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A Lebre de Vatanen, Arto Paasilinna (Relógio d'Água)

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         A Lebre de Vatanen foi mais uma prenda de anos. A sorte que tenho de receber livros escolhidos por familiares ou amigos que já os leram e de através deles conhecer novos autores, novos mundos. No caso de A Lebre de Vatanen senti-me verdadeiramente a entrar num mundo distante do nosso, porventura mais distante daquele que nos é descrito em livros de autores africanos ou sul-americanos, a começar nas paisagens e costumes e a acabar nos nomes de regiões ou cidades:     «Ele olhava para as casas, para os carros, procurava reconhecer o local. Seria Vallila? Katajanokka? Em todo o caso, não era Kruununhaka. Chegaram a um rio....Porvoo?»     Como consta na contracapa, Vatanen é jornalista em Helsínquia. Num final de tarde de junho regressava de um trabalho com um colega fotógrafo. Os dois tinham à volta de 40 anos e sentiam-se infelizes: «Casados, enganados, desiludidos, ambos tinham um princípio de úlcera no estômago e out...

Os livros que não comentei

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​   Nos últimos anos, tenho vindo a encontrar-me, a construir a minha família e a descobrir a minha vocação. Tem sido incrível! E tem exigido todo o meu tempo. A leitura vai ficando para segundo, terceiro, quarto planos. Mas continua cá. Já não devoro livros como antes, mas vou saboreando nos momentos de calmaria.      Entretanto, a pilha de livros por comentar vai aumentando. Alguns, aguardam crítica já há dois anos. E se me lembro de se gostei ou não, já não me sinto capaz de escrever fielmente sobre eles.      Por isso, aqui vai este post, com a foto e um breve comentário sobre os livros que compõem esta pilha, e que já merecem o seu devido repouso na estante (e não a apanhar pó na minha secretária!):     1. Pequenos fogos em todo o lado , de Celeste Ng (Relógio d'Água) - Quero ler!     «Durante toda a vida, aprendera que a paixão, tal como o fogo, era uma coisa perigosa. Facilmente se descontrolava. (...) Era melhor controlar a ...

Os três crimes dos meus amigos, Georges Simenon (Relógio d' Água)

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    Não é habitual a aniversariante oferecer prendas - livros - a todas as convidadas, mas a Catarina é assim. Convida as amigas para jantar, sem lhes dizer que é para celebrar os anos - ainda bem que antes fui ver a minha agenda! - e antes de começarmos a comer, tira do saco vários livros que distribui. Mas não os distribui ao acaso, cada livro foi especialmente escolhido.     A mim calhou-me este livro do Georges Simenon: Os Três Crimes dos Meus Amigos . Apesar de saber que Simenon escreveu outros livros, ele era para mim o criador do Comissário Maigret, tal como Agatha Christie é a criadora de Poirot. Sei que ambos escreveram outros livros, mas identifico as suas obras com estas personagens. Li muitos livros destes autores durante a adolescência e  vi centenas de adaptações ao cinema. Por isso, apesar de gostar de ler policiais, considerava que já tinha esgotado a leitura das obras destes dois autores.     Percebi, depois de ler Os Três Crimes dos M...

A Promessa, Damon Galgut (Relógio d'Água)

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         Estava naquele espaço intermédio em que acabamos um livro e ainda não começámos a ler um novo, ou melhor, ainda não ficámos reféns de nenhum, por isso vamos lendo umas páginas de um que depois interrompemos, pegamos noutro que folheamos e abandonamos… Não é fácil começar um livro depois de outro de que gostámos. Temos de dar tempo para nos despedirmos das personagens e deixar acomodar as histórias que nos contaram. Mas há alguns livros que nos fazem esquecer rapidamente o anterior, e A Promessa é um desses livros. O meu irmão ofereceu-mo e disse que o tinha lido e que eu iria gostar de o ler. E assim foi, comecei a lê-lo e foi paixão às primeiras palavras.     Na contracapa é dito que « obcecados, perseguidos e assombrados por uma promessa não cumprida, os membros da família Swart dispersam-se depois da morte da matriarca». Não senti que assim fosse. Apenas a filha mais nova se sente obcecada pela promessa que a mãe faz antes d...

As Ondas, Virginia Woolf (Relógio D'Água)

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      Acabei de ler As Ondas. Não me vou perder na sua classificação, se se trata de um romance, de novela, de teatro, de prosa ou de poesia. Acho que é um pouco de tudo. Não sei quanto tempo Virginia Woolf levou a escrevê-lo, mas imagino que tenha sido uma escrita lenta, pausada, feita e desfeita. E a leitura também tem de ser deste modo, demorada, como se mastigássemos as palavras, ou antes, as ruminássemos. Porque não sendo uma leitura fácil, não conseguimos deixar de nos encantar com as palavras e de nos identificar em muitas passagens. De sentir que foi mesmo assim que nos sentimos ou que também pensámos isso ou vivemos aquilo.     Não tem capítulos, mas, como se tudo decorresse num dia ou ao longo de uma vida, há nove separadores com letra em itálico que descrevem o percurso do sol, a luz do dia: O sol ainda não nascera. O sol ergueu-se mais ainda. O sol ergueu-se. O sol já não repousava sobre o manto de águas verdes. O sol atingira o ponto mais al...

