melhor não contar, Tatiana Salem Levy (Elsinore)
No livro fala
da doença e da morte da mãe, do luto, do assédio do padrasto, do aborto que
sofreu. Fala disso tudo enquanto lê as cartas que a mãe lhe escreveu, as
páginas do diário da mãe do tempo da sua adolescência e enquanto se interroga
sobre os efeitos da escrita:
“(…) Acho mesmo
que a escrita não redime, não sublima, não compensa nada. A perda dá início à
escrita, mas não há o movimento contrário. Digo: escrever não traz um passado
de volta, não me traz a minha mãe, não me faz ser amada.” (pg. 132)
Copio este
excerto e respiro fundo. Uma, duas, várias vezes. Sei que é verdade. E essa é a
grande dor que percorre o livro. A perda da mãe.
Numa entrevista
à agência Lusa, citada na Revista Sábado de 26 de outubro de 2024, Tatiana
explica:
"Aprendemos
a escrever para esse ser inanimado que é o querido diário. E escrevemos para
não sermos lidas, pelo contrário, precisamos esconder aquilo que escrevemos. E
eu acho que isso é muito simbólico do que é, do que tem sido até aqui, o lugar
da mulher na sociedade, que é esse lugar do sussurro, do murmúrio, aquilo que
tem de se falar por trás das cortinas, para ninguém ouvir".
No Clube de
Leitura dinamizado pelo Paulo Faria, na Livraria Almedina do Rato, tive
oportunidade de ouvir a Tatiana falar sobre os seus livros, deste em
particular. E só então me apercebi que os diários eram uma coisa feminina. Não
sei se ainda continuam a ser oferecidos às meninas, mas na minha geração, e
também na dos meus filhos, eram as meninas que as recebiam. Com um pequeno
cadeado, para garantir que ninguém o leria. Será que é justamente o inverso e a
ideia não é nos proteger, mas proteger os outros?
Daí a pergunta
que coloca:
“E agora,
quando decidimos nos expor, há sempre alguém para nos perguntar, Para que se
expor tanto?” (pg. 61) Pergunta que também faz a ela própria:
”Quero que
outras pessoas saibam o que aconteceu comigo?” (pg. 174)
A exposição incomoda
os outros, mesmo os que são próximos dela.
Gostei da
escrita fragmentada, interrompida do livro “melhor não contar”. E da exposição
a que se submete. Lembrei-me da escrita de Annie Ernaux, da forma como se expôs
nalguns dos seus livros, mas igualmente de Bea Lea, que em Corpo de Cristo fala na
doença mental da sua mãe, publicando também relatórios médicos.
“melhor não contar”
acaba com a lembrança de um dia passado à beira da piscina com a mãe e a irmã
mais nova. Respeitando o conselho que a mãe lhe dera pensando na irmã mais
velha, que falecera, mas também nela própria:
“(…) que eu não
vivesse apenas a perda, que me deixasse acompanhar pela lembrança.”

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