Na pilha de livros que tenho para ler, resolvi entremear os recentes, que me foram agora oferecidos, com velhos livros que fui buscar às estantes familiares. Quando os estava a arrumar, folheei este e não consegui largá-lo.
A escrita, sobretudo, surpreendeu-me. Lê-lo é quase como ver o que nos é contado. A paisagem, a ventania, o forno derruído, as personagens. Avançamos pela história como se estivéssemos a seguir as indicações do encenador: Estão ambas junto da lareira apagada, sentadas nos mochos, sumidas nos vestidos pretos. Em redor, sombras espessas diluem as paredes e os recantos numa só mancha circular. Apenas as cantarias da lareira, batidas pela luz que vem da porta, se salientam aprumadas.
Mas o rigor das descrições é acompanhado de uma enorme riqueza de imagens: Às arrecuas, Amanda Carrusca procura o momento oportuno para novo pontapé. O vento enche-lhe as saias, a ponta do lenço, dobrada para o alto da cabeça, sobe como uma enorme crista negra.
A história que nos é contada é baseada num caso verídico, passado no Alentejo, numa pequena vila próxima de Beja, nos anos 30 do século passado, embora o autor diga no final que se trata de ficção (porventura terá sido esta declaração final do autor que evitou que o livro tivesse sido censurado quando foi publicado pela primeira vez em 1958).
O Palma, que vive com a mulher, a sogra e os dois filhos mais novos, um dos quais autista, é acusado de roubar sacas de cevada e por isso não consegue arranjar trabalho. Desesperado, começa por tentar caçar (inolvidável a luta com o pastor e com a águia pelo corpo do coelho) e depois aceita começar a contrabandear. O desespero que ele sente é-nos transmitido também pela imagem do forno que caiu, pelo balancear e chamamento do filho autista e pela sempre presente ventania. Sentimos a todo o momento que se vai dar uma tragédia cujos contornos ignoramos mas que antecipamos logo às primeiras páginas.
Quando acabei de o ler percebi que um livro extraordinário não precisa de seguir regras nem truques para ser lido. Não é preciso uma reviravolta na história para reter a atenção do leitor se o livro for bom. Da mesma maneira que não é preciso escrever na capa e na contracapa que se trata do melhor livro do ano.
Uma palavra também para a elegância da edição e a beleza da sobrecapa, com imagem do Marcelino Vespeira.
Nas pesquisas que fiz depois de o ler descobri surpreendida, que foi recentemente transposto para o cinema por Sérgio Tréfaut, com o título Raiva. Apesar de ter estreado em várias salas em outubro de 2018, já não está nos circuitos comerciais e não consegui encontrá-lo.

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