Filho da PIDE, Paulo Jorge Pereira (Ed. Oro)

Filho da PIDE    Sem saber explicar porquê, tenho um gosto especial, e que penso que é comum, em ler um livro autografado pelo Autor. Tenho uma amiga que procura nos alfarrabistas livros com dedicatórias e se deleita a lê-las. Mas melhor do que um livro autografado pelo Autor, é um livro oferecido pelo próprio, como é o caso deste.
  Nos tempos que correm, parece-me escusado referir a importância de falarmos sobre o passado, de o desentranharmos e trazermos à superfície. Um romance é uma forma de o fazer, porque não tem as limitações impostas por uma investigação histórica, que exige uma metodologia rigorosa e o respeito das fontes disponíveis, como escreve Luís Farinha no Preâmbulo. E porque pode chegar a mais gente. 
    Mas não é fácil escrever um romance sobre este tema, até porque o Paulo, justamente para poder lembrar que, tal como refere Chico Buarque, a «ameaça fascista persiste [em Portugal] como um pouco por toda a parte», coloca a ação em pleno século XXI, mais de 40 anos depois do 25 de Abril. E conta a história criando suspense até ao fim.
    É quase impossível não associar algumas personagens do livro a pessoas conhecidas desse período: a mãe, como a PIDE Leninha, como era conhecida Madalena das Dores Oliveira, a primeira mulher a chegar a Chefe de Brigadas da PIDE, que, como refere a sinopse de um programa da RTP, «se distinguiu pela forma desumana como atuava». Outra personagem, a Maria da Luz, representa muitas mulheres que foram presas e torturadas, mas lembrei-me logo da Maria Conceição Matos, que também presta testemunho neste programa. Mas houve muitas mais. 
    Filho da PIDE alia a parte histórica, com personagens e factos que reconhecemos e identificamos, a  uma história imaginada, com personagens ficcionadas, e que se cruzam muitos anos depois. Há também a recusa de uma visão maniqueísta sem, contudo, deixar de apontar e descrever os horrores vividos no Estado Novo, nas prisões da PIDE. E que muitos negam na atualidade.
   Citando George Santayana: «aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.»

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