Soldados de Salamina, Javier Cercas (Porto Editora)

 

Soldados de Salamina
    Li recentemente O Louco de Deus no Fim do Mundo e falaram-me deste outro livro do mesmo autor, editado em Espanha em 2001. O resumo da história está na contracapa pelo que não estragarei o prazer da leitura contando-a:

    "No final da Guerra Civil Espanhola, um grupo de prisioneiros nacionalistas é executado perto da fronteira com França. Entre eles encontrava-se Rafael Sánchez Mazas, um dos fundadores e ideólogos da Falange, futuro ministro de Franco e poeta, que conseguiu escapar e refugiar-se no bosque. Até que um soldado republicano o descobre, aponta-lhe uma arma e, olhando-o nos olhos, poupa-lhe a vida. Sessenta anos mais tarde, um romancista em crise desenterra este episódio e propõe-se a investigar as circunstâncias daquele gesto de misericórdia."

    Quando acabei de ler Soldados de Salamina, senti de alguma forma o mesmo que senti quando virei a última página de O Louco de Deus no Fim do Mundo: o Autor tem uma história extraordinária na mão, no primeiro caso o soldado republicano que escolhe não denunciar, nem matar um falangista que acabou de fugir de um fuzilamento, naquele outro a resposta do Papa à pergunta: a minha mãe verá o meu pai depois da morte? 

    Mas depois de contar estas histórias, ambas verídicas, fica com um romance por escrever. Em minha opinião, é mais bem sucedido em Soldados de Salamina. Não querendo porventura contar a história e a vida de Rafael Sánchez Maza, que ganhou alguma notoriedade com este romance, mas já era conhecido antes, sobretudo durante o franquismo, quer como político - foi ministro num dos primeiros governos de Franco -, quer como escritor, embora menor, mas também devido à história da sua sobrevivência, decide procurar o jovem soldado republicano e conhecer a sua versão da história.

    E o leitor (pelo menos eu) deseja tanto conhecê-lo e percebê-lo, como o autor. E é nesta procura que reside o encanto de Soldados de Salamina, nesta história que mistura testemunhos reais e conjecturas. 

    Enquanto lia Soldados de Salamina, a RTP2 transmitiu o filme com o mesmo título, realizado por David Trueba. Acho sempre que a adaptação ao cinema é inferior à obra que lhe deu origem, mas neste caso há uma cena em que a imagem e o som ultrapassam as palavras escritas. Durante o período em que Sánchez Maza estava preso um soldado canta Suspiros de España «em voz alta, sorrindo e, deixando-se arrastar por uma força invisível, levantou-se e começou a dançar pelo jardim com os olhos fechados, abraçando a espingarda como se fosse uma mulher, da mesma forma e com a mesma delicadeza, e eu, os meus companheiros e os restantes soldados que nos vigiavam , até os carabineiros, ficámos a olhá-lo, tristes, atónitos ou trocistas, mas todos em silêncio, enquanto ele arrastava as suas botifarras militares pelo cascalho cheio de beatas e de restos de comida como se fossem sapatos de dançarino numa pista imaculada e, nessa altura, antes que acabasse de dançar a canção, alguém disse o seu nome e insultou-o afetuosamente e então foi como se o feitiço se quebrasse (...)» (pg. 101)

    A descrição é extraordinárias, mas no filme esta cena é de uma beleza inolvidável.

    Uma última palavra para o título: Soldados de Salamina. Salamina foi uma batalha naval entre gregos e persas, de que os primeiros saíram vencedores. Há quem refira que Sánchez Maza tinha interesse nesta batalha, por considerar que os falangistas teriam salvado o país da destruição, tal como os gregos, mas parece-me absurdo que fosse essa a razão que justifica a escolha do título. Parece-me mais curial o argumento de que a  escolha do título se deva  à ideia expressa por Javier Cercas de que para a sua geração - o Autor nasceu em 1962 - a guerra civil espanhola está tão distante como a batalha de Salamina, apesar das consequências das duas batalhas terem persistido até ao presente.




Como es lo usual en Cercas, el título de la obra es ambiguo y solo fue escrito cuando la novela ya estaba prácticamente finalizada. El nombre Soldados de Salamina alude a la famosa batalla de Salamina en la que los griegos, comandados por Temístocles, vencieron en un combate naval al imperio persa, comandado por Jerjes I, y lograron así salvar su nación, y con ello la democracia y la civilización occidental como entonces se conocían. Aunque el argumento de la novela no tiene que ver directamente con este episodio histórico, dicha batalla era uno de los tantos y variados temas de interés de Sánchez Mazas.[15]

Asimismo, el autor ha comentado que para el narrador de la novela y su generación, la guerra civil española es algo tan distante como la batalla de Salamina, pero al mismo tiempo, las consecuencias de ambos conflictos persisten hasta el presente. Así, el título se abre a distintas lecturas, pues para Sánchez Mazas, es el ejército falangista el que salva la civilización de la barbarie; mientras que en la novela quienes la salvan son Miralles y sus soldados de la resistencia; o bien simplemente lo es un hombre que salva a otro hombre.[15

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