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Os nomes de Feliza, Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara)

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    E mprestaram-me este livro de que não sabia a história. Não conhecia, nem sequer tinha ouvido falar de Feliza Bursztyn, uma escultora, filha de um casal judeu expatriado na Colômbia e que morreria com pouco mais de 40 anos, em Paris, onde estava exilada.     Feliza - que os pais batizaram Felicia, depois de ponderarem chamar-lhe Feigele, que em iídiche quer dizer passarinho - escolheu este nome, na adolescência, porque "era rebelde, é verdade, mas também feliz." Foi isto que a mãe escreveu sobre o nome da filha após a sua morte.     Feliza morre inesperadamente, em 1982, num restaurante em Paris, onde estava acompanhada pelo marido e mais quatro pessoas, uma das quais era Gabriel García Márquez que, poucos dias depois, publicou um artigo no qual dizia que ela tinha morrido de tristeza. Por causa destas palavras, Juan Gabriel Vásquez investiga a sua vida e explica a Pablo, o viúvo de Feliza:      "Porque morreu de tristeza (...) É is...

O perfume das flores à noite, Leila Slimani (Alfaguara)

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    Há qualquer coisa nesta capa que me atraiu imediatamente. Uma imagem difusa, escura, na qual se destacam as pernas em andamento de uma mulher, escondidas a partir dos joelhos por um tecido branco. Uma mulher caminha descalça na noite. Percebemos depois que representa a noite que a autora passou no Museu Punta della Dogana, em Veneza.    O convite foi feito pela editora, Alina Gundiel, no âmbito de um projeto que deu origem à coleção “A minha noite no museu”. Há já vários volumes publicados nesta coleção, envolvendo sobretudo escritores e museus de França, mas também de outros países, como Líbano, Itália, Espanha ou Grécia. Nenhum autor ou museu português, o que lamento. Imaginei logo uma noite no Museu do Chiado ou no Museu Nacional de Arte Antiga.     A ideia é que o escritor explore o sentimento de solidão provocado pela noite de isolamento e escreva um livro nela inspirado. Leila Slimani quer recusar o convite ou qualquer outro convite que lhe seja f...

O caderno proibido, Alba de Céspedes (Alfaguara)

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    Mais um livro que recebi no final do ano passado, entre o Natal e o meu aniversário, e que permaneceu até há dias empilhado entre outros livros na secretária que herdei da minha mãe. Não os vou lendo pela ordem porque estão empilhados, mas muitas vezes começo a ler um livro apenas porque é o que está no topo. Mas O caderno proibido era o livro do mês de novembro do Clube de Leitura da Almedina, dinamizado pelo Paulo Faria, e foi o pretexto para o começar a ler. E quando começamos a ler O caderno proibido, difícil é parar ou interromper, ainda que por breves momentos, a leitura.     Descubro depois que foi publicado em 1952 e redescoberto recentemente, já após a morte da sua autora, Alba de Céspedes, em 1997. Um pouco como Stoner , de John Williams, publicado em 1965 e resgatado do esquecimento volvidos cerca de 50 anos, sendo então traduzido para francês e depois para outras línguas. E nestes dois casos interrogo-me sobre o que faz um bom livro? O que faz um livr...

Os informadores, Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara)

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      Começo por confessar a minha irritação com a maior parte das frases que constam das cintas que envolvem as edições de alguns livros. Muitas vezes nem sequer têm autoria, limitando-se a remeter para um jornal estrangeiro, de preferência americano.  Neste caso, a cinta que envolve a segunda edição de Os informadores , cita Paulo Portas: « Se existir uma possibilidade de haver um novo Gabriel Garcia Márquez, é Juan Gabriel Vásquez. »      Parece-me que, para além da coincidência parcial do nome, só os une a nacionalidade. O estilo e a temática de um e de outro nada têm em comum.     Os informadores é um livro sobre a memória, individual e coletiva, e sobre a culpa ou sobre o poder. Gabriel Santoro, que tem o mesmo nome de seu pai,  decide escrever um livro baseado nas memórias de Sara Guterman, uma amiga da família, a que dá o título Uma Vida no Exílio . Depois de o escrever e publicar, nada voltou a ser como antes entre ele e o pai....

