quarta-feira, 27 de junho de 2018

A mulher de cabelo ruivo, Orhan Pamuk (Editorial Presença)

    Alguns dias antes do dia da mãe descobri que iria ser editado entre nós mais um livro do Orhan Pamuk, A mulher de cabelo ruivo. Enviei a notícia aos meus filhos, sugerindo-lhes que mo oferecessem. Estraguei a surpresa que me preparavam, porque antes mesmo da sua publicação já o tinham encomendado, mas foi com o mesmo prazer que o recebi.
    A história, ou pelo menos a parte inicial, está sumariamente contada na contracapa do livro: um jovem estudante, Cem, vai trabalhar como aprendiz de um escavador de poços antes de se candidatar à universidade. O pai, um militante de esquerda, que já tinha estado preso, deixara depois a mulher e o filho, que passavam então sérias dificuldades financeiras.
    O jovem e o escavador de poços, o mestre Mahmut, criam uma ligação muito forte, até porque o jovem pouco se recorda do pai, e está numa fase da vida em que lhe sente particularmente a falta, e o mestre, por seu lado, porque não tem filhos. Para além disso, o isolamento a que estão sujeitos e o trabalho que fazem tornam essa relação quase inevitável, o que é ainda reforçado pela cumplicidade que ambos desenvolvem, contando diariamente histórias um ao outro.
   Habitualmente, ao final do dia descem à cidade onde se encontra uma companhia de teatro itinerante na qual atua a mulher de cabelo ruivo, por quem o jovem se apaixona. Mas se a mulher de cabelo ruivo deu o nome ao livro e é crucial no desenrolar da história, esta centra-se essencialmente na relação entre pai e filho, ou, melhor dizendo, entre pais e filhos. O mito de Édipo é repetidamente mencionado - e se não o fosse, seria, inevitavelmente, lembrado - bem como a história de Rostam, que matou o filho Sohrab por engano, uma lenda persa narrada no Shahnameh.
    Este cruzamento faz parte do fascínio dos livros deste autor porque, tal como o seu país, as suas histórias têm dois mundos distintos que ele convoca simultaneamente, o ocidente e o oriente. Ao mesmo tempo, e como é habitual, o pano de fundo é a cidade de Istambul, e da imensa evolução que teve nos últimos 40 anos.
  
    Depois de deixar o mestre, Cem entra para a universidade  onde estuda engenharia geológica e torna-se um abastado empreiteiro de construção civil, dono de uma empresa a que dá o nome de Sohrab. Quando decide comprar terrenos, na zona onde vários anos antes  tinha estado a escavar o poço com o mestre, é confrontado com o seu passado e com as consequências dos seus atos. 
    Será ele Édipo ou Rostam?
    Neste livro, como nos outros livros deste autor, o que nos apaixona é a forma como é contada a história e como vai desvendando a relação entre as várias personagens.
    Roubei muitas frases, mas vou citar apenas duas que são muito expressivas relativamente à história:
    (...) Nesses momentos, pensava: as ocasiões em que sou mais eu próprio são aquelas em que ninguém está a olhar. Mal começara ainda a descobrir esta verdade. Quando não há ninguém para nos observar, o outro eu que mantemos escondido dentro de nós pode vir cá para fora e fazer o que lhe apeteça. Mas, quando se tem um pai suficientemente perto para tomar conta de nós, esse segundo eu fica enterrado cá dentro.(...)
    (...) Será que a necessidade de um pai existe sempre ou só a sentimos quando estamos confusos ou angustiados, quando o nosso mundo está a cair aos pedaços?     


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