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O Diabo foi meu Padeiro, Mário Lúcio Sousa (D. Quixote)

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     Uma amiga emprestou-me este livro, que lhe foi oferecido com uma bonita dedicatória do Autor, que acaba com a frase «com o afeto dos mundos que somos.» Poucos dias depois, na Feira do Livro, encontrei o Mário Lúcio Sousa, sentado entre outros escritores, de língua portuguesa, ao dispor de quem lhes quisesse pedir um autógrafo ou uma dedicatória. Apesar de ter sentido que era absurdo sujeitá-los a esta situação, expectantes de leitores que por ali passassem e os reconhecessem, não resisti a comprar o último livro dele, Afrocalipse, e pedir que o dedicasse à minha amiga. Não me recordo do que escreveu, mas sei que foi algo igualmente bonito. Será que escreve o mesmo em todos os livros ou que guarda um conjunto de frases poéticas para as distribuir pelos livros que lhe pedem para assinar ou será que estas lhe surgem à medida que escreve dedicatórias?     Li O Diabo foi meu Padeiro enquanto decorrem escavações arqueológicas para localizar a Frigideira, a cela d...

Filho da PIDE, Paulo Jorge Pereira (Ed. Oro)

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     S em saber explicar porquê, tenho um gosto especial, e que penso que é comum, em ler um livro autografado pelo Autor. Tenho uma amiga que procura nos alfarrabistas livros com dedicatórias e se deleita a lê-las. Mas melhor do que um livro autografado pelo Autor, é um livro oferecido pelo próprio, como é o caso deste.   Nos tempos que correm, parece-me escusado referir a importância de falarmos sobre o passado, de o desentranharmos e trazermos à superfície. Um romance é uma forma de o fazer, porque não tem as limitações impostas por uma investigação histórica, que exige uma metodologia rigorosa e o respeito das fontes disponíveis, como escreve Luís Farinha no Preâmbulo . E porque pode chegar a mais gente.      Mas não é fácil escrever um romance sobre este tema, até porque o Paulo, justamente para poder lembrar que, tal como refere Chico Buarque, a « ameaça fascista persiste [em Portugal] como um pouco por toda a parte », coloca a ação em pleno séc...

Pai, tiveste medo? Catarina Gomes (matéria-prima edições)

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   Uma amiga ofereceu-me este livro, com um autógrafo da Autora, Catarina Gomes. Dela, já conhecia o trabalho extraordinário de investigação que deu origem ao livro e à série Furriel não é nome de pai .     Este livro, editado em 2014, tem alguns pontos de contacto com o livro Querido Pai - Uma conversa entre ausentes, Cartas da Guerra, 1961-1975 . Em Querido Pai , os filhos já eram nascidos quando os pais foram mobilizados e escreveram e receberam cartas dos pais, na sua maioria, militares de carreira e que, por isso, fizeram várias comissões e estiveram ausentes durante parte significativa da infância e juventude dos filhos. Em Pai, tiveste medo? trata-se de filhos nascidos depois de os pais regressarem. Futuros pais, como os designa a Autora. Nuns e noutros há marcas deixadas pela « guerra dos pais ». As perguntas que não foram feitas, nem nunca serão, são comuns nos dois casos, bem como a conclusão a que chega a Catarina Gomes, na introdução, « afinal não era p...

Lisboa, Porta do Mundo - Lisboa, Porta de Mim, José Fanha (Âncora editora)

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    Deu-me muito prazer ler esta autobiografia de José Fanha, porque me permitiu recordar alguns momentos que fazem parte da minha (nossa) história recente (hesito em classificá-la como recente, dados os mais de 50 anos que passaram desde então).     Nascido em Lisboa, em 1951, entra aos 10 anos para o Colégio Militar e encontra-se a estudar arquitetura quando se dá o 25 de Abril.      Nas páginas de Lisboa, Porta do Mundo, Lisboa, Porta de Mim, lembramos ruas e locais de Lisboa que ainda permanecem ou que já desapareceram, como se percorrêssemos um mapa que existe na memória, feito de passado e presente. Nestas deambulações, não pude deixar de soltar uma exclamação, saudosista, quando encontrei a referência à loja Porfírios, « a  loja onde se comprava roupa meio hippie, calças à boca de sino, camisas de longos colarinhos e flores por todo o lado » (pg. 105).     Encontramos também nomes de amigos, professores, poetas, músicos e muitas o...

