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Manifesto pela Leitura, Irene Vallejo (Bertrand Editora)

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     Duas razões me levaram a comprar este livro e a iniciar logo a sua leitura: a capa, maravilhosa, de Ana Monteiro, e a Autora, Irene Vallejo. Dela li O Infinito num junco , um livro extraordinário, fascinante. Uma ode à leitura e aos livros. E se o Infinito num Junco incidia sobretudo sobre a invenção do livro, pensei que este, muito mais modesto em termos de dimensão, fosse um libelo a favor do livro físico. A defesa da leitura em papel em detrimento do écran. Mas só aborda esta questão de passagem:     "Um livro respeita a nossa atenção, mantém-nos desligados das urgências, das notificações e da publicidade. Não tem baterias para carregar, é resistente e pode ser muito belo. Não sofre a obsolescência programada, pois a sua vida útil abrange muitos séculos. Soa, cheira, podemos acariciá-lo. O papel convive harmoniosa e pacificamente com os seus irmãos de luz, os écrans, mas possui uma aura que nós, apaixonados pela literatura, amamos e reconhecemos."  ...

O Louco de Deus no Fim do Mundo, Javier Cercas (Porto Editora)

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     Logo no início do livro ficamos a saber de que trata O Louco de Deus no Fim do Mundo:    "Sou ateu. Sou anticlerical. Sou um laicista militante, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou, viajando em direção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na Terra, disposto a interrogá-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo."     Identifiquei-me completamente com a descrição dele próprio: também sou ateia, anticlerical, sobretudo, uma laicista militante, uma racionalista obstinada, uma ímpia inveterada. Mas se tivesse oportunidade seguiria o louco de Deus até ao fim do mundo para lhe fazer uma pergunta idêntica. Afinal, apesar de na aparência ser uma pergunta simples, feita para tranquilizar a mãe, tr...

Se um dia voltarmos, María Dueñas (Porto Editora)

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     "- Leva tudo na memória, Cecília, não nos esqueçamos de nada - murmurou Rafael, quando a costa de Óran já se tinha transformado numa linha desfocada. - Para se um dia voltarmos." É a este conselho, dado no final do livro, que a autora foi buscar o título. Cecília e Rafael regressam a Espanha na véspera do referendo que confirmará o desejo de independência dos argelinos.     A receita do livro é muito similar à de outros livros de María Dueñas que li,  As filhas do Capitão e O tempo entre costuras . Mulheres muito jovens - neste caso, ainda uma criança - são forçadas a emigrar e, para além das dificuldades que enfrentam a viver num país diferente, de que nem sequer conhecem a língua, têm de encontrar formas de sobreviver, sozinhas, numa época marcada por uma sucessão de guerras e conflitos armados.     Em Se um dia voltarmos, Cecília - que não é o seu nome verdadeiro - , foge da aldeia onde vivia com os pais porque mata um homem que a viola. ...

Assassinato no Comité Central, Manuel Vásquez Montalbán (Quetzal)

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      Como já vem sendo habitual, em agosto tirei uns dias de férias para os gozar com os meus netos. O destino foi Peniche e as maravilhosas praias do Baleal, da Consolação e São Bernardo. Ignorava que a semana seria marcada pelo ainda furacão Erin, que fez hastear as bandeiras vermelhas e o mar galgar metros de praia. Mas mesmo assim, conseguimos aproveitar na maré baixa as pequenas piscinas que ficavam entre as rochas.     Antes de partirmos, quando fazia as malas, decidi substituir o livro Regressos quase perfeitos, memórias da guerra em Angola , que estava a ler, por este, Assassinato no Comité Central, que me parecia ajustar-se melhor à praia e aos curtos períodos de leitura que os miúdos me iriam permitir. Mas regressei com poucas páginas lidas. Logo no primeiro dia, depois do almoço, decidi oferecer-me uns minutos de leitura, enquanto o mais velho, que tem 5 anos, via desenhos animados, e a mais pequena, com 2 anos, se dedicava a pintar – na verdade, a ...

O abismo do esquecimento, Paco Roca / Rodrigo Terrasa (Ala dos Livros)

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    Sempre acreditei no poder terapêutico da leitura, mas compreendi agora que em circunstâncias extremas os livros são um fraco lenitivo. As letras, as palavras, as frases, as páginas sucedem-se e não fazem sentido ou depois de lidas são esquecidas ou ficam a pairar sem sentido.     Mas numa noite de insónia desisti de tentar dormir e vim para a sala ler. Este era o livro que estava à mão. Não tenho o hábito de ler o que atualmente designam de novelas gráficas, mas só consegui parar de ler O abismo do esquecimento quando o concluí.     Ainda me lembro da aprovação da lei da memória histórica, em Espanha, em 2007. Até então, não percebia como tinha sido possível a transição democrática no país vizinho, sem, pelo menos, o reconhecimento de direitos às vítimas do franquismo e o apagamento dos sinais óbvios do regime.     O abismo do esquecimento conta a história de Pepica, cujo pai fora condenado à morte, fuzilado e enterrado numa vala comum e que n...

