Corpo de Cristo, Bea Lema (Iguana)

   

    Ouvi falar deste livro e fiquei curiosa, não tanto pela temática, mas pelo facto da autora, Bea Lema, utilizar bordado juntamente com desenho.
    Bea Lema nasceu na Corunha em 1985. É autora de banda desenhada e os temas em que trabalha são de carácter autobiográfico. Neste, Corpo de Cristo, fala-nos da doença mental da mãe e como os outros elementos da família - o pai, Bea e o irmão - lidaram com a situação. Aborda também o impacto da Igreja na doença da mãe, bem como a sua infância, marcada pela morte de um irmão, ainda bebé, e pelo alcoolismo do pai que depois de beber se transformava num demónio.
    À descrição do quotidiano familiar, marcado pela depressão da mãe, junta imagens de declarações médicas e prescrição de medicamentos. Perante a ausência reiterada do pai e a aparente indiferença do irmão, é a filha, ainda menor, que se ocupa da mãe. A relação inverte-se. Particularmente impressionante é quando já adulta aceita passar uns dias fora e a mãe desestabiliza e é então que fala com o pai e o irmão e a relação entre eles muda.  No fim, comunica à mãe que recebeu uma bolsa para ir para França trabalhar no seu próximo livro. A  mãe está equilibrada e as duas despedem-se, contudo, "todas as noites, pensava que o telefone poderia tocar e me iriam comunicar uma catástrofe. 
    «A mãe voltou a ligar para os vizinhos.»
    «A mãe tomou demasiados comprimidos.»
    «A mãe não voltou para casa.»
    «A mãe morreu.»"
    Não resisto a juntar algumas imagens do livro:


    Vendo estas páginas com imagens bordadas, lembrei-me da exposição de Mounira Al Solh, artista libanesa, que vi no ano passado em Serralves, que retrata a infância de Mounira, durante a guerra civil libanesa. Peças de roupa, com buracos redondos e bordados e à volta. Por eles passava a luz, lembrando pequenos sóis.

    "Para me ajudar a dormir durante a guerra, a minha mãe dizia-me para rasgar buracos nos meus pijamas, e bordar à volta do rasgão. Isso acalmava-me, e fazia com que eu adormecesse”.

    Corpo de Cristo ganhou o Prémio Nacional del Comic, Espanha e o Prémio do Público no Festival d'Angouléme, França.

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