Morrer na Praia, Leonardo Padura (Porto Editora)
Morrer na Praia não é o melhor título de livro para ler na praia, mas foi o meu companheiro das tardes de verão, no areal branco da praia da Consolação. Em espanhol o título é Morir en la arena. Penso que terá o mesmo significado que o título português: falhar perto de um objetivo. O Priberam esclarece que a expressão morrer na praia significa “Falhar ou desistir de algo que estava prestes a ser concretizado ou bem-sucedido”.
Como podemos ler na contracapa, “A vida de Rodolfo, foi marcada pelo trauma da sua passagem pela guerra em Angola, mas sobretudo pelo homicídio do pai às mãos de Geni, o seu irmão mais velho, na casa ao lado daquela onde ainda mora. Agora que se reformou e só lhe resta a monotonia dos dias – salpicada apenas pela emoção de uma intimidade inesperada com a vizinha Nora, o seu velho amor da juventude e atual mulher de Geni, Rodolfo recebe uma notícia inquietante: gravemente doente, o irmão será libertado e levado para a casa da família, onde passará os seus últimos dias. Na espera que se segue, reavivam-se velhos rancores e segredos há muito enterrados, em particular os que envolvem o crime sangrento que mudou a vida de todos os membros daquela família.”
Mas como acontece nos outros romances deste autor, não se trata apenas da história do encontro (confronto?) entre os dois irmãos, porque através deles conhecemos a história e a vida de quatro gerações e, especialmente a vida atual do povo cubano. A história da família, das quatro gerações, os avós, os pais, os dois irmãos Eugénio (Geni) e Rodolfo e das suas duas filhas, pode ser encarado como o retrato de quatro gerações.
A avó de Geni e Rodolfo, que tinha em casa uma modesta loja onde vendia doces a crianças, teve de a fechar depois da revolução. Anos depois, em 1986, Rodolfo é convocado para o informarem que fora “escolhido para a honrosa responsabilidade de cumprir uma missão na República Popular de Angola” e é lá que vê um companheiro morrer ao pisar uma mina. Nessa altura, Geni é enviado para a RFA para que fortalecesse “a sua consciência revolucionária através do contacto com operários de outros países irmãos” (pg. 103). Quando regressa já não existia o muro de Berlim. Na altura em que Geni sai da prisão, o irmão está reformado embora a reforma mal lhe dê para sobreviver. As filhas dos dois irmãos vivem em Espanha.
Porventura, a personagem mais surpreendente é Humbertico, filho de um grande amigo de Geni, e alter ego do autor:
“A bruxaria, a adivinhação, a proteção divina, já sabes, essas coisas vendem-se melhores de dia para dia, quase mais do que a comida. Deve ser a indústria mais próspera deste país, que já nem açúcar produz. E tu sabes que o Humbertico é uma estrela. O superbabalaô….
Que loucura… No fim de contas, o Humbertico acaba por ser o Homem Novo do socialismo cubano: batizado pela Igreja Católica, pai de santo afro-cubano e homem de negócios…” (pg 84 e 85).
O último capítulo do livro tem o título Epílogo – Depois da morte: redenção e escrita.
O autor, amigo de Geni, justifica a escrita deste livro:
“O que nunca disse, creio que só para manter Nora em suspenso e convenientemente afastada do que na realidade procuro, é que, sobre quem pretendo e vou por fim escrever, é sobre gente como ela e como Rodolfo: sobre os derrotados ou vencidos que nunca deram luta, sobre os maltratados, sobre as pessoas comuns e correntes, esses seres que resvalam em direção a um fim de vida lamentável. Não por terem cometido crimes desprezíveis, grandes erros ou acumulado muitas dúvidas, mas apenas por lhes ter calhado viver no seu tempo e espaço, por terem tomado (ou não) determinadas decisões por terem sido vítimas do medo.”
E é na história das pessoas comuns e correntes, a quem calhou viver naquele tempo e espaço, que entrevemos uma sociedade desiludida e derrotada. A morrer na praia.

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