Em tudo havia beleza (Ordesa), Manuel Vilas (Alfaguara)

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  Em tudo havia beleza foi um dos poucos livros que comprei na Feira do Livro deste ano. Não conhecia o autor, Manuel Vilas, mas confesso que gostei do título, da capa e da dúvida que a palavra «Ordesa» entre parênteses introduzia. Li, ainda antes de o comprar - na fila para a caixa -, as folhas iniciais que reforçaram a minha vontade de o ler.   É um livro autobiográfico, de balanço, particularmente tocante para quem, como ele, ultrapassou as cinco décadas de vida:     «O passado de qualquer homem ou mulher com mais de cinquenta anos transforma-se num enigma. É impossível resolvê-lo. Resta apenas apaixonarmo-nos pelo enigma . » (pg. 83)     É nessa altura da vida que, em regra, somos confrontados com a proximidade da morte, mas também com a solidão resultante de várias perdas. Como escreve logo na primeira página:     « (...) Foi então que voltei a pensar no meu pai. Porque pensei que as conversas que tivera com o meu pai eram a única coisa...

A Cozinheira de Castamar, Fernando J. Múñez (Porto Editora)

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    Com os livros, como com outros objetos ou eventos, os principais divulgadores são os seus consumidores, no caso dos livros, os leitores. Mas, ao contrário de um filme ou de uma peça de teatro ou de um concerto, um livro pode ser oferecido ou emprestado. Partilhado. O entusiasmo de um leitor por um livro não arrefece sequer com o facto de a pessoa a quem emprestou ou ofereceu o livro, que anunciou e encheu de encómios, devolvê-lo dizendo que não o leu ou que leu e não gostou. Confesso que é muito dececionante quando isso acontece com um livro de que gostei muito e por isso tenho alguma dificuldade em ser absolutamente franca quando o inverso se passa comigo.     E eis-me chegada a este romance, A Cozinheira de Castamar, de Fernando Múñez, que me foi oferecido por quem o tinha lido e apreciado. Na nota do Autor, que aparece no final do livro, este explica as razões  que o levaram a escrever o livro e a primeira foi o pedido que a mãe lhe foi fazendo ao lo...

Os Doentes do Doutor Garcia, Almudena Grandes (Porto Editora)

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   Tinha uma grande curiosidade de conhecer a obra desta Autora, Almudena Grandes. Penso que Os Doentes do Doutor García foi o último livro a ser traduzido e editado entre nós e, apesar de ser apresentado como um romance de espionagem, de que não sou grande fã, o facto de se passar durante a guerra civil espanhola e o franquismo, despertou-me a atenção.     O livro está muito bem estruturado e, a par de romance de espionagem, é um livro de história do século XX. Conforme refere Almudena Grandes, na nota final que acompanha a publicação, trata-se de um « romance de ficção construído em torno de factos reais. Alguns dos fios que teceram a conjuntura histórica em que se apoia o meu relato são expostos nos pequenos textos não ficcionais intercalados ao longo destas páginas. Estes textos, narrados no presente histórico, descrevem acontecimentos rigorosamente verdadeiros, mas não mais do que outros factos e figuras que interagem com as minhas personagens inventadas nos cap...

O Assassino Tímido, Clara Usón (Teodolito)

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    Ao longo da leitura de O Assassino Tímido, fui mudando a minha opinião sobre a história e sobre a escrita, desatada, como a autora a classifica. Gostei muito do início, com que me identifiquei:     "Fui jovem numa época em que o futuro parecia também jovem e novo, não um mero prolongamento de anos tristes que se arrastavam e cheiravam a pó e reclusão.     (...) Queríamos divertir-nos, queríamos ser modernos (por oposição aos nosso pais, esses filhos de Franco, a quem chamávamos "velhos"), queríamos experimentar tudo, queríamos ser europeus!, e não, não tínhamos medo nenhum da morte, parecia-nos que a nossa juventude nos tornava invulneráveis, mas a vida supreendeu-nos, alternando os funerais dos nosso amigos com os dos nossos avós."   Afinal, também vivemos numa ditadura de que nos libertámos pouco tempo antes dos espanhóis. A minha geração - que é a mesma da autora, Clara Usón - viveu igualmente a juventude sob o signo da libertação...

O Dono do Segredo, Antonio Muñoz Molina (Caminho)

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     O Dono do Segredo é um livro delicioso. Lê-se de uma assentada, com o prazer acrescido da proximidade porque não só se passa na vizinha Espanha, num passado recente, mas também porque nós, o nosso país, faz parte da história. Aliás, o livro inicia-se com uma carta aos leitores portugueses escrita pelo autor, Antonio Muñoz Molina, aquando da edição portuguesa, e na qual refere:     "(...) Se eu não tivesse escrito este livro não saberia agora, ou não me recordaria, da importância que teve para mim, há mais de vinte anos, a notícia da Revolução de Abril, e do modo como as ideias mais sentimentais da minha adolescência sobre a liberdade perduram em mim associadas, e para sempre, a Portugal, às fotografias de carros de combate rodeados por multidões fervorosas, de soldados jovens com os punhos erguidos e cravos nas bocas das espingardas. (...) Em Setembro de 1973 Santiago do Chile tinha sido a nossa capital da dor; em Abril de 74 Lisboa converteu-s...