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O fim do mundo não terá acontecido, Patrik Ouredník (Antígona)

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      Não sei muito bem como definir este livro. É surpreendente e, ao mesmo tempo, divertido. E faz-nos pensar.     Gaspard, o protagonista, nasceu dez anos depois do fim da II Guerra Mundial, no dia do décimo aniversário dos bombardeamentos de Dresden. Depois de concluir os estudos universitários, passa cerca de três anos nos Estados Unidos, onde conhece a sobrinha do futuro presidente, que descreve como o presidente americano mais estúpido da história do país. Regressa a França e trabalha como tradutor até ser convidado para conselheiro do presidente americano.     O narrador, que quer escrever um livro sobre o fim do mundo, conheceu o Gaspard o suficiente para "recompor algumas sequências da vida gaspardiana". Gaspard teme ser descendente de Hitler, porque o seu pai estava convencido de ser o resultado de uma noite de amor  entre a sua mãe e um cabo alemão chamado Adolf Hitler. E por isso pesquisa e chega a fazer testes ADN para ver se tinha a...

O perfume das flores à noite, Leila Slimani (Alfaguara)

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    Há qualquer coisa nesta capa que me atraiu imediatamente. Uma imagem difusa, escura, na qual se destacam as pernas em andamento de uma mulher, escondidas a partir dos joelhos por um tecido branco. Uma mulher caminha descalça na noite. Percebemos depois que representa a noite que a autora passou no Museu Punta della Dogana, em Veneza.    O convite foi feito pela editora, Alina Gundiel, no âmbito de um projeto que deu origem à coleção “A minha noite no museu”. Há já vários volumes publicados nesta coleção, envolvendo sobretudo escritores e museus de França, mas também de outros países, como Líbano, Itália, Espanha ou Grécia. Nenhum autor ou museu português, o que lamento. Imaginei logo uma noite no Museu do Chiado ou no Museu Nacional de Arte Antiga.     A ideia é que o escritor explore o sentimento de solidão provocado pela noite de isolamento e escreva um livro nela inspirado. Leila Slimani quer recusar o convite ou qualquer outro convite que lhe seja f...

Tudo isto é Sarah, Pauline Delabroy-Allard (Alfaguara)

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    A pilha de livros que recebi entre o Natal e o meu aniversário continua grande e titubeante na primeira (ou será a última?) prateleira da estante de livros, que está no que antes era o quarto da minha filha e que agora designo de «meu escritório». Apesar da designação - e da função – é também o quarto dos brinquedos dos meus netos. Na estante da direita acumulam-se os livros deles, herdados da mãe e dos tios. Na estante da esquerda estão os livros por ler ou que quero perto de mim.     “Tudo isto é Sarah” estava no topo dos livros e, sem sequer o folhear ou ler o resumo na contracapa, comecei a lê-lo. É um livro inquietante, o relato de uma paixão violenta que derruba tudo à sua volta. Duas mulheres apaixonam-se sem que antes tivessem vivido relações com outras mulheres. Sabemos pouco sobre quem nos conta a história, a não ser que é professora e mãe solteira, porque o pai da criança desapareceu sem avisar. «Sou mãe de uma criança perfeita, professora de alunos n...

Que ce soit doux pour les vivants, Lydia Flem (La Librairie du XXI siècle)

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         Que ce soit doux pour les vivants (título que tento traduzir sem conseguir encontrar as palavras certas: Que seja doce para os vivos? Que seja suave para os sobreviventes? Que seja doce para os que sobrevivem?) foi-me recomendado por uma amiga que passou recentemente pela perda dos pais. Quando me recomendou a leitura, disse-me que o livro lhe foi oferecido por um irmão e que a ajudou no desconforto que sentiu a desmanchar a casa dos pais.     O livro não está traduzido para português – mas justificava-se que fosse – e foi editado 20 anos depois do livro Comment j’ai vidé la maison de mes parents. Conforme escreve Lydia Flem, o título do livro advém de uma frase dita por Maurice Olander, com quem vivia, pouco antes de morrer: é preciso que seja doce para os vivos. Mas considera que ainda não é o tempo para falar dele, para falar deles enquanto casal, por isso a Autora prossegue a escrita do livro anterior e regressa à casa dos pais.   ...