As Telefones, Djaimilia Pereira de Almeida (Relógio d'Água)

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         As Telefones foi encantamento às primeiras palavras, como já tinha acontecido com o anterior livro da Djaimilia, Luanda, Lisboa, Paraíso , e se ambos partilham a geografia, as relações familiares e a escrita poética, são no resto distintos. As Telefones é a história de uma mãe e uma filha, Filomena e Solange, que vivem separadas, mas é também a despedida da mãe. A filha vive em Lisboa, primeiro com uma tia e depois sozinha, enquanto a mãe permanece em Angola. Falam por telefone, são elas próprias telefones (« Os seus telefonemas não eram palavras, mas um sonho em andamento, cujo avesso era tudo que não contavam uma à outra. ..). São ambas narradoras, alternando-se, marcando pelo estilo de letra a autoria.     A filha cresce sem saber exatamente – sem se recordar - como é a mãe, ignorando por isso como ela própria será. As transformações por que ambas passam, tornam-nas desconhecidas a cada reencontro. O reconhecimento ou a estranheza...

Memórias do Subterrâneo, Fiódor Dostoievski (Relógio d'Água)

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     Memórias do Subterrâneo está dividido em duas partes: O Subterrâneo e Por Causa da Neve Húmida. Na primeira parte, o autor apresenta-se e, na segunda, surgem as suas memórias sobre alguns acontecimentos. Uma nota do Autor, logo no início, explica-nos que tanto o autor das Memórias como as próprias Memórias são fictícias, contudo, considera que pessoas como ele devem existir na nossa sociedade, embora sejam caracteres de um passado recente. Confesso que tive alguma dificuldade no início. Alguma estranheza. A leitura da parte inicial lembrava-me nalguns aspetos O Estrangeiro , de Camus, ou A Metamorfose de Kafka e li depois que foi inspirador destas obras:    “ Agora, meus senhores, quero contar-vos, queiram ouvir ou não queiram, por que razão eu não consegui tornar-me nem sequer um inseto. Digo-vos solenemente que muitas vezes desejei tornar-me um inseto. Mas nem isso mereci .”     O autor começa por falar sobre si próprio, interroga...

O custo da vida, Deborah Levy (Relógio D'Água)

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    Recebi este livro no Natal. Não conhecia a autora, nem tinha lido qualquer crítica ao livro. Confesso que o início da descrição na contracapa não me seduziu particularmente:    " Um manifesto moderno, vital e empolgante sobre as políticas do feminismo. .."     Não me apetecia ler um manifesto (apesar de não perceber exatamente o que se pretende dizer com esta indicação) mas "O Custo da Vida" não é, nem me pareceu que tivesse sequer essa intenção, embora seja uma reflexão  sobre o papel da mulher na sociedade atual e, sobretudo, nas relações familiares e no casamento.      Logo no início do livro, fala num colega que se esquecia da maior parte dos nomes das mulheres que conhecia em ocasiões especiais ( Quem somos nós, afinal, se não temos um nome? ),  mais à frente fala num homem que conhece no comboio que fala na esposa sem a nomear, contudo, ela opta por nunca nomear os homens de que fala e que designa c...

Escombros, Elena Ferrante (Relógio D' Água)

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       Antes de escrever sobre este livro, Escombros (gosto do título, da sua sonoridade), tenho que confessar que me irritou imenso o fenómeno Elena Ferrante. De repente toda a gente falava nela, sobretudo após a edição da tetralogia d' A Amiga Genial, e eu justificava o meu desinteresse na sua leitura recorrendo a uma citação do Somerset Maugham:     "Sei por experiência própria que quando um livro causa sensação convém esperar um ano antes de tomar conhecimento dele. É surpreendente a quantidade de livros que, ao cabo, nos dispensamos de ler."     Irritava-me particularmente a discussão sobre a identidade da autora (será de facto uma autora?) e considerava a decisão dela  de não aparecer, nem se identificar, para além da indicação do nome, como uma forma de promoção, que,  paradoxalmente com o que é a prática atual, funcionava.     Revi a minha posição quer quanto aos livros dela que já li, A Amiga...

Águas da primavera, Ivan Turguéniev (Relógio D' Água)

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    Há livros que lemos, apressadamente, só porque não conseguimos parar de ler embora saibamos que devíamos  apreciá-los lentamente. Reler cada página antes de passar à próxima, mas em vez disso apressamo-nos a continuar. Foi assim que li este romance, Águas da primavera , sem parar. Confesso, contudo, que não sei  dizer exatamente o que o torna especial.     No inicio do romance, o protagonista, Dmítri Pávlovitch Sánin, tem 51 anos e não encontra justificação para nenhuma das épocas da sua vida . Sofre com a perspetiva da velhice, da doença e da morte. Para afastar os pensamentos que o atormentam, mexe nas suas coisas e encontra uma pequena cruz guarnecida de granadas. Recorda então o que se passou alguns anos antes, no Verão de 1840, quando tinha 22 anos e, no regresso à Rússia, vindo de Itália, passa por Frankfurt.     Termina por ficar em Frankfurt onde conhece Gemma por quem se apaixona, o irmão Emil e a mãe de ambos, uma fa...