Um dedo borrado de tinta, Catarina Gomes (Fundação Francisco Manuel dos Santos)
Como é um livro pequeno - menos de 100 páginas -
pareceu-me ideal para levar para a praia nos primeiros dias de férias. Enquanto
o lia, interrompia sistematicamente a leitura e obrigava quem estava próximo a
parar também de ler e a dar-me atenção, enquanto eu, surpreendida e, nalguns
casos horrorizada, lia pequenos excertos em voz alta.
Catarina fala com 6 pessoas - é mais correto dizer
que ela conversa com as pessoas do que dizer que as entrevista - todas
residentes em Casteleiro, no distrito da Guarda, freguesia que escolheu por ser
uma das que tem maior taxa de analfabetismo. Alguns chegaram a frequentar
a escola, mas desistiram porque os pais precisavam que trabalhassem em casa ou
na lavoura ou pelos maus-tratos a que foram sujeitos ou ainda, como Horácio
conta - na primeira história, Agá - a professora deixou de o ensinar e pô-lo a guardar
os filhos dela. Catarina Gomes cita uma investigação «O que ficou na memória:
os castigos corporais na escola primária, 1900-1960», de Maria João Pégo
António, que enumera os castigos morais e psicológicos que incluíam «ficar de
castigo num quarto escuro», «orelhas de burro» ou ficar «ajoelhado sobre as
mãos a fazer o “santo”», tendo nalguns casos, raros, sido abertos processos
disciplinares contra os professores. Uma das pessoas com quem a Catarina fala, com
72 anos e que diz que as pessoas da geração dela já sabem ler, conta que perdeu
um ano porque um dia a professora lhe bateu com a vara de marmeleiro na cara. «Não
me matou porque não calhou.»
Compreendemos também a enorme
limitação que representa hoje ser-se analfabeto (até para escolher sapatos pelo
número), o que é agravado pelo facto de se tratar de pessoas idosas e a viver numa
aldeia despovoada e sem os filhos por perto. Todas elas tentam provar que
apesar de não saberem ler, são capazes e têm outros conhecimentos, mais úteis e
necessários que a leitura.
A leitura deste pequeno
livro Um dedo borrado de tinta impressionou-me muito. Sei, que apesar dos
muitos defeitos que apontamos e que têm hoje as nossas escolas, um mundo de
distância separa aquele tempo dos dias de hoje.

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