Os nomes de Feliza, Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara)

Os nomes de Feliza

    Emprestaram-me este livro de que não sabia a história. Não conhecia, nem sequer tinha ouvido falar de Feliza Bursztyn, uma escultora, filha de um casal judeu expatriado na Colômbia e que morreria com pouco mais de 40 anos, em Paris, onde estava exilada.

    Feliza - que os pais batizaram Felicia, depois de ponderarem chamar-lhe Feigele, que em iídiche quer dizer passarinho - escolheu este nome, na adolescência, porque "era rebelde, é verdade, mas também feliz." Foi isto que a mãe escreveu sobre o nome da filha após a sua morte.

    Feliza morre inesperadamente, em 1982, num restaurante em Paris, onde estava acompanhada pelo marido e mais quatro pessoas, uma das quais era Gabriel García Márquez que, poucos dias depois, publicou um artigo no qual dizia que ela tinha morrido de tristeza. Por causa destas palavras, Juan Gabriel Vásquez investiga a sua vida e explica a Pablo, o viúvo de Feliza:

     "Porque morreu de tristeza (...) É isso que quero saber. Porque estava a Feliza tão triste, e porque estava tão triste que morreu disso. " (pg. 20)

E esta pergunta não o deixara em paz nos vinte sete anos transcorridos desde então, por isso, como refere a abrir o livro:

    "Era assim, a pensar na vida breve de Feliza Bursztyn, que eu passava os dias."

    E nesta procura viaja entre Bogotá e Paris, cidades onde Feliza passou a maior parte da sua vida.

    Os pais de Feliza já viviam em Bogotá há uns anos quando Hitler subiu ao poder. Faziam parte da comunidade judaica e tentavam ajudar familiares e amigos que ainda permaneciam na Europa, apesar da ordem do governo colombiano para suspender os vistos para elementos judeus (pg. 55). O ambiente que se vive na Colômbia, e sobretudo em Bogotá, vai sendo cada vez mais crispado e perigoso, por isso os pais decidem enviá-la para os EUA para estudar.  Tinha 18 anos quando decide aceitar o pedido de casamento de um norte-americano, apesar da discordância dos pais. Depois de alguns anos em Nova Iorque o casal decide mudar-se para a Colômbia. Deste casamento nascem três filhas.

    Feliza sente-se encurralada pela vida doméstica e, pouco tempo depois volta para casa dos pais. Dirá sempre que quando as filhas forem mais velhas hão de entender a decisão da mãe que, contudo, abala a comunidade judaica de que os pais eram um pilar.

    O pai não a expulsa, mas declara a sua morte. Apesar disso hão de se reencontrar e reconciliar. O resto da vida de Feliza será passada entre Paris e Bogotá. E termina por falecer em Paris onde estava exilada, depois de uma viagem a Cuba.

    Feliza é uma personagem absolutamente fascinante, porque não sendo uma pessoa politicamente empenhada, pagou um preço muito elevado por situações em que foi envolvida, pessoas que conhecia e defendia. Saiu de casa deixando as filhas com o marido, numa época e numa comunidade – e família - em que esta atitude não era nem aceite, nem compreendida. Porque se dedica à sua arte, optando por trabalhar com ferro o que era pouco comum para uma mulher.

    A vida de Feliza decorre no mesmo período temporal em que decorre a ação de Os informadores e lendo este livro compreendi melhor o autor. Ele não justifica, nem tenta explicar o que conta. Em ambos os livros, narra a história, de forma entrecortada, reproduzindo notícias, conversas com amigos ou conhecidos, entrevistas, mas não explica nem justifica os acontecimentos. Quase como se fosse um documentário ou um trabalho jornalístico. Cabe-nos a nós, leitores, fazê-lo.

     Como não conhecia a obra de Feliza pesquisei imagens e junto uma peça que acho extraordinária.



Comentários

Os mais lidos

O Sétimo Juramento, Paulina Chiziane (Sociedade Editorial Ndjira)

Desafio 100 livros BBC

A Promessa, Damon Galgut (Relógio d'Água)