A Boneca de Kokoschka, Afonso Cruz (Companhia das Letras)
Mais uma vez, apaixonei-me pela escrita de Afonso Cruz na primeira página - e, ao longo de todo o romance, lá fui dobrando os cantos das páginas onde encontrava passagens particularmente bonitas. Funciono assim. Leio com muito prazer frases bonitas, pela simples beleza delas e mesmo que, por si só, não constituam um acrescento à história que está a ser contada. «Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. (...) E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora, como as pessoas imaginam. Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem (...), desviavam os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. (...) A gaiola estava dentro deles. A outra (...) era apenas uma metáfora. Bonifaz Vogel vivia no meio de metáforas.» Neste livro, que são dois (um livro dentro de um livro), e que se passa em três partes, a história é, na verdade um novelo que só se destrinça na última ...