Combats et métamorphoses d'une femme e Qui a tué mon père, Édouard Louis

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     Entrei fora de horas, numa livraria, em S. Martinho do Porto. Ia sem objetivo certo, a fazer tempo numa noite de verão pouco estrelada e muito ventosa. Numas prateleiras, perto da caixa, encontrei vários livros deste autor, Édouard Louis, de que nunca tinha ouvido falar. Falo em conjunto dos dois livros porque me parecem quase a continuação um do outro.  São pequenas edições, em formato de livro de bolso. Li primeiro o Combats et métamorphoses d'une femme - que se encontra traduzido para português por uma editora brasileira -.      Num estilo que lembra o de Annie Ernaux, começa com a descrição de uma fotografia da mãe, de quando tinha vinte anos, e é essa imagem dela, ainda jovem, sedutora, que o faz pensar que ela já teria sido livre, antes do seu nascimento, e o faz perceber que os vinte anos que a mãe viveu com o marido, uma relação marcada pela violência, não era natural. Relata depois vários episódios, fazendo um mosaico da vida familiar e ...

Le viel incendie, Elisa Shua Dusapin (ZOE)

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       Não conhecia este livro, nem a Autora, Elisa Shua Dusapin. Filha de pai francês e mãe sul-coreana, nasceu em Paris, em 1992, onde viveu durante alguns anos. Atualmente reside numa pequena cidade na Suíça. Como ela própria refere, esta diversidade linguística e cultural ajuda a perceber a sua obra, em particular este último livro, «Le viel incendie». Tanto quanto consegui apurar, embora seja uma Autora premiada, nenhum dos seus livros foi traduzido para português, o que é de lamentar.      «Le viel incendie» recebeu o Prémio Wepler, da Fundação La Poste, e o Prémio Fénéon 2023. Como é dito na contracapa, depois de 15 anos de afastamento, Ágata, guionista em Nova Iorque, regressa à sua terra natal, Périgord, França, para, juntamente com a sua irmã mais nova, Vera, desmanchar a casa dos pais. Têm apenas 9 dias para o fazer, de 6 a 14 de novembro. As pedras da casa servirão para restaurar o pombal centenário de um vizinho, destruído por um in...

Não saí da minha noite, Annie Ernaux (Livros do Brasil)

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    Durante anos procurei livros sobre a velhice (e a demência) e a morte da mãe e confrontei-me com o seu reduzido número, ao contrário dos livros sobre a morte do pai. Li agora dois, excecionais, publicados recentemente sobre este tema: Misericórdia , de Lídia Jorge, e Não saí da minha noite. Ambos escritos por mulheres. Escritoras. Interrogo-me se os escritores, homens, escreverão mais sobre a morte do pai e as escritoras sobre a morte da mãe. Ultrapassando questões de afetos e ligações, tratar-se-á de uma questão de identificação? Numa entrevista – que li algures – sobre este livro (que me recuso a catalogar porque não consigo fazê-lo, nem me parece que importe), Annie Ernaux refere que tem consciência de que «a sua mãe representa “o tempo” e que de alguma maneira ela a “empurra” a ela, a sua filha, para a “morte”».      Surpreendeu-me a questão da noite, presente neste livro e em Misericórdia:      «Aqui onde me encontr...

