Notas sobre o luto, Chimamanda Ngozi Adichie (D. Quixote)

    Quando comecei a escrever este blogue, mal acabava de ler um livro sentava-me a escrever sobre ele. Achava fundamental transmitir as sensações e impressões que tinham resultado da leitura, o que só poderia fazer se as escrevesse imediatamente. Agora espero sempre alguns dias antes de me sentar a escrever, como se tivesse necessidade de digerir o que li. Nalguns casos releio partes do livro como se precisasse de amadurecer ideias. 
    Já há alguns dias que acabei de ler este livro. E já reli partes.
    Gosto muito dos livros da Chimamanda (dispenso os apelidos por sentir que a conheço muito bem). Dela li A Cor do Hibisco, Todos devemos ser feministas, A coisa à volta do teu pescoço e Americanah. Recordo-me que foi a minha mãe quem primeiro me falou dela e me emprestou este último livro que foi o primeiro que li.
    Não resisti por isso a comprar este Notas sobre o luto, sabendo de antemão que o luto de que falava era o do pai, que morreu, inesperadamente, durante  a pandemia. Sabia que ela poria em palavras o que senti com as mortes ainda recentes dos meus pais, como quando escreve:
    "O luto é uma forma cruel de aprendizagem. Aprendemos que a dor de perder alguém pode ser muito dura, cheia de raiva. Aprendemos que as condolências podem afigurar-se-nos completamente ocas. Aprendemos que uma grande parte do luto se prende com a linguagem, com o fracasso da linguagem e a busca da linguagem." (pg. 11) "Estremeço ante as palavras que eu própria disse, no passado, a amigos enlutados. (...) Espero que seja uma questão de tempo: que seja simplesmente demasiado cedo, terrivelmente cedo, para esperar que as recordações sirvam de lenitivo." (pg. 37)
    Termina ela própria por encontrar consolo numa frase que escreveu num livro e que um amigo lhe relembra:
    "A dor era a celebração do amor, quem sentia a verdadeira dor do luto tinha a sorte de ter amado." (pg. 80)
    Notas sobre o luto acaba com a constatação que impressiona sempre quem passa por uma perda:
    "Escrevo sobre o meu pai no pretérito e não consigo acreditar que escrevo sobre o meu pai no pretérito."
    Não é um livro que ajude quem está de luto, a não ser por pôr em palavras o que sentimos quando perdemos alguém que amamos.

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