sábado, 16 de junho de 2018

Uma noite em Lisboa, Erich Maria Remarque (Edições Saída de Emergência)

  
  Confesso que para além do autor, foi o título da obra, a menção a Lisboa,  que me atraiu e suscitou curiosidade.
    Lisboa, que serve de cenário a esta história, é sobretudo vista como um lugar de passagem, mas, em plena segunda guerra mundial, pelo contraste que oferece relativamente aos restantes países europeus, tem um toque encantatório:
   Embora estivesse em Lisboa há já uma semana, ainda não me habituara à sua iluminação exuberante. (...) Contornámos a Praça do Comércio com o seu aspeto teatral e, passado algum tempo, chegámos a um labirinto de vielas e escadarias inclinadas (...) Cheirava a peixe, alho, flores, sol morto e sono. De um lado, sob a Lua nascente, o Castelo de São Jorge sobressaía na noite, e o luar descia em cascata pelos degraus. Voltei-me e olhei para o porto lá em baixo. Ali estendia-se o rio, e o rio era sinónimo de liberdade e vida; corria para o oceano, e o oceano queria dizer América (...)  De dia Lisboa tem uma qualidade ingénua e teatral que encanta e cativa, mas à noite é uma cidade de conto de fadas, descendo em terraços iluminados até ao mar, como uma senhora de vestes festivas a ir ao encontro do seu misterioso amante. (...)
    E é justamente no cais, junto de um navio que ia partir para a América, que dois homens, refugiados, se encontram. Um dos homens aborda o outro e diz-lhe que tem dois bilhetes para aquele navio e que lhos oferece. Apenas lhe impõe uma condição: não quer passar a noite sozinho. Em troca dos bilhetes terá de lhe fazer companhia até ao amanhecer. O outro aceita e primeiro vão para o terraço de um restaurante e depois circulam por diversos espaços noturnos, enquanto o primeiro, Schwarz, que usava o nome que constava do passaporte que também lhe tinha sido oferecido por outro refugiado, lhe conta a sua história de amor. E é uma belíssima história de amor, sem cedências a lugares comuns.
    Mas o que mais ressalta na história que é contada é a extraordinária capacidade de resistência e solidariedade humana, materializada na repetida oferta do passaporte que, sendo um ato de generosidade, mantém, de alguma forma, vivas as pessoas que o utilizaram anteriormente: 
    (...) Por estranho que possa parecer, comecei a interessar-me por pintura, arte que até então nunca tivera significado para mim - pareceu-me que foi algo que herdei do há muito falecido Schwarz original. Lembrava-me muitas vezes do outro Schwarz, que talvez ainda estivesse vivo, e os dois fundiram-se no meu espírito, transformados num fantasma indistinto, cuja presença eu por vezes pressentia. (...)
    E a questão da memória e da permanência terminam por ser centrais nesta história: 
    (...) Entre um homem e a imagem que  o espelho lhe reflete, qual dos dois será real? O ser humano ainda vivo, ou a memória que dele fica, a imagem que o luto lhe confere? (...) Será possível que ela (a mulher) nunca antes tenha sido absolutamente minha e que apenas pela alquimia sinistra da morte tenha passado a pertencer-me? (...)
    Um livro extraordinário.

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