A Breve Vida das Flores, Valérie Perrin (Editorial Presença)

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      Não sei porque associo férias a leituras mais ligeiras quando deveria ser exatamente o oposto. Mais tempo livre deveria permitir-me ler livros que a corrida do dia a dia quase sempre impede. Mas, em regra, estendo a preguiça dos dias de férias aos livros que leio, exceção feita aos livros cuja ação decorre no local para onde vou passear.      Nestas férias, quando embarquei para Cuba, não levava muitos livros porque para além de não ter espaço na bagagem, não pensava ter muito tempo para ler. Como tinha acabado de ler o último livro de Leonardo Padura, Como Poeira ao Vento , passado justamente em Havana, levei comigo «A Breve Vida das Flores», de Valérie Perrin, que me emprestaram.     Já tinha ouvido falar dele e tinha alguma curiosidade. Como é referido na contracapa, a protagonista, Violette Toussaint, é guarda de um cemitério, numa pequena vila e divide a vida entre a venda das flores, a anotação cuidadosa dos diferent...

Aimez-vous Brahms.., Françoise Sagan (Le Livre de Poche)

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      Há um cheiro característico dos livros novos e dos livros velhos. Não são cheiros iguais os de uns e de outros, mas só nessas épocas da vida é que os livros rescendem. O cheiro dos livros velhos acompanha as folhas amarelecidas, a pose arqueada e a capa fraturada ou mesmo rasgada nas pontas.     Gosto de ler livros velhos, com capas cuidadas, como a deste romance Aimez-vous Brahms..Gosto de pensar em quem o leu antes de mim. Veio da casa dos meus sogros e passou um período no congelador, embrulhado em sacos de plástico. Foi esta a receita que me foi indicada para eliminar traças dos livros, por isso, durante semanas, em vez de comida tivemos livros no congelador.     Aimez-vous Brahms? é a pergunta que um homem jovem, Simon, faz a Paule, uma mulher mais velha que ele e envolvida numa relação insatisfatória com Roger. Um triângulo amoroso ou um retângulo amoroso, porque Roger mantém também ele uma relação com uma jovem mulher....

O Segredo da Livraria de Paris, Lily Graham (Topseller)

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     Li há muitos anos o Silêncio do Mar, de Vercors. Tenho uma péssima memória mesmo para livros e autores, daí que tenha começado a escrever sobre as minhas leituras.   Mais do que fazer uma recensão, quero garantir que os livros que li se conservarão de forma vincada na minha memória e, caso esta me falhe, possa resgatá-los do esquecimento pesquisando no blogue.     Mas o Silêncio do Mar - Le Silence de la Mer , porque o li nas aulas de francês - ficou gravado em mim, sem que sobre ele tenha escrito ou anotado o que quer que seja. Não me lembro da história detalhadamente, mas recordo que contava a história de um oficial nazi que se instala em casa de uma família francesa (um homem e a sua sobrinha) que manifestam a sua resistência ao invasor através do silêncio. O oficial alemão era um homem culto que justificava a invasão com a união dos povos franceses e alemães que, segundo ele, personificavam a literatura e a música, respetivamente. ...

A Anomalia, Hervé le Tellier (Editorial Presença)

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   Um amigo emprestou-me este livro de Hervé le Tellier. Confesso que nunca tinha ouvido falar do autor, nem desta obra, nem mesmo a pretexto do Prémio Goncourt, atribuído há dois anos. Li-o num instante porque o difícil é interromper a leitura. Os ingleses têm a expressão page-turner (que é utilizada na contracapa) e que já tentei passar para português, sem encontrar correspondência. Recorro ao tradutor do google que me devolve a expressão “virador de página”. A verdade é que começamos a ler A Anomalia , a seguir uma personagem por capítulo e a tentar entender o que lhe aconteceu ou fez, sem compreender nada do que se passa, e vamos virando as páginas para ver se encontramos alguma explicação.     Sobre a anomalia que acontece e que dá o título ao livro, não poderei dizer nada em concreto, porque iria estragar o prazer da leitura e da sua descoberta.      Li as 276 páginas desta edição na expetativa (com receio) que Hervé le Tellier avança...

