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O Louco de Deus no Fim do Mundo, Javier Cercas (Porto Editora)

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     Logo no início do livro ficamos a saber de que trata O Louco de Deus no Fim do Mundo:    "Sou ateu. Sou anticlerical. Sou um laicista militante, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou, viajando em direção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na Terra, disposto a interrogá-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo."     Identifiquei-me completamente com a descrição dele próprio: também sou ateia, anticlerical, sobretudo, uma laicista militante, uma racionalista obstinada, uma ímpia inveterada. Mas se tivesse oportunidade seguiria o louco de Deus até ao fim do mundo para lhe fazer uma pergunta idêntica. Afinal, apesar de na aparência ser uma pergunta simples, feita para tranquilizar a mãe, tr...

Se um dia voltarmos, María Dueñas (Porto Editora)

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     "- Leva tudo na memória, Cecília, não nos esqueçamos de nada - murmurou Rafael, quando a costa de Óran já se tinha transformado numa linha desfocada. - Para se um dia voltarmos." É a este conselho, dado no final do livro, que a autora foi buscar o título. Cecília e Rafael regressam a Espanha na véspera do referendo que confirmará o desejo de independência dos argelinos.     A receita do livro é muito similar à de outros livros de María Dueñas que li,  As filhas do Capitão e O tempo entre costuras . Mulheres muito jovens - neste caso, ainda uma criança - são forçadas a emigrar e, para além das dificuldades que enfrentam a viver num país diferente, de que nem sequer conhecem a língua, têm de encontrar formas de sobreviver, sozinhas, numa época marcada por uma sucessão de guerras e conflitos armados.     Em Se um dia voltarmos, Cecília - que não é o seu nome verdadeiro - , foge da aldeia onde vivia com os pais porque mata um homem que a viola. ...

Autobiografia não escrita de Martha Freud, Teolinda Gersão (Porto Editora)

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      Tenho a sorte de ter amigos que antecipam os livros que quero ler e mos oferecem. Foi o caso deste, Autobiografia não escrita de Martha Freud, de Teolinda Gersão.     Confesso que não gosto de Freud, apesar de pouco mais saber sobre o seu trabalho que os lugares-comuns, como o complexo de Édipo, o complexo de castração ou as fases do desenvolvimento de uma criança. Foi seguramente inovador para a época, mas sendo difícil discernir o autor da obra, não consigo dissociá-la do que sei sobre a sua vida. E parte do que sei resultou da leitura de um outro livro, A irmã de Freud, de Goce Smilevski:     Antes do eclodir da II Guerra Mundial, Sigmund Freud recebe um visto para sair da Áustria, rumo a Londres. Da lista que entregou às autoridades fazem parte a mulher, os filhos, o médico, a família do médico, as criadas e mesmo o cão. Na lista não incluiu as suas irmãs. Sem qualquer razão aparente, apenas o argumento que avança: “Se fosse necessário vo...

Como poeira ao vento, Leonardo Padura (Porto Editora)

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    Um amigo emprestou-me este livro. Depois de insistir que tinha de o devolver (insistência que compreendo muito bem, porque também a faço quando empresto um livro de que gosto), disse que depois falaríamos sobre ele. São pouco mais de 600 páginas que li num ápice, entre Lisboa e Maputo, porque não conseguia parar de ler.    Do Autor, Leonardo Padura, já li outros livros: Um passado perfeito , A transparência do tempo e O homem que gostava de cães . Os dois primeiros são policiais, e em ambos pontifica a figura de Mario Conde. Mas como escrevi na recensão de A transparência do tempo : « é a complexidade das personagens, a atualidade dos temas ainda que mesclados com temas históricos,  a partilha de reflexões e de algumas perplexidades que justificam o interesse das obras deste autor, sejam policiais, como Um passado perfeito ou romances como O homem que gostava de cães . » A estas obras podia acrescentar Como poeira ao vento . Não é apenas por ...

O cuco, Camilla Lackberg (Porto Editora)

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   Ofereceram-me este livro. Não há nada melhor que uma prenda inesperada. Por isso e pelas saudades que tinha de ler um policial, não resisti a começar a lê-lo de imediato.     Confesso que ficou muito aquém - não direi da minha expetativa - mas do que considero um bom policial, como os os escritos pela Ruth Rendell, que nos prendem logo nas primeiras palavras.   Já passaram praticamente 10 anos (tantos?) desde que li os primeiros livros da Camilla Lackberg. O que escrevi sobre A Sombra da Sereia aplica-se ao que senti quando li este último livro:    «O efeito surpresa não existiu desta feita. A narrativa é muito simétrica à do outro livro: um crime acontece na tranquila vila de Fjallbacka, Patrik Hedstrom, inspetor, conduz a investigação e a mulher, a escritora Erica Falk, vai investigando por sua iniciativa e acrescentando peças ao puzzle. A narrativa desdobra-se em dois momentos distintos (...)»    Também neste romance policial acontece ...

A Cozinheira de Castamar, Fernando J. Múñez (Porto Editora)

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    Com os livros, como com outros objetos ou eventos, os principais divulgadores são os seus consumidores, no caso dos livros, os leitores. Mas, ao contrário de um filme ou de uma peça de teatro ou de um concerto, um livro pode ser oferecido ou emprestado. Partilhado. O entusiasmo de um leitor por um livro não arrefece sequer com o facto de a pessoa a quem emprestou ou ofereceu o livro, que anunciou e encheu de encómios, devolvê-lo dizendo que não o leu ou que leu e não gostou. Confesso que é muito dececionante quando isso acontece com um livro de que gostei muito e por isso tenho alguma dificuldade em ser absolutamente franca quando o inverso se passa comigo.     E eis-me chegada a este romance, A Cozinheira de Castamar, de Fernando Múñez, que me foi oferecido por quem o tinha lido e apreciado. Na nota do Autor, que aparece no final do livro, este explica as razões  que o levaram a escrever o livro e a primeira foi o pedido que a mãe lhe foi fazendo ao lo...