Tudo isto é Sarah, Pauline Delabroy-Allard (Alfaguara)

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    A pilha de livros que recebi entre o Natal e o meu aniversário continua grande e titubeante na primeira (ou será a última?) prateleira da estante de livros, que está no que antes era o quarto da minha filha e que agora designo de «meu escritório». Apesar da designação - e da função – é também o quarto dos brinquedos dos meus netos. Na estante da direita acumulam-se os livros deles, herdados da mãe e dos tios. Na estante da esquerda estão os livros por ler ou que quero perto de mim.     “Tudo isto é Sarah” estava no topo dos livros e, sem sequer o folhear ou ler o resumo na contracapa, comecei a lê-lo. É um livro inquietante, o relato de uma paixão violenta que derruba tudo à sua volta. Duas mulheres apaixonam-se sem que antes tivessem vivido relações com outras mulheres. Sabemos pouco sobre quem nos conta a história, a não ser que é professora e mãe solteira, porque o pai da criança desapareceu sem avisar. «Sou mãe de uma criança perfeita, professora de alunos n...

Em tudo havia beleza (Ordesa), Manuel Vilas (Alfaguara)

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  Em tudo havia beleza foi um dos poucos livros que comprei na Feira do Livro deste ano. Não conhecia o autor, Manuel Vilas, mas confesso que gostei do título, da capa e da dúvida que a palavra «Ordesa» entre parênteses introduzia. Li, ainda antes de o comprar - na fila para a caixa -, as folhas iniciais que reforçaram a minha vontade de o ler.   É um livro autobiográfico, de balanço, particularmente tocante para quem, como ele, ultrapassou as cinco décadas de vida:     «O passado de qualquer homem ou mulher com mais de cinquenta anos transforma-se num enigma. É impossível resolvê-lo. Resta apenas apaixonarmo-nos pelo enigma . » (pg. 83)     É nessa altura da vida que, em regra, somos confrontados com a proximidade da morte, mas também com a solidão resultante de várias perdas. Como escreve logo na primeira página:     « (...) Foi então que voltei a pensar no meu pai. Porque pensei que as conversas que tivera com o meu pai eram a única coisa...

O Livro dos Baltimore, Joel Dicker (Alfaguara)

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    Uma amiga que viveu alguns anos em Bruxelas, trouxe-me vários livros de autores franceses ou traduzidos para francês para ir treinando a leitura. Entre os livros estava este de Joel Dicker, que conheço através da série A Verdade sobre o caso Harry Quebert . Depois de ter visto os 10 episódios, obsessivamente, não fiquei com vontade de ler o livro, porque o elemento chave é o suspense, pelo que a leitura posterior perde interesse. O livro, editado entre nós pela Alfaguara, ganhou o Grande Prémio do Romance da Academia Francesa de 2012 e o Prémio Goncourt des Lycéens do mesmo ano.      Quando li o prólogo d' O Livro dos Baltimore fiquei logo enredada na leitura. Como li nalgumas críticas, é um page turner . Confesso que odeio esta mania de utilizar expressões inglesas, tão frequente sobretudo entre os jovens, mas neste caso, em particular, não consigo encontrar uma tradução adequada. Dizer que é um romance envolvente pode significar muito mais do que...

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert. Joël Dicker (Alfaguara)

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    Comecei a ler este livro porque vi os primeiros episódios da série , que me estava a prender, mas que, infelizmente, não consegui terminar. Além disso, se a série estava interessante, o livro devia ser espetacular! Isto porque nas adaptações televisivas há sempre pormenores que não cabem e que só temos acesso se lermos a história original.      Assim que o comecei a ler, ouvi todo o tipo de opiniões: «o livro é espetacular», «o livro é uma desilusão», «o livro está a fazer imenso sucesso», «o livro é muito pobre», «se gostas da série, dizem que o livro está muito bom!», «esse livro?, a meio já tinha percebido tudo... só li o fim para confirmar»... O que ainda dá mais vontade de ler! Quanto mais não seja, para formar uma opinião. E formei-a. Adorei o livro por duas coisas em particular: a história e o foco sobre o processo da escrita.     Quanto ao primeiro ponto, gostei imenso das mil e uma reviravoltas em que o leitor é apanhado, mas, acim...