Tamem digo, uma história de migrações, Jorge Pinto, ilustrações de Júlia da Costa

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     Mais um livro que me foi emprestado e que me surpreendeu. Uma homenagem à avó, que emigrou para França, ainda nova,  onde viveu em condições similares às que vemos agora em muitos bairros onde vivem os nossos imigrantes, e que quando regressou à sua aldeia natal, no norte, abriu um café/restaurante.      Ler este livro é quase como falar com o autor, o neto da avó Carmo. Começa por explicar como depois de várias tentativas frustradas, foi abandonando projetos e ideias e quase desistiu até descobrir os trabalhos de Lamia Ziadé (que apenas conheço através de algumas imagens e recensões na net). Decidiu então juntar imagens ao texto e "uns toques de história e política".     Pegamos em Tamem digo e só o pousamos quando acabamos de o ler.  Divertimo-nos e comovemo-nos ao lê-lo enquanto fazemos uma viagem no tempo, e encontramos pequenas coisas que fizeram parte do quotidiano daquela época, desde a decoração do café - e sobretudo os mosa...

melhor não contar, Tatiana Salem Levy (Elsinore)

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     Já acabei de ler este livro há algum tempo. Mexeu comigo. É sentidamente um livro autobiográfico. Não vivenciei algumas das situações vividas pela autora, mas identifiquei-me em muitas passagens do livro/da vida dela.   Em “melhor não contar”, a autora expõe-se, contando o que nós, mulheres, habitualmente guardamos ou escrevemos ou sussurramos apenas. O conselho que lhe é repetidamente dado, é que é melhor não contar. E ela reflete sobre o silêncio das mulheres, imposto ou mesmo autoimposto. Da recusa da exposição.     No livro fala da doença e da morte da mãe, do luto, do assédio do padrasto, do aborto que sofreu. Fala disso tudo enquanto lê as cartas que a mãe lhe escreveu, as páginas do diário da mãe do tempo da sua adolescência e enquanto se interroga sobre os efeitos da escrita:     “(…) Acho mesmo que a escrita não redime, não sublima, não compensa nada. A perda dá início à escrita, mas não há o movimento contrário. Digo: es...

A Casa das Tias, Cristina Almeida Serôdio (Teorema)

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      É frequente gostar dos livros que leio, menos frequente é ler livros que me dão vontade de escrever. Foi o que aconteceu com A Casa das Tias.     Confesso que embora tivesse gostado muito do outro livro da Cristina Serôdio, O Colégio , que me permitiu abrir gavetas onde se encontravam arrumadas memórias que pensava perdidas, não fiquei com vontade de as escrever, preferi mantê-las fechadas, apesar de agora dispor de uma chave para as abrir. De comum, nos dois livros, a belíssima escrita da Cristina.     No caso d’A casa das Tias, a vontade com que fiquei de escrever pode resultar do facto de ter também uma família muito grande. E se duvido que todas as famílias felizes são parecidas umas com as outras, sei, por experiência, que todas as famílias grandes são diferentes das outras famílias, sejam grandes ou pequenas.     A história da casa das Tias é contada porque M. – que é sempre assim designada-, que herda a casa onde cresceu o ...

Regressos quase perfeitos – memórias da guerra em Angola, Maria José Lobo Antunes (Tinta-da-China)

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      Regressos quase perfeitos , como explica a Autora, resulta essencialmente da tese de doutoramento em Antropologia que apresentou em 2015. O trabalho de pesquisa assentou em três pilares: as memórias pessoais, as narrativas que circulam na esfera pública e a representação oficial do conflito. Circunscreveu a recolha das memórias pessoais à Companhia de Artilharia 3313, onde o pai fez a comissão como médico, entre 1971 e 1973.  Volvidos quase 50 anos, quando entrevista os militares e participa nos encontros anuais comemorativos, os então jovens militares que integraram aquela Companhia são agora homens com cerca de 60 anos. Às memórias pessoais junta a obra literária do pai, António Lobo Antunes, em particular Cus de Judas, publicado em 1979, e as cartas de guerra que escreveu à mulher. Como refere na parte final, num subcapítulo com o título O Escritor :     « Às suas palavras é reconhecida a capacidade de representação da experiência comum. Elas estão...

A noite mais sangrenta, João Miguel Almeida (Manuscrito Editora)

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       Conheço mal a história da primeira República, embora a ache fascinante, sobretudo pelo que se avançou em vários domínios políticos e sociais, deixando outros esquecidos e, como, em tão pouco tempo, o regime entrou em convulsão e evoluiu para um regime autoritário.     No campo das mulheres, como esquecer a avançadíssima lei do divórcio ou a possibilidade de as mulheres exercerem desde 1918 a “profissão de advogado, ajudante de notário e ajudante de conservador “(sic), reconhecendo-se, contudo, nesse mesmo diploma, a impossibilidade de atribuir às mulheres o direito de voto, como acontecia nas designadas “adiantadas sociedades anglo-saxónicas”, sem que se desse qualquer explicação para esta impossibilidade.     Mas a instabilidade política foi a marca dominante da primeira República: em menos de 16 anos foram empossados 39 governos e 8 presidentes da República.     A noite mais sangrenta...

