Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Leya

A morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstoi (Leya, SA)

Imagem
   Nos últimos meses li várias referências a este livro. A que mais me impressionou foi a menção que lhe é feita por João Lobo Antunes numa entrevista ao Expresso (publicada a 24 de dezembro de 2015). Curiosamente, o prefácio desta edição é de António Lobo Antunes que o descreve como fazendo o retrato implacável da nossa condição: não há sentimento que nele não figure, não há emoção que não esteja presente.     Acabei de o ler e voltei ao início, porque senti que não tinha conseguido apreendê-lo na totalidade. E lido uma segunda vez, volto a sentir o mesmo. Há um quase paradoxo entre a dimensão do livro (não chega a ter cem páginas) e a imensidão e profundidade das questões tratadas. Fala da morte, é sabido. O título denuncia-o. Mas trata  igualmente da vida, da forma como vivemos quando a morte não está nos nossos horizontes e depois, perante a morte, como se reduz e fica condicionada no tempo e no espaço.  ( Não é possível que a vida seja assim ...

O traficante de armas, Hugh Laurie (Caderno, Leya)

Imagem
    O autor de "O traficante de armas", Hugh Laurie, é o famoso ator que deu vida ao Dr. House, da série televisiva homónima. Quando me falaram do livro, enalteceram o humor irónico tão caraterístico do ator/autor que nos leva a reconhecê-lo ao longo das páginas (escritas na primeira pessoa), pese embora não tenha qualquer relação com a série nem com medicina.     Thomas Lang é um ex-militar que é abordado por um desconhecido que quer contratar os seus serviços como assassino. Escandalizado e preocupado, Lang não só recusa, como tenta avisar a vítima. Vê-se então enredado numa teia de conspirações, envolvendo o tráfico de armas, da qual não tem como sair, sobretudo porque se apaixona pela filha da vítima.     Estive no hospital durante sete refeições, não sei bem a quanto tempo isso corresponde. Vi televisão, tomei analgésicos, tentei fazer todas as palavras cruzadas incompletas nos últimos números da Woman's Own . E fiz muitas pergu...

Inês de Portugal, João Aguiar (Leya BIS)

Imagem
    Fiquei alguns dias sem ler, ou por outra, sem me apetecer pegar num livro e ler, pelo que substitui livros por jornais, revistas, rótulos, bulas... Mas quando acabamos um livro excecional como Stoner, precisamos de um minuto de silêncio que se pode estender por horas, dias ou mesmo semanas. Os livros que me aguardam desarrumados em cima da arca no meu quarto ou na minha mesinha de cabeceira não me suscitavam a menor curiosidade. Foi neste estado de espírito que encontrei, por acaso, este livro à venda numa estação de correios e resolvi comprá-lo.      Lembro-me que há já alguns anos participei numa reunião - penso que em Copenhaga - e ao fazer conversa de ocasião com a pessoa que ficou ao meu lado, no transporte entre o local da reunião e o hotel, ao saber que eu era portuguesa, perguntou-me que personagem tínhamos dado ao mundo e exemplificou com Robin Hood, D. Quixote, Joan of Arc, Romeu e Julieta, referindo que podiam ser personagens de fic...

Gente feliz com lágrimas, João de Melo (Leya, SA)

Imagem
        O título deste livro é belíssimo. Há muito que alimentava a vontade de o ler devido sobretudo ao título. Foi uma feliz coincidência tê-lo lido depois de uns dias passados nos Açores, com a recordaçao ainda presente da neblina, do mar, das ilhas, das vacas, das hortênsias e das criptomérias. E com a lembrança da igreja, omnipresente. Quando foi pubicado em 1988 foi considerado um romance inovador na estrutura, mas penso que ainda o é. Apresenta-se dividido em cinco livros.      O livro primeiro, O tempo de todos nós , tem um capítulo inicial com o título Um qualquer de nós . Os restantes capítulos deste livro são narrados à vez pelo Nuno Miguel, Maria Amélia e Luís Miguel, irmãos mais velhos de nove filhos sobreviventes.  Neles apresentam-se na primeira pessoa do singular, mas como se falassem com alguém, eventualmente um entrevistador ou um biógrafo. Não contam realidades distintas, mas visões pessoais de uma infância ...

