Pai, tiveste medo? Catarina Gomes (matéria-prima edições)
Uma amiga ofereceu-me este livro, com um autógrafo da autora, Catarina Gomes. Dela já conhecia o trabalho extraordinário de investigação que deu origem ao livro e à série "Furriel não é nome de pai".Este livro, editado em 2014, tem alguns pontos de contacto com o livro Querido Pai - Uma conversa entre ausentes, Cartas da Guerra, 1961-1975. Em Querido Pai, os filhos já eram nascidos quando os pais foram mobilizados e escreveram e receberam catas dos pais, na sua maioria, militares de carreira e que por isso fizeram várias comissões e estiveram ausentes durante parte significativa da infância e juventude dos filhos. Em Pai, tiveste medo? trata-se de filhos nascidos depois dos pais regressarem. Futuros pais, como os designa a Autora. Nuns e noutros há marcas deixadas pela "guerra dos pais". As perguntas que não foram feitas nem nunca serão, são comuns nos dois casos, bem como a conclusão a que chega a Catarina Gomes, na introdução, "afinal não era preciso ter vivido a guerra para se ter memórias".
As histórias e as vivências destes filhos são muito distintas entre si e dependem não só da vivência dos pais, mas sobretudo da forma como eles as viveram e transmitiram aos filhos, a começar por Teresa, cujo pai foi feito prisioneiro na Guiné. Libertado ao fim de quase três anos, depois de ter presenciado situações terríveis, chegou abalado e isolou-se. Mas conseguiu recuperar e refazer a vida. Casou com a namorada que nunca desistiu de esperar por ele. Outros pais destas histórias chegaram transtornados, com stress pós-traumático, tornaram-se violentos para as mulheres e filhos, com a complacência das autoridades e a resignação das famílias. Para outros, a mobilização foi a possibilidade de fugirem das vidas que tinham e do destino que lhes estava traçado.
Quanto aos filhos, as histórias também são muito distintas e é esta a riqueza deste livro: há a história da menina nascida quando o pai estava mobilizado na Guiné e a mãe era uma jovem nativa guineense, de etnia papel. O pai trouxe-a e foi educada pela avó paterna. Só muitos anos depois soube que a mãe não a tinha abandonado e já tinha mais de 30 anos quando conheceu a mãe. Apesar da ligação que sentiram, mãe e filha, aceitaram a situação porque sabem que na Guiné nunca poderia ter tido a vida que teve. Há a história do Pedro, que foi encontrado por militares, muito debilitado e se tornou a mascote da companhia. Quando a companhia regressa, vem com eles e vai para a Beira Alta, para a casa de família de um alferes. Na época da guerra "havia a moda da criança nativa tornada mascote" (pg. 237). A pouco e pouco tem recuperado memórias, e põe mesmo a hipótese de a família o ter tentado recuperar. Não julga aqueles que o trouxeram.
Também ficamos a saber a história da filha de um militar do PAIGC, que morreu antes de ver a independência do seu país, e a do filho de um guineense, militar português, e que passou de herói a traidor, ou a do filho cujo pai desapareceu na guerra, nunca tendo sido recuperado o corpo, ou do filho cujo pai ficou mutilado por ter pisado uma mina ou do filho de uma mulher paraquedista.
O título pode parecer adequado, a pergunta que os filhos gostariam de fazer aos pais que estiveram na guerra, mas de facto, em nenhuma destas histórias esta pergunta é feita. Nalguns casos até reconhecem que preferem não ouvir a resposta.
Mas as histórias dos pais contadas pelos filhos, mais de 40 anos depois, a diferença das histórias e, sobretudo, a percepção que a guerra passa para geração seguinte, obriga-nos a refletir sobre a guerra e a recusá-la sempre. Em qualquer circunstância, porque a guerra - qualquer guerra - não acaba no dia em que é negociada a paz. Permanece em quem a viveu e em todos os que os rodeiam e passa para a geração seguinte. E pensamos nas guerras que agora existem em várias partes no mundo e nos efeitos devastadores que têm e terão.

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