domingo, 18 de fevereiro de 2018

O último dia dum condenado, Victor Hugo (Portugália Editora)

   Tive oportunidade de ver recentemente a adaptação ao teatro de "O último dia de um condenado", de Victor Hugo, encenado por Paulo Sousa Costa e interpretado por Virgílio Castelo.

     Já tinha lido este livro há muitos anos, quando estudava, e decidi relê-lo, sobretudo porque a peça não suscitou em mim a emoção, a intranquilidade que recordava ter sentido aquando da leitura da obra. Confesso que não gostei de algumas opções da encenação /interpretação, sobretudo do facto de o ator - embora muito pontualmente - assumir também o papel do interlocutor, inclusive o da  filha pequena que o visita. Penso que é uma opção que não resulta, estragando a intensidade do drama que a personagem vive, especialmente naquele momento.

    O livro é um libelo contra a pena de morte. Victor Hugo era opositor à aplicação desta pena e este livro, publicado em 1829, destinava-se justamente a questionar a sua aplicação. O livro escrito na primeira pessoa, por um condenado à morte, assume claramente este objetivo:
    "Será que a leitura deste meu texto lhes poderá tornar a mão menos rápida quando algum dia estiver em jogo, naquilo a que eles chamam balança da justiça, uma cabeça que pensa, uma cabeça humana? Será que eles nunca terão refletido, os infelizes, na lenta sucessão de torturas que uma sentença de morte contém? Será que alguma vez se detiveram pensando na dolorosa ideia de que no homem que condenam existe uma inteligência, uma inteligência que contava viver, uma alma que não estava preparada para a morte?
(...)
    Estas folhas desenganá-los-ão. Talvez que um dia, publicadas, façam deter o seu espírito sobre os sofrimentos que eles não imaginam, os sofrimentos do espírito."

    Gostei de reler o livro, mas é um livro muito datado e que se encontra de forma evidente subordinado ao desígnio do autor, pelo que é totalmente centrado na angústia da antecipação da morte, ignorando a questão, que me parece inevitável que também fosse aflorada, do que vem a seguir à morte. Há apenas o receio físico da morte. A omissão do crime praticado é, suponho, intencional, para evitar que em função disso, tivéssemos simpatia ou não pelo condenado, contudo, a inexistência de qualquer reflexão sobre o crime, sobre a culpa e sobre a justiça da pena também nos distanciam da obra.
    Lugar central na história é ocupado pelo povo que anseia e assiste à aplicação da pena de morte, como de resto, antes, o condenado assistiu à partida para o degredo de outros condenados.
   
    Sabendo que Portugal foi o primeiro país europeu a abolir a pena de morte - comemora-se este ano 150 anos - fiquei absolutamente surpreendida ao descobrir que a pena de morte foi abolida em França apenas em 1981. Até esse ano ainda era aplicada a pena de morte e o método permanecia a decapitação com a guilhotina que foi usada pela última vez em 1977. E ainda no século XX, até 1939, a execução com guilhotina  era pública, passando nessa data a ser executada no interior dos estabelecimentos prisionais.

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