Sem destino, Imre Kertész (Editorial Presença)
Nas
minhas estantes convivem livros da minha juventude, livros que fui comprando ao
longo dos anos ou que me foram oferecidos, livros emprestados – e que prometo
devolver – e livros que trouxe de casa dos meus sogros e dos meus pais, quando
tivemos que as desmanchar. E juntamente com esses, vieram livros de casa dos
meus avós, cuja origem descubro ou relembro quando vejo uma assinatura ou uma
dedicatória nas primeiras páginas. Mas é sempre com imensa nostalgia que encontro
na primeira página de um livro, no canto superior direito, a lápis, uma letra e
um número. Sei logo que esse livro veio de casa dos meus pais e que a sua
arrumação obedecia a uma lógica em que identificávamos a estante pela letra, por
ordem alfabética, da esquerda para a direita, e depois a prateleira, contando
de baixo para cima. «Sem destino» tem escrito E-3 e ao ler estas coordenadas
sei imediatamente onde estava arrumado.
Confesso que foi uma surpresa este livro. Depois
de o ler descubro que foi lançado originalmente em 1975 e que o Autor, Imre
Kertész, recebeu o prémio Nobel em 2022, «pela escrita que defende a frágil
experiência do indivíduo contra a arbitrariedade bárbara da história».
Apesar de dizer que não se trata de um
livro autobiográfico é impossível ignorar as coincidências. Em «Sem
destino», um jovem com 14 anos, György Köves, vive com a madrasta depois de o
pai ter ido para um campo de trabalho. Passado
algum tempo também ele é obrigado a trabalhar nas Refinarias de Petróleo Shell.
Um dia o autocarro em que ele e os restantes trabalhadores seguiam é mandado
parar por um polícia que pouco sabe a razão, porque, como lhes explica «aguarda “uma
certa ordem”.» Seguem depois num comboio e quando chegam ao destino, Auschwitz,
sem que ele perceba porquê, um dos judeus que os recebe insiste para que ele
diga que tem 16 anos, o que ele faz e lhe permitirá ser considerado apto e sobreviver. Quando começam a sentir
o cheiro vindo da chaminé, é-lhes dito que se tratava de uma fábrica de curtumes,
mas pouco tempo depois ficam a saber que se tratava de um crematório:
“Ali, mesmo à nossa frente, estavam a ser
queimados os nossos companheiros de viagem, todos aqueles que tinham querido ir
nos camiões e todos os que o médico, por razões de idade ou por quaisquer
motivos, havia considerado inaptos, bem como as crianças e, com elas, as mães e
todas as outras que em breve o seriam, aquelas em que esse estado se notava já,
como diziam. (…) Entretanto, ouço, são, até ao fim, muito amáveis para eles,
tratam-nos carinhosamente, às crianças é permitido cantar e jogar à bola, e o
local onde são gaseados é muito bonito e bem cuidado, situado entre relvados,
com grupos de árvores frondosas e canteiros de flores.» (pg. 80).
De Auschwitz é levado para Zeitz e depois
para Buchenwald. György vai sobrevivendo, apesar do horror a que assiste e sofre:
“Eu posso declarar que, após tantos
esforços, tantas tentativas e fadigas inúteis, com o tempo, também eu
encontrara a paz, a quietude, maior à-vontade. Certas coisas, por exemplo, a
que, antes, atribuía um significado enorme, direi mesmo inconcebível, tinham
perdido aos meus olhos toda a sua importância. “(pg. 121)
No final da guerra, o campo de Buchenwald é
libertado e ele parte com os outros sobreviventes, “de camião, de carroça, a
pé, de autocarro, segundo o que os diferentes exércitos punham à [nossa]
disposição. “
Absolutamente surpreendente é o facto de no final da viagem o revisor lhe exigir bilhete, apesar de ser evidente que se tratava de alguém que tinha estado num campo de concentração. Escrito como se se tratasse de um diário, na primeira pessoa, surpreendi-me porque em “Sem destino” há uma dimensão de absurdo que se sobrepõe ao horror. E a noção da imprescindibilidade da felicidade para se poder sobreviver.

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