O Diabo foi meu Padeiro, Mário Lúcio Sousa (D. Quixote)

O Diabo foi meu Padeiro

     Uma amiga emprestou-me este livro, que lhe foi oferecido com uma bonita dedicatória do Autor, que acaba com a frase «com o afeto dos mundos que somos.» Poucos dias depois, na Feira do Livro, encontrei o Mário Lúcio Sousa, sentado entre outros escritores, de língua portuguesa, ao dispor de quem lhes quisesse pedir um autógrafo ou uma dedicatória. Apesar de ter sentido que era absurdo sujeitá-los a esta situação, expectantes de leitores que por ali passassem e os reconhecessem, não resisti a comprar o último livro dele, Afrocalipse, e pedir que o dedicasse à minha amiga. Não me recordo do que escreveu, mas sei que foi algo igualmente bonito. Será que escreve o mesmo em todos os livros ou que guarda um conjunto de frases poéticas para as distribuir pelos livros que lhe pedem para assinar ou será que estas lhe surgem à medida que escreve dedicatórias?
    Li O Diabo foi meu Padeiro enquanto decorrem escavações arqueológicas para localizar a Frigideira, a cela de castigo do Tarrafal,  construída após uma primeira tentativa de fuga em 1937. Segundo a Lusa, testemunhos guiaram arqueólogos - cabo-verdianos e portugueses - a redescobrir a Frigideira do Tarrafal. A Frigideira foi arrasada após o fim da II Guerra Mundial, quando o regime tentava camuflar o sistema repressivo, contudo, a memória entre os presos manteve-se e foi fundamental para a sua descoberta.
    Mas o sofrimento dos presos não passa só pela detenção na Frigideira, passa também pela fome, pela falta de água, pelo calor, pelos piolhos e mosquitos, pelos trabalhos forçados e inúteis a que são obrigados, pelas doenças que sofrem e pela ausência de tratamento. Pela censura na pouca correspondência que recebem. 
    Ao mesmo tempo que somos confrontados com o sofrimentos dos presos, somos tocados pela solidariedade que desenvolvem entre eles e pelas histórias de alguns presos, como Bento Gonçalves, Secretário-Geral do Partido Comunista Português, que termina por morrer no Tarrafal, ou do pai e filho Gabriel e Edmundo Pedro ou do preso Álvaro Duque que segue e domestica uma galinha, conseguindo arranjar e distribuir ovos pelos presos que estão doentes.

    A descrição da vida dos presos (das várias "gerações" de presos) é tão sentida que em vários momentos o relato me pareceu autobiográfico, o que se justifica pelo facto de o Autor ter se baseado no testemunho e depoimentos de muitos presos. Dedica o livro aos que estiveram presos no campo de concentração do Tarrafal, cujos nomes indica, primeiro os portugueses, de longe em maior número, seguido dos angolanos, guineenses e cabo-verdianos. O Diabo foi meu Padeiro integra a história desta sucessão de presos, das suas vivências anteriores e que os conduziram à prisão e do período em que ali permaneceram, pela voz de Pedro, nome partilhado por vários prisioneiros. 
    No meio destas histórias horríveis de violência e sofrimento, há alguns raros assomos de generosidade ou gentileza dos guardas ou mesmo, embora excecionalmente, de um diretor - e o confronto com situações caricaturais, como a criada em 1953 quando no campo de concentração do Tarrafal apenas fica um preso: o Francisco Miguel:
    "(...) um Campo com quatro pavilhões de trinta metros cada, uma despensa e um armazém, oito casernas, uma enfermaria, uma secretaria, uma central elétrica, a Frigideira, um lavadouro, três oficinas, uma biblioteca, uma retrete, uma cozinha, um refeitório, uma vala, duzentos e quatro quilómetros de arame farpado, uma companhia de soldados, um corpo de guardas, tudo para um único homem, é da breca.
    (...) Isto é a exacta caricatura de Portugal neste nebuloso e derradeiro ano de1953." (pg. 177)
    
    Apesar de conhecer os princípios gerais do Estatuto do Indigenato, confesso que me chocou imenso os excertos e a prática descritos pelos presos guineenses, apesar de comentarem que "eles escrevem mal o português (pg. 191):

    "Então pa tu seres aceite como assimilado, tens que comer na mesa, usar garfo e faca, ter salário, imitar estilo de vida português, provar que já não praticas cerimónias tradicionais, que usas rupas como europeu. Mulheres têm de desfrisar cabelo, desfazer as tranças africanas. Até a polícia vai perguntar aos comerciantes quantos litros de vinho tu compras por semana, se compras bacalhau e grão de bico. Só com tudo isso comprovado podes ser funcionário público, porque só cidadão assimilado é que pode ser funcionário público, e teus filhos então podem ir pa escolas centrais, escolas de Estado. É justo? (pg 249)

    Publicado quando se assinalavam os 45 anos do encerramento do campo de concentração do Tarrafal, é um livro indispensável, quando se tenta escamotear, ridicularizar ou reduzir os números  de presos e mortos pelo regime do Estado novo.

   Uma mensagem que não resisti a roubar e publicar:

    "Portanto, Pedrinho, só mudamos o mundo com as nossas acções, não com as dos outros." (pg. 272)


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