domingo, 25 de março de 2018

A Cozinha Açafrão, Yasmin Crowther (Dom Quixote)

    Existe sempre um certo receio em começar um novo livro: vamos gostar?; vai prender-nos?; vamos passear com ele indefinidamente, inventando sempre uma nova desculpa para não lhe pegarmos? E se este novo livro vem na sequência de um outro que não nos despertou interesse, o receio é ainda maior. Afinal, com tanta coisa para ler, o que menos nos apetece é perder tempo com livros que não nos tocam.
    Por esse motivo, quando peguei em A Cozinha Açafrão, depois de ter desistido da leitura de Era Tudo tão Bom, queria mesmo que fosse um livro que me envolvesse. Apesar de tudo, já estava na minha estante há algum tempo, porque foi uma compra impulsiva à conta da promoção em que se encontrava; ainda assim, uma amiga muito querida já me tinha dito que tinha gostado, descrevendo-o como "muito forte". E é. Subscrevo a opinião.

    Gosto de livros sobre outras culturas; é a minha forma de viajar e conhecer o mundo sem ter de sair de casa nem pagar uma fortuna. Neste em particular, o choque entre realidades fica bem patente porque é parte do tema dele. 
    Maryam Mazar é filha de um influente homem do Irão. Com dezasseis anos, luta contra as amarras da tradição que lhe exigem o casamento com alguém da sua classe, quando o que mais quer é estudar e tornar-se independente por meios próprios. Numa noite de conflitos cerrados na região, é resgatada pelo ajudante do pai, Ali, por quem nutre talvez uma paixão de adolescente. Depois dessa noite, a vida de Maryam sofre uma reviravolta irreversível, que a marca para sempre e a leva ao exílio, por parte do pai, primeiro para Teerão e depois para Londres.
   É em Londres que refaz a vida, casa com Edward e juntos têm uma filha, Sara. Mas a vida passada de Maryam persegue-a e não a deixa estar plenamente viva em Londres. A chegada do sobrinho vem reabrir a porta atrás da qual Maryam tanto se esforçara por manter trancados os fantasmas da sua adolescência, e ela vê-se forçada a abandonar a família para se reconciliar com o passado. 

   É uma história cruel, que nos mostra como as feridas que nos marcam nos perseguem por toda a vida e, mais tarde ou mais cedo, se reabrem e acabam por se repercutir também naqueles que nos rodeiam (...não é só a vida dela (...). É também a vida da família dela aqui, e agora, a família em Inglaterra. A história é que ela partiu o coração ao pai, e agora também te magoa a ti, não é, com esta vida dela?). É a história de uma mãe perseguida por um trauma que se esforça por esconder, e de uma filha que se se sente traída por esse passado que não lhe pertence mas que a acompanha sempre  E é uma história de reencontros, de reconciliações, de como precisamos realmente de entrar na pele do outro para podermos perceber que a vida e as decisões tomadas não se pintam apenas de preto ou branco.

    Depois de ele ter saído, Maryam apanhou o cabelo. Procurou na mala o chador cor-de-rosa que comprara com Mairy no bazar há anos atrás, sacudiu-o para o abrir, e segurou-o em frente à cara; um cheiro a lavanda inglesa nas dobras. Colocou-o à volta da cabeça e dos ombros e ajoelhou-se para se ver no fragmento de espelho que Noruz apoiara no parapeito da janela. Estava com um ar cansado, ela sabia-o, e pôs creme na cara, a fragrância recordando-lhe a sua casa de banho de mármore de Londres. Respirou fundo, tentando manter unidas as fronteiras rasgadas do seu mundo, passando cautelosamente de um lugar para outro.

    Um crítica? Como já vem sendo hábito - infelizmente - a tradução. Alguns pontos não consegui perceber se eram de facto pequenas falhas linguísticas ou tentativas de manter essas falhas que teriam sido dadas no original. Mas não eram todos.

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