quarta-feira, 25 de julho de 2018

Orgia dos loucos, Ungulani Ba Ka Khosa (alcance editores)

    Nunca tinha lido nada deste autor, que já tem vários livros publicados, um dos quais (Ualalapi) foi considerado um dos 100 melhores romances africanos do século XX. Apesar disso, não consegui encontrar livros dele entre nós. Este livro  foi-me recomendado quando estive em Maputo, em 2017, mas só agora o li.
    Conforme é dito na contracapa, a obra, composta por nove contos, tem como plano central a imagem de um país independente, mergulhado na guerra civil e marcado pela escassez, pela pobreza e pelo aviltamento da cultura endógena. E, contudo, é de uma beleza surpreendente:
    O tempo entrou pela casa adentro e vagueou como um pássaro ferido pela sala enorme e moribunda, procurando as frestas por onde se infiltrou e estancou, reduzindo os séculos e séculos de luz em pó e cinza. As lascas de tinta caíam do tecto e das paredes, formando figuras estranhas e desconhecidas no chão sujo; as baratas e os ratos circulavam sem pudor, brincando na luz e na sombra, passeando por entre as cadeiras e mesas do tempo da pacificação, e olhando com certa naturalidade as teias de aranha que se ligavam entre si, criando um céu de nuvens poluídas que se rarefaziam à luz da lâmpada que se limitava a iluminar o centro onde as vozes da noite chegavam aos bocados, partidas, fragmentadas e se amontoavam no círculo de luz, deixando o tantã longínquo arremessar-se à sombra e às paredes onde os espíritos petrificados dos brancos da desordem e da mentira, incapazes de sustarem o avanço dos deuses africanos, sonhavam com galeras remotas que os libertassem das lianas que os afastavam do mar da descoberta e da civilização. (A solidão do senhor Matias). 
    Mas a escrita poética acentua mais a tristeza de alguns dos contos, a fome, a morte, as perdas. Particularmente doloroso o conto A praga: (...) O filho, sentado a cinquenta metros da casa, comia as crostas das feridas mal saradas que cobriam o corpo. Com  gestos calmos e precisos Kufenei tirava as crostas do corpo e levava-as à boca. Os dentes esmagavam, trituravam. E Luandle ouvia o som, o ruído. Kufenei comia com sofreguidão as crostas. As feridas brilhavam ao sol. (...)
E imensamente divertido e surpreendente o conto A revolta.
    Um livro que só peca por ser tão pequeno.

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