Vista Chinesa, Tatiana Salem Levy (Elsinore)

 

    Depois de ler “Melhor não contar” não resisti a ler de seguida este livro da mesma autora. Admito que a leitura da “Vista Chinesa” tenha sido contagiada pela leitura daquele outro livro. Não é estragar o prazer de quem o vai ler, dizer que “Vista Chinesa” conta a história da violação de uma mulher jovem, e a forma como sobrevive ao horror que viveu, porque isto está escrito na parte de trás do livro.

     Mas, influenciada por “melhor não contar” em que a narradora (que não conseguimos deixar de identificar com a Autora) conta que a mãe foi violada num táxi, quando era jovem, comecei por pensar que a Júlia era a mãe e que este livro era sobre o horror que a mãe tinha vivido. Horror que se tinha transmitido à filha, porque a mãe lho tinha contado, mas também pelo que a narradora considera os misteriosos processo que garantem a transmissão de acontecimentos sofridos pelos pais (“será que por terem morado nove meses na minha barriga vocês sabem que um dia um homem  entrou em mim à força, com tanta força que encostou ali mesmo, naquele útero onde vocês cresceram, será que os traumas dos pais passam para os filhos mesmo se não contarmos nada (…)” (pg. 33)

    Também neste caso, repetindo a situação descrita em "melhor é não contar" - e que justifica o título -, perante a ideia que tem de contar aos filhos, o médico responde “você pode perfeitamente não contar”.

   Mas no final, numa nota da autora, ficamos a saber o nome da mulher jovem violada, que afirmou: “Não tenho vergonha do que aconteceu. Eu quero que você escreva que isso aconteceu de verdade – e que aconteceu comigo, Joana Jabace. ”As mulheres violadas, assediadas, agredidas têm de falar, têm de contar e têm de deixar de ser julgadas pelo que aconteceu." E nota-se que o relato da violação e das consequências na mulher violada é de tal forma violento e sentido que só pode resultar de uma enorme amizade e cumplicidade entre a Joana e a Tatiana, permitindo que esta transmita de forma tão emotiva o que viveu e sentiu.

    Nunca me aconteceu algo tão horrível como a relatada em Vista Chinesa, mas há uns anos na sequência de um assalto violento, vivenciei a mesma situação relativamente à identificação do suspeito. Identifiquei-me completamente com os problemas relatados, no conflito entre identificar o assaltante e garantir que é preso para poder parar de ter medo e o receio de me enganar na pessoa. Senti também a urgência das autoridades policiais em prenderem um suspeito e a insistência na identificação. E até as palavras e preconceitos (de dois lados do Atlântico) eram idênticos. Várias vezes tivemos de insistir que o assaltante era de pele e cabelo claros e que não tinha nada a ver com as pessoas alinhadas mais do que uma vez na sala para identificação.

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