O Louco de Deus no Fim do Mundo, Javier Cercas (Porto Editora)

O Louco de Deus no Fim do MUndo

     Logo no início do livro ficamos a saber de que trata O Louco de Deus no Fim do Mundo:

   "Sou ateu. Sou anticlerical. Sou um laicista militante, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou, viajando em direção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na Terra, disposto a interrogá-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo."

    Identifiquei-me completamente com a descrição dele próprio: também sou ateia, anticlerical, sobretudo, uma laicista militante, uma racionalista obstinada, uma ímpia inveterada. Mas se tivesse oportunidade seguiria o louco de Deus até ao fim do mundo para lhe fazer uma pergunta idêntica. Afinal, apesar de na aparência ser uma pergunta simples, feita para tranquilizar a mãe, trata-se da pergunta. Da verdadeira questão. A resposta que todos queremos conhecer.

    Antes de iniciar a viagem, antes mesmo de aceitar fazê-la, Javier Cercas conta que discutiu com algumas pessoas da sua confiança a possibilidade de escrever o livro sobre o papa e, apesar de algumas reticências, maioritariamente manifestaram entusiasmo com a ideia. Ele próprio se questiona e conclui que "se acabasse por escrever o livro, o escreveria para tentar compreendê-la, ou seja, pela mesma razão pela qual se escrevem todos os livros: para nos tentarmos compreender." (pg. 25) Pouco depois confessa que é escritor porque perdeu a fé. E a questão da fé é central nas conversas que mantém com os soldados de Bergoglio:

    "(...) no Ocidente, afastámos a razão do sentimento. Considerámo-los opostos. O problema é acharmos que tudo o que é sentimento, amor, fé, não tem nada a ver com a razão, que é só cálculo, método. Esta visão da razão é muito pobre, abstrata, fria. Esta racionalidade não é a racionalidade humana, é uma racionalidade computacional. (...) o problema consiste em termos separados a fé e a razão." (pg. 97)

      A conversa entre Javier Cercas e o cardeal Tolentino é extraordinária, em particular quando o cardeal cita Flannery O'Connor que dizia: «Crer é mais difícil do que não crer.» e lhe explica que a "fé não é uma irracionalidade. " (pg. 125)

    Praticamente a meio do livro, em pleno voo a caminho da Mongólia, Javier Cercas é convidado pelo Papa a ir ter com ele à frete do avião para lhe fazer a pergunta, cuja resposta só sabemos no final do livro. E é aí que o livro vai perdendo interesse. A partir da chegada à Mongólia, o livro transforma-se  num diário ou num relatório de viagem. Onde ficaram, o que visitaram, com quem falaram. A surpresa de encontrarem do outro lado do mundo pessoas crentes e praticantes da fé católica. 

    E só no final do livro ficamos a saber a resposta do Papa Bergoglio à pergunta de Javier Cercas. Talvez se o livro tivesse ficado por aí, pelas dúvidas que o autor sentiu, pelas conversas que manteve com os "soldados de Bergoglio" e, finalmente, pela curta conversa que manteve com o Papa, seria um livro extraordinário. 

    

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