O perfume das flores à noite, Leila Slimani (Alfaguara)

    Há qualquer coisa nesta capa que me atraiu imediatamente. Uma imagem difusa, escura, na qual se destacam as pernas em andamento de uma mulher, escondidas a partir dos joelhos por um tecido branco. Uma mulher caminha descalça na noite. Percebemos depois que representa a noite que a autora passou no Museu Punta della Dogana, em Veneza.

   O convite foi feito pela editora, Alina Gundiel, no âmbito de um projeto que deu origem à coleção “A minha noite no museu”. Há já vários volumes publicados nesta coleção, envolvendo sobretudo escritores e museus de França, mas também de outros países, como Líbano, Itália, Espanha ou Grécia. Nenhum autor ou museu português, o que lamento. Imaginei logo uma noite no Museu do Chiado ou no Museu Nacional de Arte Antiga.

    A ideia é que o escritor explore o sentimento de solidão provocado pela noite de isolamento e escreva um livro nela inspirado. Leila Slimani quer recusar o convite ou qualquer outro convite que lhe seja feito porque, como escreve logo no início: “A primeira regra quando se escreve um romance é dizer não.” E mais à frente: “A escrita é disciplina. É renúncia à felicidade.” Mas aceita-o. Depois de viajar até Veneza e ao Museu, onde o guarda que a recebe, lhe faz uma visita rápida e lhe mostra onde é a casa de banho e onde montaram a cama, ela divaga descalça pelo museu e pelas suas memórias. O verbo correto seria flanar, ela flana pelo museu, mas penso que é uma expressão que em português praticamente não se utiliza. Curiosamente a tradutora do livro, Isabel Castro Silva, manteve em francês a expressão “flâneur” (pg. 37).

    Ao longo da noite e do Museu vai desfiando memórias, refletindo sobre as obras que vê e sobre o pouco que sabe sobre arte contemporânea. Recorda que em Rabat, onde cresceu, não havia museus e que as primeiras vezes que entrou num museu ou num teatro, em Paris, ficou impressionada e pouco à vontade. E ainda mantém essa incomodidade, quando se surpreende com uma obra exposta – um balão que contém o sopro de dois artistas – que considera trivial, embora se culpe por isso. Mas apesar disso, não deixa de refletir que “Quanto menos a obra é produto de uma técnica ou de um trabalho complexo, tanto maior é a necessidade de criar este círculo de «iniciados» que a validam: sim, é sem dúvida arte.” (pg. 57)

    O título O perfume das flores à noite deve-se a uma obra que ocupa o centro do museu, terrários gigantes com vidros fumados através dos quais se entreveem ramos e folhas da dama-da-noite, uma planta familiar em Marrocos. Havia justamente uma perto de sua casa em Rabat e por isso no verão deixavam a janela aberta e sentiam o cheiro “inebriante e adoçado” da planta, que recorda também como perfume da liberdade, por ser o que sentia quando saía à noite com amigos.

    Como num labirinto, regressa sempre à sua infância, às suas memórias em Rabat, à sua família e ao seu pai que, segundo conta, foi injustamente acusado e preso. Depois de ter morrido foi ilibado de todas as acusações, mas, como refere, “o destino do meu pai pesou sempre sobre o meu.” (pg. 107).

    Termina por adormecer e acordar em sobressalto, abanada por um homem que começa depois a limpar a sala onde ela dormiu.  Nestas deambulações da autora, não me senti a vaguear pelo museu, nem tive curiosidade em saber quem eram os artistas ou as obras de que falava, mas gostei deste regresso ao passado e sobretudo das reflexões sobre a escrita e sobre os escritores:

    “Nos livros que me fascinaram, os autores parecem animados por uma tal empatia que as existências mais triviais, os sentimentos mais quotidianos se adornam de magia. Qualquer coisa de grandioso parece sair das nossas vidas miseráveis. Eles deram-me a esperança ou a ilusão de que nos podemos compreender, de que podemos mesmo perdoar-nos sem nos julgarmos. De que não estamos condenados à solidão fria e interminável.” (pg. 112)

    Ao ler o fim do livro, lembrei-me de uma história que a minha sogra contava: ela gostava muito de desenhar e era vizinha do Cutileiro, em Évora, a quem um dia mostrou os desenhos. Ele disse-lhe que eram bons e de seguida perguntou-lhe se ela conseguia viver sem desenhar.

    Leila Slimani escreve:

    “Não sei se escrever me salvou a vida. Regra geral, desconfio desse tipo de formulações. Teria sobrevivido sem ser escritora. Mas não estou certa de que tivesse sido feliz.”

 

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