Um Castelo em Ipanema, Martha Batalha (Porto Editora)

 Um Castelo em Ipanema
    Li o primeiro livro desta Autora, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de que gostei muito. Vi, antes de ler o livro, o filme A Vida Invisível, realizado por Karim Aïnouz e que ganhou Prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes. O filme - que não segue exatamente o livro – é de uma enorme beleza e de uma grande tristeza. Nalguns aspetos a imagem consegue impressionar mais que a palavra.
    Achei curioso o título do filme, que deixa cair o nome da protagonista, passando a falar apenas da vida invisível, ficando em aberto quem vive esta vida invisível. Mas o título podia ser no plural, As Vidas Invisíveis, porque na realidade não é apenas Eurídice que tem uma vida invisível, a sua irmã, a mãe, as outras mulheres, têm na sua maioria vidas invisíveis e, mais que isso, decididas pelos homens - o pai ou o marido. A ação decorre nos anos 50, no Brasil, mas podia ser em qualquer outro país. Talvez não por acaso, os pais de Eurídice são portugueses («Seu Manuel enlouqueceu um pouco com a morte de D. Ana. Como bom português, preferiu fazer isso sozinho e contra a parede do quarto, onde bateu a cabeça em desespero nas sete primeiras noites sem a mulher.»)
    Tinha por isso muita curiosidade de ler o segundo livro, imaginando se estaria à altura do primeiro. Até imaginando a angústia da Martha Batalha, que viu o seu primeiro livro muito bem acolhido pela crítica e transposto para o cinema. Um Castelo em Ipanema editado há um ano (setembro de 2020) é um livro muito bem construído, também centrado no universo íntimo das famílias e, sobretudo, na vida das mulheres que as compõem.  Conta-nos a história de uma família que emigra da Suécia para o Brasil, ao longo de 110 anos. Mas não é uma saga familiar no sentido habitual, seguindo cuidadosamente as diferentes gerações, e sim a história de alguns dos membros desta família, e o seu cruzamento com outras pessoas, fechando vários círculos de relações.
    N'Um Castelo em Ipanema vamos acompanhando também a evolução política do Brasil, o período da ditadura, com as prisões arbitrárias e a tortura, a transição para a democracia, e os movimentos sociais que caracterizaram a segunda metade  do século passado.
    O livro está dividido em duas partes, a primeira ocupa-se de Johan Edward Janson  e Brigitta,  suecos,  que depois de casarem vão viver para o Rio de Janeiro, numa tentativa de curar Brigitta das vozes que ouvia. Lá instalados, Johan decide construir um castelo em Ipanema. No livro existe uma fotografia a preto e branco de uma casa apalaçada, com mistura de vários estilos. Perguntei a uma amiga brasileira se o castelo existia, depois de responder negativamente decidiu procurar e enviou-me um artigo, de 2017, com diversas fotografias do Castelinho. Nele li que o Castelinho foi construído pelo cônsul sueco Johan Edward Jansson, com os materiais mais nobres disponíveis para o acabamento da residência. O ponto de partida foi esta história de amor, materializada na casa construída à beira mar, mas presumo que tudo o resto, em particular a parte referente à terceira geração, seja fruto da imaginação da Autora.
    A segunda parte, dedicada ao casamento de Estela com Otávio, neto de Johan e Brigitta, inicia-se com a seguinte citação de Elsie Lessa (jornalista brasileira):

    «Qual é o hormônio e destilado porque glândula, que dá a uma mulher o gosto de engomar, tão alvamente, a sua toalha bordada para a bandeja do café?»

    Estela é uma mulher dividida entre as obrigações sociais e as expectativas familiares, as ambições pessoais e o desejo de ser amada, num conflito íntimo que o tempo termina por resolver:

    «Tudo tinha mudado de modo tão rápido e tão lento que se tornava impossível perceber. E por que a vida tinha que ser assim, feita com uma época em que todos viviam, e outra em que todos morriam?»

    Um livro a não perder e na expetativa que também dê origem a um filme.

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