Se um dia voltarmos, María Dueñas (Porto Editora)

María Dueñas

     "- Leva tudo na memória, Cecília, não nos esqueçamos de nada - murmurou Rafael, quando a costa de Óran já se tinha transformado numa linha desfocada. - Para se um dia voltarmos." É a este conselho dado no final do livro que a autora foi buscar o título. Cecília e Rafael regressam a Espanha na véspera do referendo que confirmará o desejo de independência dos argelinos.

    A receita do livro é muito similar à de outros livros de María Dueñas que li, como As filhas do Capitão e O tempo entre costuras. Mulheres muito jovens - neste caso, ainda uma criança - são forçadas a emigrar e, para além das dificuldades que enfrentam a viver num país diferente, de que nem sequer conhecem a língua, têm de encontrar formas de sobreviver, sozinhas, numa época marcada por uma sucessão de guerras

    Em Se um dia voltarmos, Cecília - que não é o seu nome verdadeiro - , foge da aldeia onde vivia com os pais porque mata um homem que a viola. Sem saber o destino, embarca num navio e vai parar à Argélia, então uma colónia francesa. É lá que viverá, assistindo à distância à guerra civil no seu país, à II Guerra Mundial, e de onde fugirá três décadas depois, apenas com uma pequena mala. Neste livro, como nos anteriores, não só as mulheres são sempre as protagonistas, como a amizade e o apoio de outras mulheres desempenham um papel fundamental. 

    Apesar das 440 páginas, o livro é vertiginoso na sucessão de acontecimentos, quer da vida da Cecília e das pessoas com quem se relaciona, quer nacionais e internacionais. E esta parte é a que me pareceu mais interessante: o relato de batalhas no norte de África, na II Guerra Mundial, entre britânicos e franceses no período do governo de Pétain, o desejo de independência, o início da luta armada e a fuga dos europeus na véspera da independência. Rafael, cujos filhos vivem em França, dizem que a independência daArgélia tem cada vez mais apoio e os colonos são repudiados e designados de pieds-noirs. E os que regressavam eram tratados como empestados. "Como se nos tivéssemos convertido em inimigos." (pg. 409). 

    Porventura este retorno não terá sido muito distinto do retorno dos portugueses que viviam nas colónias em África, após o 25 de Abril.

    Achei curioso que as mulheres migrantes sobrevivessem a fazer sabão que vendiam pelas ruas. porque recentemente comprei sabonete feito por mulheres sírias, refugiadas, a viver em Portugal: sabonetes Amal

    

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