Lisboa, Porta do Mundo Lisboa, Porta de Mim, José Fanha (Âncora editora)
Deu-me muito prazer ler esta autobiografia de José Fanha, porque me permitiu recordar alguns momentos que fazem parte da minha (nossa) história recente (hesito em classificá-la como recente, dados os mais de 50 anos que passaram desde então).
Nascido em Lisboa, em 1951, entra aos 10 anos para o Colégio Militar e encontra-se a estudar arquitetura quando se dá o 25 de Abril.
Nas páginas de Lisboa, Porta do Mundo, Lisboa, Porta de Mim, lembramos ruas e locais de Lisboa que ainda permanecem ou que já desapareceram, como se percorrêssemos um mapa que existe na memória, feito de passado e presente. Nestas deambulações, não pude deixar de soltar uma exclamação, saudosista, quando encontrei a referência à loja Porfírios, "a loja onde se comprava roupa meio hippie, calças à boca de sino, camisas de longos colarinhos e flores por todo o lado" (pg. 105).
Encontramos também nomes de amigos, professores, poetas, músicos e muitas outras pessoas, que conheceu, com quem aprendeu e com quem partilhou o palco e que é tão bom lembrar, muitas vezes acompanhados de pequenas histórias ou lembranças.
Em todas estas memórias, há uma em particular que gostei muito de recordar: A visita da Cornélia. Admito que haja gravações que me permitiriam ver as os episódios deste concurso, mas prefiro que permaneçam na minha memória como então as registei, como momentos de uma imensa criatividade por parte dos participantes, que eram surpreendentes num país ainda marcado pelo cinzentismo que nos tinha governado durante tantos anos.
A visita da Cornélia teve tanto impacto que foi organizada nalgumas localidades, embora sem ser transmitida pela televisão. Em Paço de Arcos foi organizada por um conjunto de amigos, em que se incluíam os meus pais. Não como participantes, mas como equipa de apoio a um - ou seriam mais? - participantes. Lembro a casa totalmente virada de pernas para o ar, com o meu quarto e da minha irmã transformado em camarim e a sala em palco onde eram ensaiadas as provas.
De alguma forma, as recordações do pós 25 de Abril misturam-se com esses ensaios na minha casa, como se a revolução se manifestasse também nessa forma de participação.
O título do livro é muito adequado porque Lisboa está sempre presente:
"Toquei noutras terras. Cheirei outra comida. Molhei os olhos noutros mares. Mas Lisboa veio sempre comigo. no bolso, nos olhos e no coração."
Acho muito importante estes exercícios de memória e de transmissão porque, como refere Chimamanda Ngozi Adichie em Notas sobre o luto, quando perde o pai e percebe que houve muita coisa que não lhe perguntou:
"Há uma sensação, que é assustadora, da nossa ancestralidade
a escapar-nos, mas pelo menos sobra-me o suficiente para criar mitos, senão
memórias."

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