele, essa sensação renascia, mas muitas vezes acompanhada do sentimento de perda por algumas personagens que desapareciam, desconhecendo que iriam reaparecer mais à frente. E são quase todas personagens fascinantes, às quais ficamos amarrados.
  
    Penso que senti este mesmo tipo de fascínio com alguns livros e personagens de Gabriel Garcia Marquez, mas não ousaria falar em realismo mágico neste caso, porque a realidade das pessoas aqui retratadas é na maioria dos casos dilacerante. Se houver magia é nas personagens, na forma como se relacionam, protegem e sobrevivem. Como disse a autora, este livro é sobre aqueles que foram postos fora do sistema (...)  excluídos. E que conseguiram juntar-se, como peças perdidas de um puzzle, num certo lugar de relativa felicidade. Há felicidade nos lugares mais estranhos e inesperados. E, por mais frágil que seja, tem a sua integridade. (Entrevistada por Luciana Leiderfarb, a propósito da publicação desta obra, Expresso a 13.08.2017)
    
    Ao longo da leitura percebi o grande desconhecimento que tenho relativamente à Índia ou ao subcontinente indiano, como se lhe referiu Arundhati. E com este livro mergulhamos de repente, sem esperar e sem aviso, nos conflitos entre indianos, paquistaneses e caxemirenses, agravados por nacionalismos diversos e castas, numa intrincada rede que temos dificuldade em seguir e situar-nos. A dificuldade é ainda aumentada pela utilização de palavras ou expressões não traduzidas ou referências não explicadas ou contextualizadas pelo editor ou tradutor.

    O livro é de uma violência imensa, desde as descrições de torturas a assassinatos por razões que nos parecem totalmente absurdas, mas no meio deste horror, as pessoas encontram espaço e tempo para se amarem, para se ajudarem e até para escolherem manter viva a criança nascida na sequência de tortura e violações. O livro fala na felicidade mas penso que é sobretudo um livro sobre a esperança, esperança num futuro em que todas estas questões estejam ultrapassadas, daí a importância, centralidade e proteção dadas à Menina Jebeen a Segunda.

    Não é uma leitura fácil, pela dimensão, pelo horror de muitas das histórias, pelo desconhecimento que temos daquela parte do mundo, e penso que o livro também evidencia o tempo que a autora o levou a escrever e a vontade de nele relatar histórias e personagens que tinha conhecido ao longo de vinte anos do seu ativismo, mas é, indiscutivelmente, um livro a não perder.

    Acabei de o ler, mas penso que precisava de o ler de novo para o captar na sua totalidade.

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