terça-feira, 15 de maio de 2018

A Boneca de Kokoschka, Afonso Cruz (Companhia das Letras)

   Mais uma vez, apaixonei-me pela escrita de Afonso Cruz na primeira página - e, ao longo de todo o romance, lá fui dobrando os cantos das páginas onde encontrava passagens particularmente bonitas. Funciono assim. Leio com muito prazer frases bonitas, pela simples beleza delas e mesmo que, por si só, não constituam um acrescento à história que está a ser contada.

   Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. (...) E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora, como as pessoas imaginam. Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem (...), desviavam os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. (...) A gaiola estava dentro deles. A outra (...) era apenas uma metáfora. Bonifaz Vogel vivia no meio de metáforas.

    Neste livro, que são dois (um livro dentro de um livro), e que se passa em três partes, a história é, na verdade um novelo que só se destrinça na última página. Não porque envolva um grande mistério que nos deixe em suspense do princípio ou fim, mas porque são inúmeras as personagens que se atravessam à nossa frente, aparentemente por acaso. Só que, no fim, acabam por estar todas ligadas umas às outras.  Talvez seja esse o mistério afinal: a forma como as personagens encaixam entre si. Confesso que houve alguns momentos em que me perguntei porque tínhamos deixado de seguir tal personagem e passado a seguir outra, com pena por abandonar a primeira, e algum desconforto ao reencontrá-la, páginas mais tarde que constituíram muitos anos. 
    Também porque ao começar o livro assumi que sabia que vidas iríamos seguir, fiquei um pouco desiludida ao perceber que, depois das primeiras páginas, com um miúdo judeu em fuga, escondido debaixo de um alçapão, cuja voz subia pelas pernas de um velho vendedor de pássaros até dentro da sua cabeça, o miúdo já era adulto e casado e o velho era o seu protegido há alguns anos - e o tempo entre os dois momentos é-nos totalmente vedado. Entram então em cena inúmeras personagens que, à partida, parecem largadas ali ao acaso. No entanto, reconciliei-me com o romance nas últimas páginas, mais uma vez cheias de frases lindíssimas e que, além disso, dão o nó final na história, criando os pontos de contacto que pareciam esquecidos, de uma forma muito simples e bonita.

    A visão do mundo não é apenas o que vemos (...), é também o que imaginamos. O tempo não é uma seta do passado para o futuro, o tempo tem muitas dimensões, tal como o espaço. (...) Enquanto não virmos o tempo com todas as suas dimensões, não vemos nada.

    Não tenho forma melhor de resumir do que usar as palavras do próprio autor, num pequeno parágrafo desgarrado a meio do livro:

    O pintor Oskar Kokoschka estava tão apaixonado por Alma Mahler que, quando a relação acabou, mandou construir uma boneca, de tamanho real, com todos os pormenores da sua amada. A carta à fabricante de marionetas, que era acompanhada de vários desenhos com indicações para o seu fabrico, incluía as rugas da pele que ele achava imprescindíveis. Kokoschka, longe de esconder a sua paixão, passeava a boneca pela cidade e levava-a a ópera. Mas um dia, farto dela, partiu-lhe uma garrafa de vinho tinto na cabeça e a boneca foi para o lixo. Foi a partir daí que ela se tornou fundamental para o destino de várias pessoas que sobreviveram às quatro mil toneladas de bombas que caíram em Dresden durante a Segunda Guerra Mundial.

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