As flores do riso, Osamu Dazai (Presença)
Leio "As flores do riso" depois de "Se um dia voltar" que, em mais de 400 páginas, relata a vida de uma mulher que foge de Espanha para a Argélia, então ainda uma colónia francesa. Ao contrário de "Se um dia voltar", "As flores do riso" decorre em apenas 4 dias, num sanatório, onde Yozo Oba, um homem jovem, recupera de uma tentativa de suicídio. Dois amigos, a enfermeira e o irmão acompanham-no no processo de recuperação e, ao contrário do que se poderia esperar, em vez de reflexões sobre a vida e a morte, e a tristeza pela mulher com quem se tentou matar e que de facto morreu, encontramos um ambiente descontraído e até alegre. E esse ambiente vai estender-se até aos outros quartos e doentes.
Mas o mais curioso é o diálogo permanente do autor com o leitor, numa tentativa sistemática de se justificar, desde a escolha do nome do protagonista, até aos diálogos entre as personagens, apresentando-se também como um elemento da história:
"Perdoem-me! O que acabo de escrever não passa de uma invenção. Estava a fingir-me de tolo. Tudo o que fiz foi propositado. Enquanto escrevia, comecei a sentir vergonha dessa ideia de construir um, hum, romance atmosférico, e por isso o destruí intencionalmente. Se as coisas realmente se desmoronaram, assim aconteceu porque o planeei. «Mau gosto», dizem vocês? É possível que sim, mas serão essas as palavras que melhor resumem o pungente sentimento que me aflige o coração. Se ao perverso interesse em intimidar pessoas chamam mau gosto, a expressão ajustar-se-á na perfeição ao modo como existo no mundo. Aterroriza-me o fracasso. É-me insuportável a ideia de ver os segredos do meu coração revelados. No entanto, qualquer esforço para o contrariar é vão. Ah! Não são todos os autores assim, prontamente dispostos a mascarar as suas confissões? Mal mereço a inclusão na categoria dos humanos. Serei algum dia um membro funcional da sociedade." (pg. 37) E este monólogo/diálogo continua, assumindo que tentou ser o primeiro autor japonês a empregar o que considera ser o estilo ocidental, através do narrador na primeira pessoa.
Mais à frente escreve:
"Este romance estava condenado desde o princípio. Todo ele é pose e ausência de substância. Quer escreva uma página ou cem, vai tudo dar ao mesmo. Apesar de desde o primeiro momento saber que seria assim. Chamem-me otimista. Supus que no decorrer da escrita depararia com uma qualquer qualidade redentora. Sou medíocre, é verdade." (pg. 61)
Mais do que uma vez questiona a afirmação atribuída a André Gide: "Com bons sentimentos sempre se faz má literatura" e por isso parece procurar atribuir às suas personagens maus sentimentos, se assim se pode dizer, como a quase indiferença perante a morte da jovem mulher.
No quarto e último dia da estadia de Yozo no Hospital, Mano, a enfermeira que lhe foi destinada, sugere subirem a encosta para desfrutarem da paisagem, e assim o fazem.
"E depois ... Não, é tudo o que tenho para contar." são as últimas palavras de "As flores do riso".
Penso que as interrupções sucessivas do autor, o desalento e discurso humilde que transmite, começa por ser desconcertante e depois cansa.

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