sexta-feira, 4 de maio de 2018

A Amiga Genial, Elena Ferrante (Relógio d' Água)

   
    Resisti algum tempo ao fenómeno Elena Ferrante, alimentado pela tetralogia que começa com este livro, A Amiga Genial, e adensado pelo mistério sobre a sua identidade. Quanto à questão da identidade, seja qual for a razão que a justifica, é uma decisão que admiro e respeito, contudo, ao longo da leitura deste livro dei por mim a pensar que este livro tinha sido escrito por uma mulher. Dificilmente imagino um homem a falar por uma adolescente, a compreender tão perfeitamente o que se passa na cabeça de uma jovem, ao longo da sua adolescência. Imaginei também que quem o escreveu, tinha ao lado um diário, ou mesmo uma resma de diários, daqueles que têm um pequeno cadeado, escritos ao longo de anos e que ia consultando enquanto escrevia. É quase impossível pensar que não se trata de um relato autobiográfico, de tão detalhado que é, ideia que é reforçada pelo facto de a personagem principal, a narradora, ostentar o mesmo nome próprio da autora, Elena.
   Lido o primeiro livro, não me resta outra alternativa senão prosseguir e faço-o sem esforço e com prazer até. O mesmo prazer que sinto quando leio um bom livro policial. O livro começa assim:
Rino telefonou-me esta manhã, pensei que quisesse outra vez dinheiro e preparei-me para lhe dizer que não. Mas o motivo do telefonema era outro: não sabia da mãe.
"Há quanto tempo?"
"Há duas semanas."
"E agora é que me ligas?"
    E acaba com um golpe de génio. Depois de o fecharmos, é difícil passar um dia inteiro sem  poder lançar mão do segundo volume e começar a lê-lo sofregamente.
    O livro trata da amizade entre duas raparigas, Elena e Lila, que vivem num bairro pobre napolitano, em meados do século XX. As duas são muito inteligentes, mas Lila, ao contrário de Elena, não continua a estudar e termina por casar aos 16 anos, com uma grande festa, para a qual são convidados todos os habitantes do bairro. As vidas das duas vão divergindo mas conservam intacta a amizade que as une, feita de cumplicidade mas também de admiração. Ambas consideram a outra a amiga genial.
    Nalguns aspetos o livro oferece-nos um retrato próximo da realidade portuguesa de alguns anos atrás, na questão da escola, na quase inexistência de mobilidade social, na situação das mulheres, nas relações familiares, mas noutros é tipicamente italiana: 
    Continham a raiva por amor de Lila, mas no fim da festa, quando ela fosse mudar de roupa, quando regressasse vestida com o traje de viagem, quando já tivesse distribuído as lembranças, quando já se tivesse ido embora, toda elegante, ao lado do marido então rebentaria uma rixa monumental, que daria origem a ódios que durariam meses e anos, e  a despiques e ofensas que envolveriam maridos, filhos, todos eles com a obrigação de mostrar às mães e às irmãs e às avós que sabiam ser homens.
    Quase que conseguimos vê-los....

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