Seara de vento, Manuel da Fonseca (Editora Ulisseia)
Na pilha de livros que tenho para ler, resolvi entremear os recentes, que me foram agora oferecidos, com velhos livros que fui buscar às estantes familiares. Quando os estava a arrumar, folheei este e não consegui largá-lo. A escrita, sobretudo, surpreendeu-me. Lê-lo é quase como ver o que nos é contado. A paisagem, a ventania, o forno derruído, as personagens. Avançamos pela história como se estivéssemos a seguir as indicações do encenador: Estão ambas junto da lareira apagada, sentadas nos mochos, sumidas nos vestidos pretos. Em redor, sombras espessas diluem as paredes e os recantos numa só mancha circular. Apenas as cantarias da lareira, batidas pela luz que vem da porta, se salientam aprumadas. Mas o rigor das descrições é acompanhado de uma enorme riqueza de imagens: Às arrecuas, Amanda Carrusca procura o momento oportuno para novo pontapé. O vento enche-lhe as saias, a ponta do lenço, dobrada para o alto da cabeça, sobe com...