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Vista Chinesa, Tatiana Salem Levy (Elsinore)

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      Depois de ler “Melhor não contar” não resisti a ler de seguida este livro da mesma autora. Admito que a leitura da “Vista Chinesa” tenha sido contagiada pela leitura daquele outro livro. Não é estragar o prazer de quem o vai ler, dizer que “Vista Chinesa” conta a história da violação de uma mulher jovem, e a forma como sobrevive ao horror que viveu, porque isto está escrito na parte de trás do livro.      Mas, influenciada por “melhor não contar” em que a narradora (que não conseguimos deixar de identificar com a Autora) conta que a mãe foi violada num táxi, quando era jovem, comecei por pensar que a Júlia era a mãe e que este livro era sobre o horror que a mãe tinha vivido. Horror que se tinha transmitido à filha, porque a mãe lho tinha contado, mas também pelo que a narradora considera os misteriosos processo que garantem a transmissão de acontecimentos sofridos pelos pais (“será que por terem morado nove meses na minha barriga vocês sabem que um ...

melhor não contar, Tatiana Salem Levy (Elsinore)

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     Já acabei de ler este livro há algum tempo. Mexeu comigo. É sentidamente um livro autobiográfico. Não vivenciei algumas das situações vividas pela autora, mas identifiquei-me em muitas passagens do livro/da vida dela.   Em “melhor não contar”, a autora expõe-se, contando o que nós, mulheres, habitualmente guardamos ou escrevemos ou sussurramos apenas. O conselho que lhe é repetidamente dado, é que é melhor não contar. E ela reflete sobre o silêncio das mulheres, imposto ou mesmo autoimposto. Da recusa da exposição.     No livro fala da doença e da morte da mãe, do luto, do assédio do padrasto, do aborto que sofreu. Fala disso tudo enquanto lê as cartas que a mãe lhe escreveu, as páginas do diário da mãe do tempo da sua adolescência e enquanto se interroga sobre os efeitos da escrita:     “(…) Acho mesmo que a escrita não redime, não sublima, não compensa nada. A perda dá início à escrita, mas não há o movimento contrário. Digo: es...

A palavra que resta, Stênio Gardel, (D. Quixote)

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     Porque decidimos ler um livro? Porque passamos por uma livraria e apaixonamo-nos pela capa ou pelo título ou pelo resumo que está na contracapa. Porque já lemos outros livros do mesmo autor ou porque lemos uma crítica ou alguém nos falou dele ou ainda porque alguém no-lo oferece. Mas é quase sempre fortuito o encontro entre um livro e o leitor.    A palavra que resta foi-me oferecido. Provavelmente se não o tivesse recebido, não o teria descoberto e teria perdido a leitura deste livro extraordinário, que sendo sobre as pessoas excluídas, discriminadas por serem homossexuais, transsexuais ou travestis, é, na realidade, sobre a importância de aprendermos, seja a ler, seja a ver o mundo de outra maneira.     É um livro lindíssimo e ao mesmo tempo doloroso. Está dividido em quatro partes e cada parte em pequenos capítulos. Conta a história de amor entre Raimundo e Cícero, dois jovens que se conheciam desde meninos. De Raimundo sabemos o nome ...

Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva (D. Quixote)

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    É pouco comum ver um filme e de seguida ler o livro que lhe deu origem. Sinto que o filme esgota o livro e por isso não sinto vontade de o ler.   Já o contrário não é verdade. Com frequência vejo filmes já tendo lido os livros nos quais se basearam. Sinto curiosidade sobre a forma como as palavras escritas passam para o écran, em especial os pensamentos, os sonhos ou os desejos das personagens.     Mas nalguns casos o filme abre as portas ao livro. Aconteceu-me com A zona de interesse . Depois de ter visto o filme, fiquei com curiosidade de ler o livro, da autoria de Martin Amis, e o mesmo sucedeu com o filme Ainda estou aqui . Nestes dois casos, depois de ler os livros em que se basearam os filmes, sinto que são histórias quase distintas ou como se o filme nos contasse apenas um episódio de uma história bastante mais complexa e longa.      O filme Ainda estou aqui inquietou-me, impressionou-me, arrepiou-me. Conheço mal a história brasileira...