A Vida Apaixonante de Adriano, Marguerite Yourcenar (editora Ulisseia)

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    Demorei muito tempo a ler este livro. Depois de escrever esta frase, percebo que é verdadeira em mais do que um sentido: demorei muitos anos a decidir-me a lê-lo e demorei muito tempo a ler cada frase, cada página, cada capítulo. Porque é de uma enorme profundidade. Porque as palavras se encaixam na perfeição e nenhuma é supérflua. Porque, apesar do tempo e da distância, reconhecemo-nos em vários momentos. Afinal,mais do que ser um livro sobre a vida, são as memórias de um homem que se sente próximo da morte:     « Certas frações da minha vida assemelham-se já a salas desguarnecidas de um palácio demasiadamente vasto que um proprietário empobrecido renuncia a ocupar todo.» (pg. 12)      O livro, escrito como se fosse uma carta de Adriano a seu filho adotivo e futuro imperador, Marco Aurélio, é composto por 6 partes: Animula Vagula Blandula; Varius Multiplex Multiformis; Tellus Stabilita; Saeculum Aurreum, Disciplina Augusta e Patientia . ...

Os três crimes dos meus amigos, Georges Simenon (Relógio d' Água)

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    Não é habitual a aniversariante oferecer prendas - livros - a todas as convidadas, mas a Catarina é assim. Convida as amigas para jantar, sem lhes dizer que é para celebrar os anos - ainda bem que antes fui ver a minha agenda! - e antes de começarmos a comer, tira do saco vários livros que distribui. Mas não os distribui ao acaso, cada livro foi especialmente escolhido.     A mim calhou-me este livro do Georges Simenon: Os Três Crimes dos Meus Amigos . Apesar de saber que Simenon escreveu outros livros, ele era para mim o criador do Comissário Maigret, tal como Agatha Christie é a criadora de Poirot. Sei que ambos escreveram outros livros, mas identifico as suas obras com estas personagens. Li muitos livros destes autores durante a adolescência e  vi centenas de adaptações ao cinema. Por isso, apesar de gostar de ler policiais, considerava que já tinha esgotado a leitura das obras destes dois autores.     Percebi, depois de ler Os Três Crimes dos M...

La petite danseuse de quatorze ans, Camille Laurens (folio)

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    Durante muitos anos, no eixo que vai de Santos ao Largo do Rato, não havia qualquer livraria, com exceção da Livraria Parlamentar, situada na fachada lateral do Palácio de São Bento, contudo, a pouco e pouco este cenário foi-se alterando. Há cerca de dez anos abriu portas a livraria Palavra do Viajante , que vale a pena visitar e voltar. E visitar, sobretudo, antes de cada viagem, à procura de um guia ou de um livro em que o nosso próximo destino sirva de cenário. Não vendem livros on line porque apostam no contacto pessoal. Depois apareceu a Distopia , a Snob um pouco mais acima e, mais recentemente, a Stuff out dedicada à venda de livros em 2.ª mão.      Acho curioso este reaparecimento de livrarias independentes, com perfis distintos, geograficamente próximas e não muito distantes de outras livrarias, de maior dimensão, também inauguradas recentemente, situadas na Rua da Escola Politécnica. Reencontro o prazer das montras, da proximidade com o liv...

Os Anos, Annie Ernaux (Livros do Brasil)

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   Os Livros do Brasil fazem parte da minha juventude. Foi com esta editora e coleção (Livros do Brasil - Dois mundos) que conheci e li alguns autores que continuam a ser os meus preferidos: John Steinbeck, Ernst Hemingway, Albert Camus, Pearl S. Buck, Franz Kafka, entre tantos outros. Gosto da quase imutabilidade das capas e do destaque dado ao autor em detrimento do título.     Neste caso, não conhecia a autora, Annie Ernaux, mas o livro foi-me emprestado por uma amiga que já me tinha falado dele durante as caminhadas que, por vezes, fazemos ao final do dia. Seria incapaz de catalogá-lo ou rotulá-lo naquelas categorias precisas com que críticos e estudiosos arrumam os livros. A autora fala numa autobiografia impessoal (pg. 194), porque “ O importante, para ela, é a possibilidade de captar a duração que constitui a sua passagem pela Terra numa determinada época. Esse tempo que a atravessou, esse mundo que ela registou apenas por viver.”     Apesar d...