Berta Isla, Javier Marías (Alfaguara)

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    Andava cheia de vontade de ler este livro, mesmo antes do Diogo mo oferecer. Mais uma vez ele acertou em cheio. Era a capa - lindíssima - e o resumo na contracapa que me atraíam:     « Berta Isla é a história de uma mulher que espera e se transforma. A história de um amor imperfeito, como o são todos.»     E se o início não desmereceu a expetativa, confesso que a meio do livro fui arrastando a leitura, até aos últimos capítulos que, de novo, me entusiasmaram, mas aqui mais pela história que pela escrita.     É  uma versão dos tempos modernos do Coronel Chabert do Balzac, livro que, curiosamente, ele também refere em Os enamoramentos . Mas em Berta Isla, ao contrário de outras adaptações, a maior parte do livro é dedicado ao período que antecede o regresso, ou seja, ao período do afastamento, da dúvida, do desconhecimento do destino do outro.     A sensação que tive é que a escrita é muito mais interessa...

Aqui estou, Jonathan Safran Foer (Alfaguara)

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   De Jonathan Safran Foer li os dois romances anteriores, Está tudo iluminado e Extremamente alto e incrivelmente perto .  São ambos livros mágicos, pela história, pela escrita, pelas personagens. Pela originalidade. Livros que não se esquecem. Ambos deram origem a filmes também fantásticos. Surpreendentes até pela forma como foram transpostas para a tela as duas histórias. Um desafio que, particularmente no caso do Extremamente alto e incrivelmente perto , me parecia impossível de concretizar. Jonathan Safran Foer fez-nos esperar por este novo livro alguns anos, foi por isso com imensa expetativa que o recebi (foi a prenda de Natal dos meus filhos) e o passei à frente dos livros que aguardam que os leia. Quase 700 páginas depois confesso o meu desapontamento. Tem momentos excelentes que nos lembram os dois livros anteriores, mas são esporádicos. Apesar de ter lido numa entrevista ao autor que este recusa o carácter autobiográfico do livro, não o consigo en...

Tudo é Possível, Elizabeth Strout (Alfaguara)

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    Foi com satisfação que, pouco depois de ler O Meu Nome é Lucy Barton , fiquei a saber que seria publicado um segundo livro. Quando terminei de ler o primeiro livro, senti-me perdida, porque queria continuar ali, naquele mundo de Lucy e da mãe e conhecer mais sobre elas e sobre as personagens sobre as quais falavam, evitando falar de si mesmas.     Este segundo livro, Tudo é Possível, explora precisamente isso: cada capítulo é como se fosse um conto individual, seguindo uma personagem em específico de entre aqueles que, num momento ou noutro, passaram pela vida de Lucy. Entretanto, além de Lucy, existe sempre alguma ligação entre as histórias, porque as personagens se conhecem ou cruzam de alguma forma, o que é interessante. Tive, portanto, parte do meu desejo satisfeito. Pude conhecer melhor estas personagens, aparentemente aleatórias nas aventuras que a mãe de Lucy lhe ia contando.     « Ouve! A mãe de Lucy Barton era horrível com ela, e o pai....

Canção doce, Leila Slimani (Alfaguara)

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        Canção doce é um livro muito perturbador e de uma enorme violência. Logo na contracapa lemos o resumo e ficamos a saber a história. Myriam, mãe de duas crianças pequenas chega a casa mais cedo para surpreender os filhos que estão com uma ama. E o livro começa assim:     O bebé morreu. Bastaram alguns segundos. O médico garantiu que ele não sofreu. Deitaram-no dentro de um saco cinzento e fizeram deslizar o fecho de correr sobre o corpo desarticulado que boiava no meio dos brinquedos. Quanto à menina, ainda estava viva quando chegaram os serviços de emergência.    Não é um livro de suspense no sentido clássico, pois sabemos logo no início o drama que se vai abater sobre aquela família e de quem é a responsabilidade. E se o livro começa justamente pelo fim, percebemos que o importante é  o caminho que é feito até àquele momento. Os passos dados, os sinais ignorados que conduziram àquele desfecho. Mas o t...