O Conquistador, Almeida Faria (Assírio e Alvim)

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    Li O Conquistador no âmbito do Clube de Leitura da Almedina, dinamizado por Paulo Faria. Do autor, Almeida Faria, já tinha ouvido falar, mas desconhecia a dimensão da sua obra, os prémios que tinha ganhado e as línguas para as quais já tinha livros traduzidos. O Conquistador é o seu sexto romance, publicado em 1990, e inclui um conjunto de desenhos fantásticos de Mário Botas, também autor da ilustração da capa.    Começo por confessar que gostei de ler um romance passado em Portugal, com nomes e lugares portugueses, com a nossa história e as nossas pequenas estórias e crenças.     Joana Correia de Castro e João de Castro, faroleiro, viviam no Cabo da Roca. Como não tinham filhos, ficaram com a criança encontrada na praia da Adraga, depois da tempestade mais tremenda de que as pessoas se lembravam. Segundo a avó Catarina, a criança estava «metida num ovo enorme, com a cabeça, as pernas e os braços de fora» e não podia ser um acaso ter vindo ao mundo ...

Autobiografia não escrita de Martha Freud, Teolinda Gersão (Porto Editora)

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      Tenho a sorte de ter amigos que antecipam os livros que quero ler e mos oferecem. Foi o caso deste, Autobiografia não escrita de Martha Freud, de Teolinda Gersão.     Confesso que não gosto de Freud, apesar de pouco mais saber sobre o seu trabalho que os lugares-comuns, como o complexo de Édipo, o complexo de castração ou as fases do desenvolvimento de uma criança. Foi seguramente inovador para a época, mas sendo difícil discernir o autor da obra, não consigo dissociá-la do que sei sobre a sua vida. E parte do que sei resultou da leitura de um outro livro, A irmã de Freud, de Goce Smilevski:     Antes do eclodir da II Guerra Mundial, Sigmund Freud recebe um visto para sair da Áustria, rumo a Londres. Da lista que entregou às autoridades fazem parte a mulher, os filhos, o médico, a família do médico, as criadas e mesmo o cão. Na lista não incluiu as suas irmãs. Sem qualquer razão aparente, apenas o argumento que avança: “Se fosse necessário vo...

cacimbados, a vida por um fio, Manuel Bastos (Babel editores)

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      Cacimbados, a vida por um fio é um livro sobre a guerra colonial. De acordo com a badana, em 1972 o Autor foi mobilizado para a ex-colónia de Moçambique, onde cumpriu o serviço militar obrigatório até ser ferido em combate, um ano depois.      Apesar de já ter lido vários livros sobre a guerra colonial, a leitura de os cacimbados impressionou-me muito. Capítulos curtos, narrados na primeira pessoa, mostram o horror da guerra e o medo que persiste e acompanha a vida de todos os que nela[s] combatem. A lotaria da guerra, o absurdo de morrer sem se dar por isso, mesmo  aqueles que ladeiam os que morrem, impressionam quem lê os cacimbados.     A mensagem que Manuel Bastos quer deixar com este livro não poderia ser mais atual e importante nos dias que correm:     «Que este livro seja entendido como um apelo para que não caia no esquecimento uma guerra que poderia ter sido evitada, ou que pelo menos poderia ter sido terminada com ho...

Manual de infidelidade, José Gameiro (Avenida da Liberdade Editores)

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      Exerci advocacia durante um período muito curto. O suficiente para perceber que não era isso que queria fazer. Era então uma profissão diferente da atual, em que os advogados eram uma espécie de médicos de clínica geral: recebiam quem lhes batia à porta e passavam rapidamente de questões laborais, a questões sucessórias ou de família. Os divórcios eram ainda matéria obrigatória de tribunais e de advogados e por isso, mesmo tendo exercido por pouco tempo, contactei com alguns casos de divórcio.     As reuniões, as conversas - melhor dizendo, as discussões - com os ainda cônjuges, deixavam-me sempre um travo amargo na boca. Mas apesar da curta experiência também me apercebi ou aprendi que, como refere o Autor, ao contrário do que se possa pensar, a infidelidade não é o principal motivo de divórcio. E também que é falso que se um casal estiver bem, nada acontece. No Manual de infidelidade, José Gameiro fala nas causas, no percurso da infidelidade ...

Um Pássaro no Arame, Manuel Alberto Vieira (Edições Caixa Alta)

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    «Um pássaro no arame» foi o quarto livro escolhido para ler e debater no Clube de Leitura da Almedina Rato, com curadoria de Paulo Faria. Os anteriores foram Um Detalhe Meno r , de Adania Shibli, Um dia na vida de Abed Salama, de Nathan Thrall, e Uma abelha na chuva , de Carlos de Oliveira. Destes só não tinha lido o segundo, que li, entretanto, e que me impressionou muitíssimo, embora me parecesse que nalgumas partes o autor se alongasse demasiado com a parte histórica e política.     Talvez pela seleção dos primeiros livros, custou-me entender a escolha de Um pássaro no arame, que trata um tema completamente distintos dos anteriores.      Ao longo da leitura fui-me lembrando do princípio de Tchekhov, segundo o qual se numa peça de teatro aparece uma espingarda numa parede ela será disparada mais à frente, isto para evitar elementos inúteis numa narrativa ou criar expetativas sem qualquer fundamento. Ora, em Um pássaro no arame, há...