Sinfonia em Branco, Adriana Lisboa (Círculo de Lisboa)

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   Sinfonia em Branco foi publicado em 2001 e dois anos depois venceu o Prémio Literário José Saramago. Provavelmente terá sido nessa altura que o adquiri. Sei que o comecei a ler mas interrompi a leitura que só retomei agora, vinte anos depois, nesta outra edição que me foi oferecida por uma amiga, leitora compulsiva e amante de livros do "sebo", expressão que aprendemos as duas depois de termos recebido livros "ensebados” de uma amiga comum.      Enquanto o lia tentava perceber porque o tinha abandonado a meio, mas sem sucesso. Desta vez, fiquei presa pela escrita, logo na primeira página:   “O amor era como uma marca pálida deixada por um quadro removido após anos de vida sobre uma mesma parede. O amor produzira um vago intervalo em seu espírito, na transparência dos seus olhos, na pintura envelhecida da sua existência. Um dia, o amor gritara dentro dele, inflamara suas vísceras. Não mais. Mesmo a memória era incerta, fragmentada, pedaços do es...

O Avesso da Pele, Jefferson Tenório (Companhia das Letras)

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     Criei o hábito de publicar a recensão de cada livro que leio, aqui e na Goodreads , onde também me é pedido que avalie o livro atribuindo estrelas. 5 estrelas é o máximo que podemos atribuir. Verifico que nos 133 livros que avaliei, nunca dei 5 estrelas. Provavelmente porque fui guardando este número máximo de estrelas para um livro que superasse as minhas expetativas, que fosse simultaneamente apaixonante e me confrontasse. Que contasse uma história, mas que a contasse de forma a me obrigar a mergulhar nela. Que quisesse ler depressa, impaciente para saber o que acontecia depois, mas também quisesse ler lentamente, para saborear cada palavra, cada frase, cada parágrafo, cada página. Que voltasse atrás para poder reler com calma e já sem avidez o capítulo anterior. E foi isto tudo que encontrei n' O Avesso da Pele e por isso irei atribuir-lhe 5 estrelas.     Não sei se quer como definir este romance ou como descrevê-lo. Confrontado com a morte ine...

Um Castelo em Ipanema, Martha Batalha (Porto Editora)

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      Li o primeiro livro desta Autora, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão , de que gostei muito. Vi, antes de ler o livro, o filme A Vida Invisível , realizado por Karim Aïnouz e que ganhou Prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes. O filme - que não segue exatamente o livro – é de uma enorme beleza e de uma grande tristeza. Nalguns aspetos a imagem consegue impressionar mais que a palavra.     Achei curioso o título do filme, que deixa cair o nome da protagonista, passando a falar apenas da vida invisível, ficando em aberto quem vive esta vida invisível. Mas o título podia ser no plural, As Vidas Invisíveis , porque na realidade não é apenas Eurídice que tem uma vida invisível, a sua irmã, a mãe, as outras mulheres, têm na sua maioria vidas invisíveis e, mais que isso, decididas pelos homens - o pai ou o marido. A ação decorre nos anos 50, no Brasil, mas podia ser em qualquer outro país. Talvez não por acaso, os pais de Eurídice são portugueses (« ...

A vida invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha (Porto Editora)

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     O primeiro  contacto que tive com A Vida Invisível de Eurídice Gusmão foi através deste cartaz, afixado  em vários locais, no Largo de  Santos, que anunciava o filme. Mais do que a imagem foi o título que me atraiu. Passado pouco tempo encontrei, por acaso, o livro na Livraria da Travessa.     Comprei-o para oferecer (sem sequer ter tempo de o ler antes de voltar a embrulhá-lo e oferecê-lo) e a amiga que o recebeu disse-me que tinha gostado muito. Pouco tempo depois vi o filme (ver trailer ). Extraordinário. Realizado por Karim Ainouz ganhou o prémio principal da Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes de 2019. O filme não é uma mera adaptação do livro, mas a mensagem está lá. A vida invisível das mulheres. Como diz a Martha Batalha, no início:     "Mas o mais real deste livro está na vida das duas protagonistas, Eurídice e Guida. Elas ainda podem ser vistas por aí. (...) Eurídice  e Guida foram baseadas nas vidas das ...