Os Doentes do Doutor Garcia, Almudena Grandes (Porto Editora)

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   Tinha uma grande curiosidade de conhecer a obra desta Autora, Almudena Grandes. Penso que Os Doentes do Doutor García foi o último livro a ser traduzido e editado entre nós e, apesar de ser apresentado como um romance de espionagem, de que não sou grande fã, o facto de se passar durante a guerra civil espanhola e o franquismo, despertou-me a atenção.     O livro está muito bem estruturado e, a par de romance de espionagem, é um livro de história do século XX. Conforme refere Almudena Grandes, na nota final que acompanha a publicação, trata-se de um « romance de ficção construído em torno de factos reais. Alguns dos fios que teceram a conjuntura histórica em que se apoia o meu relato são expostos nos pequenos textos não ficcionais intercalados ao longo destas páginas. Estes textos, narrados no presente histórico, descrevem acontecimentos rigorosamente verdadeiros, mas não mais do que outros factos e figuras que interagem com as minhas personagens inventadas nos cap...

Os Sobreviventes, Alex Schulman (Porto Editora)

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     Confesso que conheço poucos autores suecos. Para além dos clássicos, Strindberg e Selma Lagerlof, só conheço autores policiais. Gosto especialmente dos livros de Camilla Lackberg, que leio sobretudo no verão, porque preciso de tempo para poder ler sem interrupções. Não li, porque antes já tinha visto, a Trilogia Millenium, de Stieg Larson, cujas imagens me assombraram durante algum tempo.      Não sei se foi por isso que ao ler Os Sobreviventes senti que a influência dos livros policiais e de suspense tinha marcado demasiado a escrita deste romance. Logo no primeiro capítulo é dito:      « O que está a acontecer nestas escadas de pedra, onde os três irmãos estiveram a chorar com caras inchadas e ensanguentados, é apenas o último círculo na água, o círculo mais afastado do ponto onde a pedra se afundou ».     Este tipo de afirmações é recorrente, criando no leitor a dúvida e a expetativa sobre o que estará na orig...

Um Castelo em Ipanema, Martha Batalha (Porto Editora)

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      Li o primeiro livro desta Autora, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão , de que gostei muito. Vi, antes de ler o livro, o filme A Vida Invisível , realizado por Karim Aïnouz e que ganhou Prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes. O filme - que não segue exatamente o livro – é de uma enorme beleza e de uma grande tristeza. Nalguns aspetos a imagem consegue impressionar mais que a palavra.     Achei curioso o título do filme, que deixa cair o nome da protagonista, passando a falar apenas da vida invisível, ficando em aberto quem vive esta vida invisível. Mas o título podia ser no plural, As Vidas Invisíveis , porque na realidade não é apenas Eurídice que tem uma vida invisível, a sua irmã, a mãe, as outras mulheres, têm na sua maioria vidas invisíveis e, mais que isso, decididas pelos homens - o pai ou o marido. A ação decorre nos anos 50, no Brasil, mas podia ser em qualquer outro país. Talvez não por acaso, os pais de Eurídice são portugueses (« ...

Uma Mulher Desnecessária, Rabih Alameddine (Porto Editora)

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    Sou leitora assídua da crónica do Miguel Esteves Cardoso no Público. Na crónica do passado dia 27 de agosto, com o título O que eu aprendi, escreve logo no início o seguinte:     « Aprendi que as mulheres são muito mais parecidas com os homens do que eu pensava - e eu sempre pensei que eram muito parecidas. »      Concordo plenamente com esta afirmação e, se dúvidas tivesse, teriam sido dissipadas depois da leitura do livro Uma Mulher Desnecessária. Este ano, decidi ler livros escritos por mulheres, não por considerar que há uma escrita feminina e uma escrita masculina ou que na sua essência homens e mulheres escrevem diferentemente ou sobre temas distintos, mas apenas para privilegiar escritoras mulheres na minha seleção de leituras, contornando a sua menor projeção por parte de editoras, críticos e leitores. Das escritoras que li, de várias nacionalidades e continentes, não encontrei um denominador comum naquilo que escrevem, a não ser...

A vida invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha (Porto Editora)

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     O primeiro  contacto que tive com A Vida Invisível de Eurídice Gusmão foi através deste cartaz, afixado  em vários locais, no Largo de  Santos, que anunciava o filme. Mais do que a imagem foi o título que me atraiu. Passado pouco tempo encontrei, por acaso, o livro na Livraria da Travessa.     Comprei-o para oferecer (sem sequer ter tempo de o ler antes de voltar a embrulhá-lo e oferecê-lo) e a amiga que o recebeu disse-me que tinha gostado muito. Pouco tempo depois vi o filme (ver trailer ). Extraordinário. Realizado por Karim Ainouz ganhou o prémio principal da Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes de 2019. O filme não é uma mera adaptação do livro, mas a mensagem está lá. A vida invisível das mulheres. Como diz a Martha Batalha, no início:     "Mas o mais real deste livro está na vida das duas protagonistas, Eurídice e Guida. Elas ainda podem ser vistas por aí. (...) Eurídice  e Guida foram baseadas nas vidas das ...