Desgraça, J.M. Coetzee (Leya - Bis)

Imagem
     Outro dos livros do curso online .    Vencedor do Man Booker Prize em 1999 e Prémio Nobel da Literatura em 2003, foi o único livro de Coetzee que li.     O livro segue David Lurie, um professor de Comunicação da Universidade Técnica de Cape, na Cidade do Cabo. Tem 52 anos e uma paixão na vida: mulheres. Quando se envolve com uma aluna e ela apresenta queixa, David é convidado a demitir-se, apesar das tentativas de ajuda dos seus colegas.      «O crânio e depois o temperamento: as duas partes mais duras do corpo.»   Vai viver com a sua ilha, Lucy, na propriedade desta em Grahamstown. A sua vida e até a sua atitude perante ela mudam substancialmente, sobretudo depois de um incidente de absoluta violência que recai sobre ambos.     A relação que tentavam restabelecer como pai e filha, vivendo juntos, mas ambos na idade adulta, desmorona-se.      «- Então ajuda-me. Trata-se de alg...

O teu rosto será o último, João Ricardo Pedro (LeYa)

Imagem
    " Sei por experiência, que quando um livro causa sensação convém esperar um ano antes de tomar conhecimento dele. É surpreendente a quantidade de livros que, ao cabo, nos dispensamos de ler ". Somerset Maugham     Esta frase, lida num livro de contos do Somerset, reforçou a minha convicção de que deveria deixar os livros envelhecer nas prateleiras das livrarias, desaparecer das críticas literárias, para então decidir se os leria ou não.     Mas a minha convicção esboroou-se rapidamente com a leitura das primeiras páginas de "O teu rosto será o último", como já antes vacilara face ao título e à capa, ambos lindíssimos.    Li-o quase obsessivamente, acompanhando o desfile de personagens que acompanham as duas gerações (avô e pai) que antecedem Duarte, o protagonista principal, tendo como cenário a nossa história, desde o Estado Novo até aos nossos dias.      A escrita é fluente e, no geral, quase p...

A sombra do vento, Carlos Ruiz Zafón (Leya, SA)

Imagem
    A sombra do vento são vários livros num só, romance, romance histórico, policial. E são várias histórias que se cruzam por causa do amor aos livros. O livro, cuja história se desenrola na primeira metade do século XX, em Barcelona, inicia-se com a visita de Daniel ao Cemitério dos Livros Esquecido. O pai de Daniel levou-o numa madrugada, para o compensar do pesadelo que tivera e das saudades que sentia da mãe que morrera há pouco.     O Cemitério dos Livros esquecidos destina-se a perpetuar os livros. Neste lugar, os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito. Na loja nós vendemo-los e compramo-los, mas na realidade os livros não têm dono. (...)O costume é que a primeira vez que alguém visita este lugar tem de escolher um livro, aquele que preferir, e adoptá-lo, assegurando-se de que ele nunca desapareça, de que permaneça sempre v...

A Trança de Inês, de Rosa Lobato de Faria (LeYa BIIS)

Imagem
    Foi a minha vez de me estrear com Rosa Lobato de Faria. Simplesmente divino. Enquanto a história pode ser um pouco perturbadora é, sem duvida, arrebatadora e não conseguia parar de ler. A tragédia de Pedro e Inês transversal a Três épocas em tudo distintas, uma escrita divina, belíssima! Aqui ficam uns excertos:     Ouço passos e uma voz de mulher, autoritária, desconhecida, ecoa como se estivéssemos numa sala enorme e vazia.     - Já cumpriu três vidas?     - Já cumpriu, responde outra mulher.     - Que épocas lhe deram?     - De 1320 a 1367. De 1963 a 2006. De 2084 a 2105.     - Coitado. Era difícil conseguir pior.     Accionaram um dispositivo qualquer e o meu corpo, equilibrado numa maca estreita, sai para a luz.     - Que belo homem. Como é o nome dele?     - Pedro.     - Destino?   ...