Manual para mulheres de limpeza, Lucia Berlin (Alfaguara)

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      O meu irmão ofereceu-me este Manual para mulheres de limpeza de que já tinha ouvido e lido críticas muito positivas. Comecei a lê-lo depois de abandonar alguns livros que tinha iniciado mas que não me apeteceu acabar. Sei que é um direito que me assiste mas que resisto a utilizar sobretudo quando se trata de livros de autores de que gosto. Vou insistindo, lendo diariamente mais umas páginas até que o substituo por outro. Este livro deu-me o álibi perfeito para abandonar aquele que estava a ler: comecei e não consegui largá-lo mais.      Antes de começar a ler os contos, li o Prefácio de Lydia Davis, a introdução de Stephen Emerson, que seleccionou os contos, e a nota final sobre a vida de Lucia Berlin. Este conjunto de textos permitiu-me contextualizar, perceber e sobretudo apreciar mais os contos que li depois, pela ordem que são apresentados.      É a primeira colectânea de contos que leio em que não fico desiludida com o fim...

O meu nome é Lucy Barton, Elizabeth Strout (Alfaguara)

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    Gostei muito deste livro. Li-o num dia! Num dia de trabalho. Foi um daqueles livros que, cada minuto disponível, consumi-o com a leitura. É um livro muito simples e bonito. Aliás, creio que é a sua simplicidade que lhe confere a beleza.     A história é narrada por Lucy Barton que, na sequência de uma operação ao apêndice, tem de ficar nove semanas internada no hospital, por uma infeção que os médicos não conseguem localizar.     Durante este período, a mãe de Lucy aparece uma noite, e fica outras quatro ao lado da filha. Havia anos que não se viam e mal se falavam. Ao longo dessas cinco noites e quatro dias, a mãe de Lucy mantém-se sentada no cadeirão ao lado da cama da filha, recusando a maca que as enfermeiras se oferecem para disponibilizar, e fala-lhe de vários casamentos falhados de amigos e conhecidos. Lucy recebe estas histórias com grande alegria no coração, por ter a sua mãe a seu lado, enquanto luta por sufocar tudo aquilo que levou ao...

Submissão, Michel Houellebecq (Alfaguara)

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  Tinha grande expetativa quanto a este autor e, em particular, quanto a este livro. Talvez por isso me tenha desiludido tanto. A história é conhecida. Em 2017 é reeleito em França um presidente de esquerda num país cada vez mais abertamente de direita. É então criada a fraternidade muçulmana. Fala-se de uma eventual guerra civil entre os imigrantes muçulmanos e as populações autóctones, embora as pessoas estejam cansadas de ouvir falar em violência. Cinco anos depois, em 2022, a federação muçulmana (que não tem a ver com os jiadistas) alcança a segunda posição nas eleições e o partido socialista entra em negociações para manter a direita afastada do poder.     O narrador é professor universitário, especialista em Joris-Karl Huysman. Refere a dado passo que (...) gostar de um livro é antes de mais gostar do seu autor, desejar estar com ele, ter vontade de passar os dias na sua companhia. Para além deste acompanhamento, há um paralelismo que ao longo do livro...

Biografia involuntária dos amantes, João Tordo (Alfaguara)

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    Comprei este livro na Feira do Livro numa tarde em que o João Tordo se encontrava no stand da editora. Tinha alguma curiosidade de ler este autor, devido a algumas críticas que tinha lido mas também na expetativa de saber como escrevia o João, que conhecia há muitos anos através das palavras de Ary dos Santos cantadas por Fernando Tordo.     E começo por referir que o João é um digno herdeiro desse património. O livro está muito bem escrito. Não resisti aliás a roubar algumas frases:     "Foi a única mulher para quem olhei e que consegui imaginar velha", afirmou. "Quanto mais a observava, mais era capaz de retratar a metamorfose que lhe aconteceria ao rosto, e ao corpo, durante os próximos cinquenta anos". (...) nunca se encontra o amor porque ele não é passível de ser encontrado. Que não nos acontece quando queremos mas quando estamos distraídos ou adormecidos. (...)     Dobrar uma esquina significava escolher um de...